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Brasileiro levou um susto com a crise. E ficou mais cauteloso


Compras adiadas, desconfiança com o crédito e até intenção de investir são algumas das atitudes dos consumidores captadas pela Deloitte em enquete no começo de 2017


  Por Redação DC 09 de Fevereiro de 2017 às 18:00

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


Se depender dos consumidores brasileiros, o varejo ainda não verá recuperação no primeiro semestre. Preocupados com a crise econômica, temerosos de perder o emprego, em sua maioria, pretendem adiar para o segundo semestre os planos de compras ou de gastos, à espera de uma melhora do cenário nacional.
 
O estado de espírito apareceu na enquete Hábitos e tendências de consumo do brasileiro no início de 2017, realizada pela Deloitte. O levantamento foi feito pela internet com 1.084 pessoas, que responderam a questão aberta de múltiplas escolhas.

A decisão de conter os desejos de consumo variaram segundo as categorias de produtos. Viagens e troca de equipamentos eletroeletrônicos (como TV, smartphone, computador etc) foi apontada por 61% dos participantes.

O segundo desejo de compra mais citado está relacionado à troca de eletrodomésticos (como geladeira, fogão e outras utilidades para o lar), a qual será empurrada para o segundo semestre por 51% dos pesquisados. 

A compra ou troca de carro tem a preferência de 41%, que vão abrir mão da satisfação do desejo por mais um tempo. 

CUIDADOS PESSOAIS

Alguns serviços também devem ser afetados pela cautela do consumidor, já que 41% dos 1.084 consultados pelo instituto Ibope/Conecta-i afirmaram que vão protelar para o segundo semestre os gastos previstos com cuidados pessoais (como academia e tratamentos estéticos, entre outros). 

O segmento de consumo menos afetado pelo adiamento, de acordo com a enquete, é o de educação, - 34% planejam deixar para mais adiante seus planos de gastar com cursos superiores, de línguas ou técnicos.

“Percebemos que as pessoas têm muita vontade de que o Brasil volte logo aos trilhos”, explica Reynaldo Saad, sócio-líder para a indústria de Bens de Consumo e Produtos Industriais da Deloitte Brasil e também responsável pela enquete.
 
Mas com medo de perder emprego, o consumidor mantém a cautela diante da crise renitente. “É natural, então, que adie seus planos de compra, esperando uma melhora no cenário econômico”, avalia. 

FALTA MATURIDADE

Para o executivo, o Brasil não alcançou o estágio de maturidade que se reflete em uma economia estável e bem estruturada.

“O brasileiro levou um grande susto. Ele teve um vislumbre de melhora com o ‘boom’ consumista de alguns anos atrás, percebeu que aquilo não era sustentável e agora está sendo ponderado: ‘Preciso parar para pensar um pouco antes de gastar ou de me endividar’.” 

Segundo os dados da enquete, a maior parte dos brasileiros que participou do levantamento (37%) considera estar hoje em igual situação financeira à que estava no início de 2016. 

Para 27%, a situação pessoal do momento é pior do que há um ano. E, diante de 12 meses ruins como termo de comparação, 34% dos participantes se veem atualmente em melhor situação do que no mês de janeiro anterior.

Os fatores que mais influenciaram a decisão de compra neste início de ano foram: o receio dos efeitos da crise econômica (citado por 94% dos participantes da enquete); cautela em relação à alta da inflação e/ou dos juros (91%); o hábito de poupar (65%); e o receio de perder o emprego (com 44% das referências).

O PODER DA PROMOÇÃO

A enquete da Deloitte reforça que o brasileiro com intenção de comprar neste início de ano estava muito interessado em descontos e em preços mais baixos. 

Em relação às grandes liquidações de começo de ano, 63% destacaram que o fator “maior desconto para pagamento à vista” é o mais valorizado no momento da compra, seguido por promoções do tipo compre um e leve dois, com 44% de citações. 

Também as ofertas de produtos de mostruário com preços reduzidos atraíam a atenção de 31% dos consumidores. 

“O consumidor recebeu um bom incentivo com a medida que autorizou os comerciantes a cobrar preços diferentes de acordo com a forma de pagamento escolhida pelo cliente (cartão de crédito ou de débito, dinheiro à vista, crediário e outras)", diz Saad. “A medida veio acabar com uma insegurança jurídica que atingia os varejistas e se tornou um ótimo impulso para melhorar suas vendas.”

Em relação ao canal de compras priorizado, dos 1.084 pesquisados, 48% afirmaram ter concentrado suas compras na Internet; enquanto 47% priorizaram lojas físicas; e 5% disseram que sequer fizeram compras de Natal.

PERFIL DO PÚBLICO

A enquete Hábitos e tendências de consumo do brasileiro no início de 2017 foi realizada pela Deloitte e aplicada pelo instituto independente de pesquisas IBOPE/Conecta-i.
 
Os participantes representam as diferentes classes sociais: 51% eram mulheres e 49%, homens. O maior grupo (38% dos pesquisados) integra a chamada Geração X (de 31 a 44 anos); seguido pela Geração Y (35%, com idades entre 18 e 30 anos); 22% de Baby Boomers (45 a 60 anos); e 5% de pessoas com mais de 61 anos.

Do total de participantes, 76% afirmaram estar trabalhando atualmente. No recorte por renda familiar, 44% pertenciam à classe C (de R$ 2.431 a R$ 6.480 ao mês); 30% integravam as classes D e E (com renda até R$ 2.430); 18% enquadraram-se nas classes A e B (de R$ 6.481 a R$12.150); e 8% declararam-se da classe A+ (com ganhos mensais superiores a R$ 12.151).

 

 

Imagem: Thinkstock