Negócios

Cafezinho revigora comércio no centro


Investir em cafeterias no centro de São Paulo voltou a ser um bom negócio, como percebeu o casal Marcos e Fabiana (na foto). Eles fecharam um restaurante para abrir o primeiro café dentro da Livraria Vozes


  Por Wladimir Miranda 06 de Setembro de 2018 às 08:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


O centro de São Paulo passa por um momento de transformação. A inauguração, no ano passado, da nova unidade do Sesc, na Rua 24 de Maio, e a chegada do badalado restaurante Esther Rooftop, do chef Olivier Anquier, também nas imediações da Praça da República, estão mudando o cenário de uma região que ainda luta contra a degradação.

Claro que os problemas continuam enormes, principalmente no chamado centro histórico da Capital. A Praça da Sé, o Pátio do Colégio e as ruas próximas enfrentam questões de segurança. O esforço das autoridades não foi suficiente para amenizar o problema.

Mas basta caminhar por ruas como José Bonifácio, São Bento, 15 de novembro, Álvares Penteado, Líbero Badaró, entre outras, para constatar que pequenos e médios comerciantes resolveram investir na região. É grande o número de novas cafeterias que foram inauguradas nos últimos meses. É a rota do café.

“Muitos empreendedores resolveram investir no centro. Há cafés para todos os gostos. Tudo colabora neste momento para que o negócio dê certo. A casa não precisa ser grande, basta que seja um lugar agradável, que o cheiro do café desperte a atenção da clientela. E o importante é que muitos que investiram em cafeterias foram se especializar, fizeram cursos de baristas”, afirma Juliana Berbert, consultora de negócios da região central do Sebrae.

Barista é o profissional especializado em cafés de alta qualidade. Ele também cria novas bebidas, baseadas em café, utilizando licores, cremes, bebidas alcoólicas, leite, entre outros.

Juliana garante que a região central tem potencial para ser tão badalada quanto a Vila Madalena, na Zona Oeste, que virou point dos jovens graças a seus bares e casas noturnas.

“A tendência é que o centro se estenda para bairros como a Santa Cecília, por exemplo, e vire uma região com muitas opções de alimentação. O potencial gastronômico do centro de São Paulo é enorme”, diz Juliana, mostrando otimismo.

O que se nota na região central é que a hora do cafezinho virou um momento de prazer. Seja depois do almoço, se ainda sobrou um tempinho antes de voltar ao trabalho, no meio da tarde, para aliviar a tensão de um dia atribulado, ou até no final do expediente, quando falta coragem para enfrentar o metrô lotado ou o trânsito congestionado.

Não faltam no centro boas opções para tomar aquele café reanimador. As cafeterias estão dentro de livrarias, shoppings, empórios, num dos prédios mais tradicionais da Capital, como o Martinelli, que já serviu de ponto de observação para paulistanos orgulhosos de sua cidade, e turistas que querem conhecer seus encantos.

CAFÉ E CULTURA

O cafezinho também pode ser tomado num dos pontos de cultura mais procurados do centro da Capital: o Centro Cultural Banco do Brasil  (CCBB). Lá, na esquina das ruas Álvares Penteado e Quitanda, antes ou depois de apreciar a exposição 100 anos de Athos Bulcão, o dono do Flashback Café, Sérgio Destro, vai ensinar o cliente a escolher o melhor café.

Para Sérgio, o café também é uma arte. “Aqui nós temos 13 tipos de cafés coados. Temos o cuidado de colocar à disposição do cliente bolos e doces que se harmonizam com o café. Trabalhamos com todos os tipos de café: Santa Mônica, da região Mogiana, de Minas Gerais, Pessegueiro, da Chapada Diamantina”, enumera ele, que fez curso de barista.

No Flashback, o apaixonado por café vai poder saborear o café coado, por R$ 7,00, “de excelente qualidade”, como observa Sérgio, ou o famoso Café Jacu, por R$ 24,00. “Claro que o Jacu não é para ser tomado todos os dias. “Só em ocasiões especiais”, diz Sérgio.

Valdete Soares, psicóloga que trabalha em Recursos Humanos no centro, vai ao Flashback pelo menos três vezes por semana.

“Eu almoço por perto e gosto muito de café. Eu não entendo nada de café, mas estou aprendendo com os garçons do Flashback. Comprei um pó especial e um filtro para tentar fazer em casa. Não é difícil”, afirma.

CAFÉ E LEITURA

Marcos Francisco Guedes, 47 anos, foi vendedor de equipamentos industriais e dono de um restaurante, na Rua Senador Feijó, no centro.

Um de seus vizinhos no restaurante era a Livraria Vozes. Um dia, o prédio que abrigava seu negócio foi vendido. Não restou a ele outra alternativa a não ser pensar em abrir outro negócio para tocar a vida. Foi então que o dono da Livraria Vozes lhe fez o convite para abrir um café dentro da loja que iria abrir na Rua José Bonifácio, ali mesmo, no centro.

“Eu não tinha nenhuma experiência em cafés. Mas resolvi topar o desafio. Minha esposa, Fabiana, foi fazer cursos de barista no Senac e resolvemos abrir o negócio”, conta Marcos, que há poucos dias inaugurou o Café Capítulo Primeiro, agora em novo endereço, na Rua José Bonifácio, 99. Dentro da Livraria Vozes.

