Negócios

Com inflação em alta, Preçolândia se vira para fazer jus ao nome


A família Zakka (Jean, Arab e Michel) acaba de criar um departamento só para cuidar de preços. Os fornecedores da rede apresentaram listas com reajustes de até 20% neste ano


  Por Fátima Fernandes 01 de Fevereiro de 2016 às 12:15

  | Editora do site Varejo em Dia


O ano é 1986. O jovem comerciante Arab Chafic Zakka decide abrir a sua segunda loja, com cerca de 500 metros quadrados, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para vender produtos de marcas líderes de mercado a preços razoáveis, fazendo jus ao nome de sua loja: Preçolândia.

Para quem não se lembra, foi em 1986 que o governo, presidido por José Sarney, lançou o Plano Cruzado, um conjunto de medidas que incluíram o congelamento de preços de bens e serviços e da taxa câmbio.

Para escapar do congelamento, muitas indústrias trocaram embalagens, alteraram produtos -tudo para justificar reajustes, o que chegou levar até empresários para a cadeia. Naquele ano, a inflação anual chegou perto de 80%.

“O Plano Cruzado foi o pior evento que o varejo enfrentou até hoje porque, quem não quis ser preso, como foi o meu caso, teve um prejuízo muito grande. Quem ‘maquiou’ produto vendeu pelo dobro do preço, mas nós não fizemos isso”, afirma Arab Zakka, 72, fundador da rede.

O ano agora é 2016. Trinta anos depois, com muito mais experiência no varejo, 24 lojas, das quais 19 em shoppings, "seu" Arab, como é chamado carinhosamente pelos funcionários e pelos filhos, se vira para que a sua Preçolândia continue sendo uma loja que vende produtos bons com preços bons.

“Como estou lidando com a inflação? Posso dizer que tem fornecedor que está há um ano na geladeira. Se a indústria não reduz o preço, quando é preciso, não compro”, afirma.

Neste início de ano, de acordo ele, os reajustes das indústrias chegam a até 20%. Os fornecedores dizem que os custos de energia, impostos, matérias-primas subiram e que a alta do dólar teve forte impacto nos preços dos importados.

Arab sabe que tudo isso é verdade, mas, por outro lado, não consegue elevar preços para um consumidor que está com o orçamento cada vez mais apertado.

Com a inflação assombrando, a família decidiu então criar neste ano um novo departamento, que começa a operar nesta semana, só para cuidar de preços.

NEGOCIAÇÕES

Um gerente e um auxiliar, a princípio, vão trabalhar com os gerentes das lojas para levantar preços da concorrência e ajudar no dia a dia com informações que são essenciais para a negociação com os fornecedores.   

A Preçolandia é uma empresa especializada em produtos para a casa. A rede, que emprega cerca de 550 pessoas, comercializa aproximadamente 10 mil itens -de faqueiros e jogos de jantar de marcas líderes de mercado a varal, escada e espátula para mexer massa de bolo.

Arab, que chegou ao Brasil com seis anos, vindo com os pais do Líbano, toca as 24 lojas com os dois filhos, Michel, 44, e Jean, 38, e uma equipe de gerentes. Ambos estão na empresa desde os 18 anos. Michel se dedica mais à negociação com os fornecedores e Jean, da gestão do negócio.

O seu Arab, que já chegou a trabalhar das 8h até o horário do fechamento do comércio agora está encarregado de circular pelas lojas e apontar os desacertos. O que é um luxo para os dois filhos. "Em dez minutos numa loja, meu pai sabe exatamente o que precisa melhorar", diz Michel.

Para Arab, uma loja vai bem quando o gerente é bom. Ele gosta de circular pelas lojas e ver o trabalho deles e confessa que também os observa pelas câmeras de circuito interno.

FACHADA DA PREÇOLÂNDIA: REDE COMERCIALIZA 10 MIL ITENS

Ele não acredita muito em treinamento de funcionário para tratar bem o cliente. Para ele, isso pode dar algum efeito durante um mês. Depois, se o vendedor tem cara amarrada, ele vai continuar com a cara amarrada.

A habilidade para lidar com o comércio surgiu quando Arab era adolescente. Ele pediu para o tio, com 16 anos, que já estava no comércio, para ser o gerente de uma loja. Deu tão certo que ele acabou abrindo a sua própria, em 1978, no bairro da Água Rasa, em São Paulo.

