Negócios

Buffet França quer disputar o mercado de eventos corporativos


Os irmãos José Carlos e Rita França (na foto), filhos do fundador, adaptam a cultura da empresa para atender o mercado corporativo


  Por Fátima Fernandes 06 de Agosto de 2015 às 15:30

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Avenida Angélica, número 750. Há mais de seis décadas, este foi um dos endereços mais cobiçados para a realização de eventos sociais das mais abastadas famílias paulistanas. Casar um filho com uma festa no Buffet França era o sonho de boa parte dos empresários brasileiros. Todo o glamour do espaço era suficiente para manter a casa cheia, pelo menos de quinta a domingo.

O ‘seu’ França, como era chamado Nilson França, que fundou o bufê em 1950 com o empurrão de um cliente, acabou se tornando até amigo de muitos dos frequentadores. Houve tempos em que o seu espaço, no bairro de Higienópolis, era considerado quase que como uma extensão das casas das famílias paulistanas mais ricas.

Há pouco mais de um ano, José Carlos, Gisele e Rita França, os filhos do ‘seu’ França, que agora tocam o bufê, se depararam com a necessidade de adaptar o perfil do negócio. Até para que a empresa tenha mais força para crescer, e de forma saudável, em um mercado em transformação, mais acirrado, e, pior, em meio a uma crise econômica. Neste ano, o França registra queda de 30% na demanda por festas sociais.

A realização de eventos sociais de alto luxo foi e deverá ser o carro-chefe do França. Só que os irmãos querem encher o espaço de eventos também durante a semana. Para isso, decidiram entrar, este ano, no mercado de eventos corporativos, um negócio que movimenta perto de R$ 200 bilhões no país, incluindo feiras e congressos.

Para quem tem a expertise de décadas na realização de eventos sociais, a decisão parece ser simples e fácil de colocar em prática. Até porque os eventos de empresas são, geralmente, bem menores, quando comparados com as festas de casamento para 600 pessoas que o bufê costuma realizar.

Parece, mas não é. A decisão da família de partir para o mercado de eventos corporate está exigindo dos França uma reformulação na cultura da empresa, nos sistemas de informação, nos processos de trabalho, na capacitação dos funcionários e nas respostas dadas aos clientes.

José Carlos, Gisele e Rita aceitaram os desafios colocados pela empresa de consultoria T2 People, contratada para ajudá-los nesse processo de diversificação. E isso acontece no momento em que Leandro e Ricardo, os filhos de Joaquim Oliveira, atual presidente do bufê, sócio de Nilson França, também passaram a ter funções na empresa, liderando projetos nas áreas corporativa, jurídica, de logística e marketing.

“Normalmente, uma mudança de perfil de cliente exige uma nova maneira de trabalhar e, se essas mudanças forem aceitas somente pelos dirigentes, e não pelos colaboradores, simplesmente elas não acontecem”, afirma Milton Maretti, sócio-diretor da T2 People.

Disputar o mercado de eventos corporate exigiu do França uma precisão nos custos de cada prato servido. A empresa adquiriu um programa capaz de organizar a quantidade de cada produto em uma receita e o custo exato de um prato.

BUFFET FRANÇA: ATÉ O FINAL DO ANO EMPRESA VAI IDENTIFICAR CUSTO EXATO DE CADA PRATO SERVIDO

“O custo do prato era feito mais ou menos na base do ‘achômetro’”, admite José Carlos. Até o final do ano, a empresa terá condições de saber exatamente qual é o custo exato de um robalo com molho oriental, acompanhado de risoto de limão siciliano e de outras mil receitas, entre doces e salgados.

Por que identificar exatamente o custo dos pratos é um dos pontos mais importantes nesta nova fase da empresa? Nos eventos sociais, especialmente nas festas de casamento, segundo José Carlos, nem sempre o preço é preponderante na hora da escolha do local da festa. No mundo corporativo, qualquer centavo faz a diferença.

“Se a gente sabe exatamente o custo de um prato, melhora o nosso poder de negociação, pois eu sei o quanto posso reduzir o preço na hora de tratar com o cliente. Vamos ter condições, a partir de agora, de fechar negócios que antes tínhamos receio de fechar”, afirma José Carlos. “No evento social, o glamour é mais importante do que o custo. No corporativo, há comparação de preços”, enfatiza Maretti.

