Negócios

Com pandemia, 20% dos salões de beleza devem encerrar atividades


Estudo da ABSB aponta que, para 82% dos negócios, faturamento caiu e 73% ficaram endividados. Vendas e promoções via redes sociais, como fez o Square&Company (acima), deram algum fôlego


  Por Karina Lignelli 18 de Janeiro de 2021 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Com 1,250 milhão de CNPJs no país, o setor de serviços de beleza, que inclui salões de cabeleireiro, de procedimentos estéticos não-clínicos e esmalterias, agora lida com os rescaldos da pandemia.

A quarentena decretada em março de 2020, que manteve esses estabelecimentos, em sua grande maioria de pequeno porte, fechados até o início de julho, levou 5% deles a encerrarem suas atividades definitivamente. 

Considerando a demora e os custos necessários para fechar uma empresa no Brasil, esse montante de salões desativados deve bater nos 20%. Os dados são do levantamento 'Retrospectiva 2020', da Associação Brasileira de Salões de Beleza (ABSB), realizado com base em dados do Sebrae Nacional e sindicatos.    

''O comércio foi duramente atingido pelas restrições mas, assim como bares, restaurantes e agências de viagem, os salões de beleza foram os que mais sofreram", afirma José Augusto Ribeiro, presidente da ABSB. 

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E a tendência é que esse número aumente ainda mais nesse 1º trimestre, diz Jefferson Amaury Massari, diretor do Sindibeleza-SP (sindicato patronal), por causa do aumento de casos de covid-19, novas restrições de dias e horários de funcionamento e, principalmente, pelo fim do Auxílio Emergencial e da redução de jornada e salários.

Para quem continuou na briga, obedecendo todas as medidas restritivas para evitar contágio e preservar a saúde da equipe e dos clientes, o cenário não foi fácil: 82% relataram queda no faturamento.

Com redução média de 42% nas receitas, o cenário não podia ser diferente: 73% dos salões de beleza ficaram endividados e 58% relataram atraso no pagamento das contas.   

A alta dos custos de ocupação, e em especial dos alugueis calculados pelo IGP-M que subiu mais de 20% em 2020, foi um fator determinante para dificultar a vida desses negócios, segundo Ribeiro, da ABSB.

Principalmente para os localizados em shoppings: o ideal, explica, é que esses custos, que incluem aluguel, condomínio e fundo de promoção, não ultrapassem 10%. Com faturamento menor, ficaram entre 25% e 30%. 

"Com a reabertura, os lojistas vinham tentando se recuperar dos problemas mas, com a queda nas receitas, os  negócios se inviabilizaram. A coisa vai ficar pior, e mais estabelecimentos devem fechar", reforça. 

Assim como aconteceu com outros pequenos negócios, 52% dos salões buscaram empréstimos bancários para tentar fazer frente à queda nas receitas. Desse total, porém, 70% tiveram o pedido negado.    

Segundo Massari, do Sindibeleza-SP, poucos conseguiram ter acesso ao Pronampe, o programa emergencial de crédito criado para atender micros e pequenas empresas durante a pandemia. "E mesmo aqueles que conseguiram, já terão que começar a pagar as primeiras parcelas a partir de março", destaca. 

Com 95% do faturamento vindo da prestação de serviços, apenas 5% da receita dos salões tinha origem na revenda de produtos, como cosméticos, lingeries ou acessórios de moda. Às vezes, até pelo e-commerce. 

Na tentativa de ganhar fôlego extra, 44% dos salões se reinventaram e passaram a vender novos produtos e serviços, e  75% deles fizeram isso com ajuda de canais digitais, como Whatsapp, Instagram e Facebook. 

Na quarentena, muitos passaram a vender antecipadamente produtos e serviços por meio de vouchers, para serem usados na reabertura. Porém, pelo tamanho do problema, o resultado foi irrisório, diz Ribeiro.

"Foi uma ação emergencial que ajudou no período agudo, mas insignificante no contexto macro", afirma. 

A ABSB identificou até alta nos atendimentos a domicílio tipo delivery na quarentena, e desaconselhou a estratégia pela falta de controle da saúde dos profissionais, assim como da esterilização de materiais.  

"Por outro lado, na reabertura muitos consumidores ficaram com receio de voltar aos salões, pois acharam que seriam locais com alto risco de contaminação - apesar de não existir nada que prove isso."

O estudo mostra ainda que 47% dos salões declararam muita dificuldade para continuar o negócio no atual cenário, e outros 29% afirmaram não terem condições de efetuar novos investimentos no salão em 2021. 

'Acreditávamos que no início de 2021 as coisas estariam melhores, o que não aconteceu. E estamos temerosos quanto às novas medidas que serão anunciadas nos próximos dias", sinaliza Massari, do Sindibeleza-SP . 

A VACINA E A CONFIANÇA DO CONSUMIDOR 

Um dos lojistas mais antigos do Shopping Metrô Tatuapé na Zona Leste da capital paulista, onde funciona desde 1997, o salão Square & Company Hair sofreu de perto os impactos da quarentena em 2020. 

Desde a retomada dos negócios, em 7 de julho, e mesmo atendendo todos os protocolos sanitários, com álcool gel nas bancadas, tapetes sanitizantes na entrada do salão, bloqueio de 50% das bancadas e lavatórios e toda a equipe com face shield, o faturamento do Square não ultrapassou 50% das receitas de 2019.

Nem em dezembro, "tradicionalmente um mês ótimo em faturamento", segundo o proprietário e gestor Jefferson Massari, que também é diretor do Sindibeleza-SP.  

A esmalteria, inaugurada em 2011 com um investimento de R$ 300 mil no mesmo shopping, teve de ser fechada definitivamente devido ao alto custo das despesas e um retorno baixo de clientes, conta. 

Antes da pandemia, o Square tinha 46 funcionários, e a esmalteria, 10. Com o fechamento, o salão absorveu alguns profissionais, e algumas manicures e depiladoras saíram para trabalhar por conta. Sobraram 45.  

'Perdemos parte da equipe (CLT e parceiros) nesse período. Entretanto, como estamos limitados a 40% de ocupação (entre clientes e equipe), isso foi absorvido facilmente", explica Massari. 

Assim como os bares e restaurantes, no começo da quarentena o salão passou a vender vouchers para uso futuro. "Vendemos em torno de 120, mas como se prolongou, as clientes preferiram não comprar mais."

Na volta, para ganhar fôlego e transmitir segurança à clientela, procurou manter os profissionais informados, estimulando a criação de grupos no WhatsApp, além de postagens no Instagram e Facebook. 

Além disso, a equipe procurou criar promoções especiais com preços mais baixos, pois sabia que o momento econômico das clientes estava comprometido, afirma, reforçando que, mesmo com faturamento limitado, muitos salões foram surpreendidos pela alta de mais de 20% no aluguel corrigido pelo IGP-M.

"Diante desse cenário, não temos expectativas de retomada dos números anteriores em 2021", diz Massari. 'Esperamos que, com a vacinação, a confiança das clientes volte e, consequentemente, nosso faturamento." 

FOTO: Arquivo pessoal        ARTE: Will Chaussê






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