Negócios

Casa da Bóia faz resgate às origens para manter o negócio


Com 117 anos, a especialista em boias para caixa d´água vai dar novo uso para o cobre, com o toque da artista plástica Adriana Rizkallah (foto)


  Por Fátima Fernandes 24 de Fevereiro de 2016 às 13:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Quem costuma percorrer a rua Florêncio de Abreu, no centro velho de São Paulo, pode observar que a loja de número 123 está ganhando outra aparência.

 O prédio de 1909, onde está instalada um dos estabelecimentos comerciais mais tradicionais de São Paulo, a Casa da Bóia, está sendo restaurado para abrigar também um museu e um café.

A especialista em canos, conexões, registros e peças de cobre, uma das primeiras a fazer parte da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), não vai deixar o cliente na mão.

A loja, uma das preferidas dos descolados em busca de fios de cobre, vai passar a oferecer para o cliente um novo ambiente, novas opções de produtos e experiência de compra.

Para falar de toda a mudança que transforma seu negócio, o empresário Mário Roberto Rizkallah, 65,  cita uma frase do megainvestidor Warren Buffett:

‘Quando a maré baixa, é que descobrimos quem estava nadando nu’. “As vendas e os lucros caíram. Decidimos nos mexer”, afirma ele.

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No ano passado, Mário tomou a decisão de reavaliar todos os processos da loja e lançar nova linha de produtos com o uso do cobre, como sofás, cadeiras, chuveiros e objetos de decoração.

Expertise para isso a família possui há mais de um século. Quando chegou ao Brasil, em 1895, o imigrante Rizkallah Jorge, avô de Mário, já trazia na bagagem o conhecimento para lidar com o nobre metal. Os Rizkallah possuíam em Alepo, na Síria uma fundição de cobre.

O interesse em lidar com o metal era tanto que Rizkallah Jorge aceitou trabalhar como faxineiro em uma pequena fundição de cobre, que pertencia a um português, na Rua Florência de Abreu. Os amigos da Síria já preferiram levar mercadorias da capital para o interior.

Sua habilidade era tamanha que, três anos depois, ele comprou a empresa do português e transferiu a fábrica para o endereço onde funciona até hoje a Casa da Bóia, agora tocada pelo neto Mário.

Na época, a empresa tinha a maior parte de sua produção voltada para a fabricação de peças de decoração, como arandelas, gradis e camdelabros. Mais tarde, com a necessidade de melhora as condições de higiene dos cidadões, a empresa entrou firme na proudção de sifões, canos, caixas de descarga e boias de caixas d´agua. 

“Estamos sendo convocados a repensar o negócio e a ideia da Casa da Bóia é apresentar novos produtos, não só para soluções hidráulicas, mas também entrar em um novo nicho, usando a criatividade”, diz a artista plástica Adriana Rizkallah, que se uniu ao marido Mário para dar uma virada no negócio da família.

Um dos grandes desafios dos Rizkallah foi assumir que era a hora de reavaliar o fluxo de processos da empresa, feito há três décadas.

Para isso, a Casa da Bóia contratou uma empresa de auditoria especializada em custos, que está encarregada de identificar os custos e as margens que deverão ser colocadas em cada um dos 5 mil itens vendidos na loja.

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“Estamos trabalhando de forma eficiente? Há processos inúteis na loja? Estou colocando a margem certa em cada um dos itens que vendemos?. Quero as respostas para todas essas perguntas", diz ele.

Neste período de crise, diz ele, o comerciante precisa avaliar muito bem os custos e ver se está velando a penar, inclusive, manter as portas abertas. Às vezes não tem outro jeito se não engrossar a lista de lojistas que estão entregando literalmente os pontos.

“Se o lojista não prestar a atenção nos custos, ele será um mero agente arrecadador de impostos, pagando governos, fornecedores e funcionários, sem ficar com nada no caixa”, afirma.

Com faturamento da ordem de R$ 18 milhões por ano, a Casa da Bóia atende principalmente as pequenas e médias indústrias metalúrgicas e de construção civil, que participam com aproximadamente 85% da receita da loja.

Com a crise, as vendas para essas empresas, de acordo com Mário, caíram 12% em 2015, na comparação com 2014. “Fiquei meio desiludido no ano passado e chamei a minha esposa para um trabalho conjunto, que já começou a dar resultado.”

O antigo prédio da loja, até então meio escuro, já está quase todo restaurado por fora e por dentro. Em uma área do terceiro andar, Adriana teve a ideia de fazer um teto de vidro, o que tornou o ambiente mais claro. É lá que vai funcionar um café.

O cobre está presente em todo o espaço da loja em forma de prateleiras, cadeiras, pias, chuveiros. No terceiro andar vai funcionar também o museu, que reunirá os moldes de peças em madeira que foram produzidas e vendidas pela loja por um século.

“Queremos nos voltar mais para a área artesanal, que já foi o forte da empresa no passado”, diz Adriana. Dentro de um mês, os produtos criados por ela já começarão a entrar na loja, como cadeiras, revisteiros, esculturas, que também poderão ser adquiridos por encomenda.

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Está sendo um prazer, diz ela, resgatar as origens da Casa da Bóia.

No processo de restauração, ela se surpreendeu ao encontrar pinturas nas paredes feitas por artesãos italianos, que chegaram a utilizar folhas de ouro.

No teto do prédio encontrou Pinho-de-Riga, uma madeira considerada nobre nos dias atuais.

O museu e o café serão chamariz para o cliente que quer também conhecer um pouco da história do comércio do centro velho de São Paulo.

“O museu vai abastecer a loja com informações históricas”, diz a artista plástica que durante toda a sua carreira trabalhou essencialmente com o papel. Agora ela também se sente desafiada a dar novo uso para o cobre.

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