“Aqui, nós temos oito tipos de cafés”, diz ele. O cafezinho pode ser acompanhado pelos doces, feitos pela Fabiana. “Nós fazemos o que o cliente pedir. Se ele chegar e falar que está com vontade de comer um bolinho de fubá, eu faço”, diz Fabiana.

As atrações da casa são os cannoli, uma massa doce, frita em formato de tubo, recheada por um creme de ricota.

Mineira de Contagem, município da Grande Belo Horizonte, Fabiana também se especializou em rosquinhas, brigadeiros e bolos de fubá.

O gasto médio de quem entra no Capítulo Primeiro é de R$ 12,00. O café, claro, serve de chamariz. Marcos diz que vende de 150 a 200 cafés por dia.

Antonio Marcos Macedo, 44 anos, é supervisor da Editora Vozes. Originária de uma Ordem Franciscana de Petrópolis, existe há 117 anos.

Editora, gráfica, distribuidora e livraria, a Vozes foi fundada para suprir as necessidades de crianças carentes da região, que não tinham dinheiro para comprar livros.

A primeira publicação foi uma cartilha de alfabetização para ensinar as crianças. A Editora Vozes publica livros de cunho religioso, ciências humanas, psicologia e de sociologia.

“Esta é a única unidade da Livraria Vozes que tem café. A experiência tem sido muito boa. O café chama clientes. E faz amigos”, avalia Antonio Marcos.

ESTAGNADO

Claudinei de Almeida Campos é proprietário do Empório Datavenia, localizado nas proximidades da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Quando entrou no negócio, os amigos diziam que a loja não ia durar muito tempo. “Aqui só vendíamos café. Se continuássemos assim, não iríamos conseguir pagar os custos. Agora, tem gente que vem aqui tomar café e gasta muito”, conta Claudinei, que transformou o empório num dos endereços comerciais mais lucrativos da região central.

O Datavenia, além do café, tem vinhos, grãos, bacalhau, chocolates, cervejas, nacionais e importadas, queijos, diversos tipos de bolachas e sanduíches naturais.

Claudinei se vangloria de atender “de gari a desembargador” em seu estabelecimento.

Mas, ao contrário de Juliana, do Sebrae, Claudinei não é otimista em relação ao futuro do centro. “Tem de mudar o centro. A insegurança aqui é muito grande. Os moradores de rua afugentam os clientes. Os assaltantes agem à luz do dia. Muitos clientes têm medo de vir para cá”, afirma ele, reclamando que o seu negócio “está estagnado”.

Apesar de reclamar, Claudinei faz planos. Avisa que quer abrir uma nova casa.

“A minha ideia é abrir uma casa que venda café moído na hora. Quero que o cheiro do café seja sentido de longe. Vi uma casa destas no Mercadão e quero abrir uma igual aqui perto”, diz ele.

“Lá no Mercadão, o quilo do café moído é vendido a R$ 40,00. Aqui, vou vender por R$ 20,00 o quilo, ou talvez menos”, avisa.

Embora reclame, Claudinei dá sinais de que já entendeu que tipo de produto tem de vender para que o seu negócio prospere.

“Tenho de vender barato. Percebi que o pessoal compra um pacote de massa italiana, duas latas de molho italiano, gasta R$ 10,00 e leva casa para casa para fazer um jantar para três pessoas. As pessoas estão fazendo contas. A situação não está boa para ninguém”, diz.

EDIFÍCIO MARTINELLI

Cristiane Ganan, 41 anos, é uma das sócias do Café Martinelli. Formada em administração de empresas, também tem uma consultoria de informática. “Mas o meu forte é a cafeteria”, avisa.

Ela entrou no negócio há seis anos. O Café Martinellli já existia há 19. Ela diz que o ponto já foi melhor. “No início, eu vendia 600 cafés por dia. Hoje, se vendo 300 fico feliz”.

O que pode ter contribuído para diminuir a freguesia é a concorrência. “A concorrência era muito menor. As cafeterias no centro estão virando moda de novo. Não sei o que aconteceu”, afirma ela.

Ela também não se restringe ao cafezinho. O Martinelli serve também bolos, tortas feitas na cozinha da casa, doces, salgados e até almoço. “O que eu posso dizer é que nunca fechei um mês no vermelho. Às vezes sobram uns R$ 2 mil ou R$ 3 mil, mas sobram”, contabiliza.

Quando entrou no negócio, Cristiane teve de gastar uns R$ 40 mil, na troca de equipamentos. Ela tem oito funcionários, que trabalham em dois turnos.

O que mais a anima são os laços de amizades que faz no café. “Muitos clientes chegam aqui ansiosos para desabafar. Sentam, falam mal do chefe, tomam o café e vão embora aliviados”, conta ela.

Cristiane lembra-se muito bem do início. Filha de portugueses com libaneses, percebeu que a antiga dona do Martinelli estava cansada. Queria passar o estabelecimento para frente.

“Ela quis saber se eu iria dar continuidade ao negócio, se iria tratar bem os clientes. Eu disse que sim, que eu tratar bem da cafeteria. E fiz isso. Afinal, café é a minha paixão, afirma Cristiane, que também fez curso de barista.

 

FOTO: Wladimir Miranda/Diário do Comércio

VÍDEOS: William Chaussê/Diário do Comércio