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Busca espaço para uma loja? Essa pode ser uma boa hora


A oferta de imóveis comerciais dobrou, os preços caíram até 30% e, em algumas regiões da cidade, já nem se fala mais em luvas


  Por Fátima Fernandes 26 de Fevereiro de 2016 às 13:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Já se tornou um truísmo afirmar que crise também cria oportunidades. Para quem conhece o dia-a-dia do mercado de imóveis comerciais, a metrópole paulistana vive um dos melhores momentos para quem ainda está capitalizado, e pretende abrir uma loja na rua ou em shopping.

Isso porque os preços dos aluguéis de imóveis comerciais caíram até 30%, na comparação com um ano atrás, de acordo com imobiliárias consultadas pelo Diário do Comércio.

Em ruas tradicionais de comércio, onde era comum até o pagamento de luvas para usar um ponto, hoje há casos que nem se fala mais no assunto.

Para especialistas do mercado imobiliário, a queda nos valores da locação foi tão acentuada que, muito provavelmente, os preços já teriam chegado ao limite.

“Acho difícil que os preços caiam ainda mais”, diz Reinaldo Fincatti, diretor da Embraesp, empresa de consultoria especializada em imóveis.

No Bom Retiro, na região central da cidade, onde se concentra grande número de confecções e varejistas, há dezenas de imóveis para locação.

Somente na Rua da Graça, há pelo menos dez pontos comerciais vazios, de acordo com Rodrigo Mazzini, gerente comercial da Sinai Imobiliária, que atua na região. “Nunca vi isso antes”, diz.

Imóveis locados por R$ 20 mil mensais três anos atrás, de acordo com Mazzini, são ofertados agora por R$ 12 mil, e até menos. Uma loja da Rua José Paulino, que chegou a custar R$ 40 mil mensais, está sendo locada por R$ 25 mil.

Paulo César, gerente comercial da Rebeca Imóveis, diz que a oferta de imóveis para locação aumentou entre 30% e 40% no Bom Retiro, principalmente nas ruas Silva Telles, Ribeiro de Lima e Silva Pinto.

Um estabelecimento comercial de 40 metros quadrados que, há dois anos, era locado por R$ 10 mil, segundo ele, hoje é alugado por R$ 6 mil a R$ 7 mil. A Hai Imóveis, que também opera na região, informa que a oferta de imóveis para alugar dobrou em um ano e que os preços caíram até 30%.

A questão é que jamais se viu tantos estabelecimentos fecharem as portas.

Com base em informações do Caged (Cadastro Geral de Emprego e Desemprego), do Ministério do Trabalho, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) chegou a um número de quase 30 mil lojas fechadas no Estado de São Paulo e de 100 mil no país em 2015.

A queda de preços da locação também se observa em regiões comerciais com público de maior poder aquisitivo. No bairro dos Jardins, na zona Oeste, a crise provocou uma redução de 10% a 15% nos aluguéis comerciais, chegando a 20% em alguns casos.

Para Adriano Gomes, sócio da Moisés Gomes, imobiliária que opera na região, o mercado até que deu algum sinal de reação em algumas ruas do comércio.

Havia, na Oscar Freire, seis lojas para alugar no final do ano. Hoje são quatro. Na Alameda Lorena, entre as ruas Augusta e Haddock Lobo, a imobiliária chegou a ter seis pontos para locação, atualmente ocupados.

SHOPPINGS

A queda de preços dos aluguéis se dá mais fortemente nos shopping centers do que nas ruas, de acordo com Marcos Hirai, sócio-diretor da GS&BGH, empresa de consultoria que acompanha o setor.

Os administradores entenderam mais rapidamente que os comerciantes não teriam condições de arcar com os valores cobrados antes da crise. A queda de vendas foi intensa e abrupta.

Nos imóveis de ruas, a situação é um pouco diferente.

Há proprietários que ainda resistem em cortar os preços, pois temem desvalorizar demais o valor da locação. O raciocínio é que, se cortarem o valor do aluguel, será difícil, quando houver a retomada da economia, voltar a cobrar os preços de antes da crise.

“Os shoppings reagiram mais rapidamente à crise, estão mais maleáveis. Quando o lojista ia bater na porta dos administradores para pedir descontos de aluguéis, eles nem eram recebidos. Hoje, existe abertura para todo o tipo de negociação”, afirma Hirai.

NOVO PERFIL

Além da crise, de acordo com Hirai, é possível observar uma transformação no perfil do comércio.

“As lojas físicas de eletroeletrônicos estão sendo substituídas pelo e-commerce, a exemplo do que já ocorre nos Estados Unidos e na França", afirma. "Está se abrindo, portanto, oportunidades para outros tipos de lojas nas ruas e nos shoppings.”

Em três anos, de acordo com sua projeção, aoo menos 10% do mix de lojas deverão ser substituídos por conta do rearranjo da economia, expansão do e-commerce e mudança de hábitos dos consumidores, o que abre novas oportunidades para os comerciantes.

Além das lojas de eletroeletrônicos, na sua avaliação, também devem diminuir as lojas de roupas com tíquete médio ao redor de R$ 1.500. “O bolso do consumidor está menor”, afirma.

Nelson Kheirallah, vice-presidente e coordenador do Conselho do Varejo da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que tem notícias de lojistas que estão simplesmente desistindo de trabalhar. Nem sequer têm interesse em renegociar contratos de aluguel.

“Entendo que este ano será ainda pior do que o ano passado. Deve aumentar a oferta de imóveis e os preços podem até cair mais até porque estavam fora da realidade”, diz.

Kheirallah recomenda que o  lojista tenha tranqüilidade e paciência na hora de renegociar preços de aluguel. “O locatário não quer perder o ponto e o locador não quer ficar como o imóvel fechado. A espaço para negociação”, diz.

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Para quem tem dinheiro, segundo ele, essa pode ser uma boa hora para alugar um imóvel comercial, sim, desde que esteja ciente de que o retorno do seu negócio pode demorar até cinco anos.

Na região do Jardins, de acordo com Gomes, vem aumentando o número de casos do chamado aluguel escalonado. Como a economia está retraída, o proprietário aceita um aluguel de menor preço por determinado período, até que seja reajustado.

A imobiliária Moises Gomes acabou de mediar um contrato de aluguel com uma empresa italiana que negociou essa forma de locação. O preço foi estabelecido inicialmente em R$ 20 mil e, gradativamente, sobe para R$ 30 mil.

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