Assim como no caso da maioria das redes de lojas, a expansão da classe C animou a família. Nos últimos três anos, os Zakka abriram dez novas lojas. O plano inicial da empresa era, até 2020, ter 50 lojas espalhadas pelo Estado de São Paulo.

 “Ninguém esperava uma crise deste tamanho. Nós vamos fazer de tudo o que for preciso para nos mantermos de pé. Se precisar fechar lojas, o que nunca fizemos até agora, vamos fechar. Se precisar abrir lojas, vamos abrir”, afirma o seu Arab.

Coincidência ou não, assim que a crise começou a dar sinais, a família decidiu contratar a Fundação Dom Cabral para ajudar a família no processo de gestão da empresa.

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“Queremos administrar a empresa com o máximo de profissionalismo dentro das boas práticas de gestão, para que o resultado seja o melhor possível”, diz Jean.

Até o final deste mês, a família espera ter detalhes sobre a rentabilidade de cada uma de suas 24 lojas. O seu Arab diz que já está de olho, principalmente, em quatro delas, localizadas em shoppings. “As que não estiverem dando lucro vamos fechar ou mudar de endereço”, afirma.

A Preçolândia já fechou contratos para aberturas de oito lojas em shoppings até 2018, mas isso não quer dizer que todas serão abertas neste período. Até porque, com a crise, as obras dos shoppings podem atrasar. “Tudo está sendo analisado mensalmente”, diz Jean.

Com a crise, o trabalho da família aumentou. Os Zakka estão tentando renegociar preços dos alugueis, principalmente nas lojas de shoppings.

 “Nós até conseguimos reduções importantes em alguns locais. Só que, para alguns shoppings, até parece que não está acontecendo nada no mercado, infelizmente”, diz o seu Arab.

Para não atiçar a concorrência, a família prefere não revelar o faturamento da empresa.

A PRIMEIRA LOJA DA FAMÍLIA, NA ÁGUA RASA, OPERA ATÉ HOJE

Os Zakka dizem somente que a receita da rede no ano passado ficou igual ao de 2014. Descontando a inflação, portanto, a rede viu o faturamento encolher 10%. O que cresceu, mas ainda menos do que eles esperavam, foi o e-commerce, lançado há nove anos.

Para este ano, na avaliação deles, a situação não deverá ser muito diferente.

“O problema desta crise é a duração dela. Se for resolvida a crise política, o cenário pode melhorar um pouco. Existe um pecado original no Brasil. A indústria reclama, o governo protege, em vez de incentivar a produção, a modernização, a competitividade”, diz o seu Arab.

As maiores dificuldades enfrentadas pela rede no momento, de acordo com a família, são a incerteza e a burocracia.

“Estamos tendo de reavaliar todos os processos para ver onde estamos perdendo tempo, onde podemos ser mais objetivos, onde cada pessoa pode fazer melhor, incluindo nós.”

De acordo com os Zakka, está muito difícil prever o futuro até no médio prazo. “Se antes o planejamento era anual, agora é mensal”, diz Michel.

Veja os principais trechos da entrevista com Arab e os filhos Jean e Michel:

SOBRE LOJAS EM SHOPPINGS E NA RUA

"Se pudesse eu teria mais lojas na rua, que estão indo melhor do que as de shoppings. O problema é que não há oferta de imóveis adequados. Existem alguns armazéns pequenos, que são ruins, e muitos terremos grandes, que não servem. Fora isso, os donos dos espaços de rjua pedem o que eles querem. Nos shoppings existem profissionais para cuidar disso".

SOBRE CORTE DE CUSTOS

"O varejo tem que se reestruturar de forma diferente, não cortar pessoal. Temos de comprar melhor, economizar com energia, locações. Não adianta nada eu cortar um gerente por loja. Contratamos uma instituição (a Fundação Dom Cabral) para nos ajudar com esse processo de melhorar a gestão".

SOBRE O CONSUMIDOR

APÓS PESQUISA, LOJAS PASSARAM A TER AMBIENTE DE UM CASA

"O consumidor mudou, está mais exigente, mais conectado. Fizemos uma pesquisa e vimos que no caso de nossas lojas o que eles queriam era ter uma experiência de compra.

Contratamos um escritório de arquitetura e já estamos operando com novo conceito de loja, que já está em mais da metade da rede. Criamos na loja os ambientes de uma casa.

Os produtos estão separados por mundos e a loja está mais intuitiva. Se o consumidor procura uma frigideira, ele acaba encontrando a espátula ali pertinho, como se estivesse na casa dele".

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