O bufê também deu início, este ano, a um programa rígido para corte de custos nas operações que são realizadas no seu espaço e também na casa dos clientes. Antes, quando realizava uma festa, geralmente à noite, em ambiente residencial, era costume  mandarem os funcionários para o local às 14h. Hoje, eles chegam às 16h, o que diminui o pagamento com  horas extras.

A família também costumava deixar o serviço de bufê até que o último convidado deixasse a festa. Percebeu que essa atitude não é mais necessária. Uma melhor opção é preparar outro prato para servir de madrugada. Seguindo à risca a meta de corte de custos, a empresa adquiriu ainda um equipamento que permite o congelamento de alimento a vácuo, evitando o desperdício de sobras.

RITA E JOSÉ CARLOS FRANÇA: TODOS PRECISAM ABRAÇAR A NOVA FORMA DE TRABALHAR DO BUFFET

Os França querem ganhar os clientes corporativos com preços competitivos e produtos com qualidade, uma das lições deixadas pelo ‘seu’ França, que está fora do negócio desde 2011. Todos os cerca de 100 funcionários estão sendo treinados para abraçar a nova maneira de trabalhar.

“Meu pai dizia: seja obcecada pela qualidade e pelo bom serviço e entregue ao cliente mais do que ele espera, portanto, surpreenda-o. Essa é a nossa missão também agora para a divisão corporativa”, afirma Rita.

A SUCESSÃO

Os irmãos França dizem que a segunda geração da família chegou à empresa de uma forma tranquila, natural. A sucessão foi acontecendo aos poucos, à medida em que o pai ia deixando as várias atividades que acumulava.

José Carlos, 51 anos, diretor-comercial, chegou à empresa com 20 anos, para ajudar o pai que, na época, teve um problema cardíaco. “Não deu nem para terminar a faculdade”, conta ele, pois precisava trabalhar de dia e de noite.

Gisele, 52 anos, diretora de operações e Rita, 53 anos, diretora financeira, vieram depois, após construir carreiras em outras empresas. Eles garantem que as desavenças no dia a dia do negócio não existem nem entre eles nem entre eles e os dois filhos de Oliveira, mais jovens.

René Werner, consultor especializado em empresas familiares, chama a atenção para situações como essa. Depois de trabalhar por 30 anos com sucessão em empresas familiares, ele assegura que sempre chega uma hora em que as desavenças entre famílias e entre sócios desabrocham e, portanto, é preciso que, antes que isso aconteça, sejam tomadas algumas precauções.

Um dos seus conselhos é que as pessoas envolvidas em situações como as do França preparem um acordo societário, que defina regras para o futuro do negócio. Esse acordo deve estabelecer, por exemplo, quem vai e quem não vai tocar a empresa, definir exatamente os papéis de cada pessoa da família no negócio.

“Em uma família há genros, cunhados, filhos e cada um deles tem a sua ambição”, diz Werner. Uma das principais falhas das empresas familiares é pensar só no presente, no dia a dia do negócio. O consultor vai mais além. “Eu, pela experiência que acumulei, diria que, se tivesse em uma empresa familiar com um sócio, eu tentaria me livrar dele”, diz, meio em tom de brincadeira. 

HISTÓRIAS DO ‘SEU’ FRANÇA

O sucesso do buffet, segundo os filhos, teve muito a ver com o comprometimento do pai com os clientes. "Meu pai chegava a dormir aqui no bufê nos finais de semana. Assim que acabava a festa de um casamento de madrugada, ele começava a ajudar os funcionários no preparo do café da manhã que seria servido no dia seguinte”, conta Rita.

Para que os filhos entendessem a importância desse comprometimento, ele costumava contar um caso.

Certa vez ele indicou uma costureira para fazer um vestido de noiva para uma cliente. No dia do casamento, a costureira não estava na casa dela. A noiva ligou desesperada para o ‘seu’ França para falar da situação. Ele simplesmente pegou a perua Kombi, que usava para fazer compras no Ceasa, foi até a casa da costureira, arrombou a porta e pegou o vestido da moça. Lá mesmo a noiva se trocou e foi de Kombi para a igreja. Não é muito difícil de advinhar o que aconteceu depois. O casal ficou amigo da família França.

FOTOS: Divulgação