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Brasilândia, bairro das classes C e D, ganha seu atacarejo


Com faturamento de R$ 3 bilhões anuais, a rede Roldão inaugura sua trigésima loja em um formato que se expande em meio à crise. De acordo com a Nielsen, 49 milhões de lares brasileiros hoje se abastecem nos atacarejos


  Por Fátima Fernandes 29 de Novembro de 2016 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


A história começa nos anos de 1980 quando o português João Roldão vendia embutidos para pequenos comerciantes em uma Kombi no bairro da Freguesia do Ó, na zona Norte de São Paulo.

Na época, ninguém tinha ouvido falar de cash and carry ou atacarejo, como foi batizado no país o atacado de autosserviço, que vende para o varejo e para o consumidor final. Roldão via um futuro promissor para o seu negócio. E estava certo, como comprovam as dezenas de lojas que levam seu sobrenome.

Quase quatro décadas depois, os filhos Ricardo e Eduardo inauguram nesta terça-feira (29/11) a 30ª loja do Roldão Atacadista, na mesma região que deu origem ao sustento da família.

Após estudo do potencial de consumo do local, os herdeiros decidiram erguer seu atacado no coração da Brasilândia -à rua Domingos Vega, 47-, bairro que abriga uma das maiores comunidades do país, berço da escola de samba Rosas de Ouro ao lado da Freguesia do Ó, onde tudo começou.

A megaloja, que começou a ser construída há cerca de um ano, ocupa cerca de cinco mil metros quadrados  em um terreno de 10 mil metros quadrados -pouco maior que um campo de futebol.

Contará com 22 check-outs e empregará 200 pessoas diretamente -a maioria recrutada na região.

INTERIOR DA LOJA DO ROLDÃO NA BRASILÂNDIA

Com faturamento anual da ordem de R$ 3 bilhões, a rede Roldão não revela nem número de clientes, nem o faturamento esperados para a loja.

Não quer despertar o interesse da concorrência. Com 300 mil habitantes, a Brasilândia possui milhares de pequenos estabelecimentos.

O bairro concentra um público que pertence, principalmente, às classes C e D, e que sempre deu importância a preço -ainda mais nestes tempos de crise.

Os irmãos Ricardo e Eduardo e o pai João têm mais um motivo para comemoração no coquetel agendado para hoje a partir das 18 horas na nova loja. A família investiu em um negócio que, apesar da recessão, não parou de se expandir.

Para ter uma ideia, nos últimos três anos, o número de lojas do segmento de cash and carry cresceu 31%.

Os nove associados reunidos na ABAAS (Associação Brasileira de Atacadistas de Autosserviço), criada em 2014, faturam, juntos, perto de R$ 80 bilhões por ano, com pouco mais de 500 lojas espalhadas pelo país, e empregam 75 mil pessoas.

Levantamento conduzido pelo instituto Nielsen revela que as vendas nominais dos atacarejos cresceram 24%, em média, de janeiro a julho deste ano em relação a igual período do ano passado, bem acima dos 5,4% de hipermercados, entre outros canais.

No quesito volumes comercializados, o fato é que, em contraste com os atacarejos, os demais canais registraram queda de vendas de janeiro a setembro ante o mesmo período de 2015.

Enquanto os atacarejos obtiveram crescimento de 14,4%, bares, supermercados, hipermercados e farmácias registraram queda de 2,3%.

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A expectativa é que os investimentos em expansão das empresas atacadistas se mantenham firmes em 2017.

O Roldão deve abrir mais seis novas lojas no ano que vem na zona Sul da capital paulista e no interior do Estado de São Paulo, de acordo com Ricardo Roldão, CEO da rede Roldão e presidente da ABAAS.

“Esse é um canal que já vinha crescendo antes da recessão, devido à estabilização da inflação. Com a crise, acabou favorecido, pois o consumidor busca economia e passou a fazer compras mais planejadas”, afirma Lenita Vargas Matar, gerente de varejo da Nielsen.

Apesar de este ser um canal relativamente novo no país, alguns números levantados pela Nielsen impressionam: 46,4% dos domicílios brasileiros - ou 49 milhões de lares - compram hoje nos atacarejos. Há dois anos, esse percentual era de 35,5% e, em 2015, de 40,9%.

Dos 49 milhões de domicílios que se abastecem no cash and carry, 15,4 milhões são fiéis compradores e contribuíram com 79% da expansão em valor do segmento.

Cerca de 1 milhão desses lares deixaram de comprar em supermercados e 415 mil, em hipermercados, de acordo com o estudo da Nielsen.

Um fator decisivo é que obtêm economia de 6%, em média, nos atacarejos e compram volume 15% maior de produtos do que nos hipermercados.

Mesmo quando a crise econômica passar, na avaliação de Lenita, o modelo cash and carry deve continuar se expandindo e aumentando a oferta de itens.

“O cash and carry está em ascensão, mas o varejo brasileiro não será movido por um apenas um formato de loja", afirma a pesquisadora. "O consumidor também valoriza conveniência, sortimento mais completo, produtos de nicho. É por isso que uma análise do potencial de consumo de uma determinada região é muito importante para o bom desempenho de um negócio”, diz Lenita.

Uma loja do porte que o Roldão inaugura no meio da Brasilândia terá provavelmente impacto sobre o pequeno comércio da região.

"Vai forçar que o pequeno varejo se especialize, passe a vender produtos customizados”, afirma o sociólogo Rudá Ricci.

Na avaliação de Ricci, o varejo de massa e o de produtos customizados devem conviver muito bem em determinadas regiões, como nas periferias.

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“A tendência é que os mercadinhos passem a vender produtos específicos, não encontrados no Roldão, por exemplo", afirma ele.

Segundo ele, os grandes mercados vão estar rodeados de lojas de produtos de identidade, na linha de não-perecíveis, como peças do vestuário, camisetas, bonés.

O escritor Reginaldo Ferreira da Silva, mais conhecido como Ferréz, dono da 1dasul, marca de roupas e acessórios que nasceu no bairro do Capão Redondo, na zona Sul de São Paulo, seguiu a linha de produtos customizados e não têm do que reclamar.

Com os três pontos de venda e site, Ferréz consegue faturar perto de R$ 1 milhão por ano. Para 2017, ele planeja abrir mais duas lojas em shoppings maiores, como o Aricanduva e o Interlagos.

Outras empresas que têm se dedicado a atender o público das comunidades, mesmo com a crise, estão em expansão.

A agência de viagem Vai  Voando, que opera principalmente dentro de favelas e nas periferias de grandes cidades, tem aumentado em cerca de 20% as vendas ao ano nos últimos cinco anos.

A agência, que opera desde 2013 em parceria com a CUFA (Central Única das Favelas), possui 414 pontos de vendas em comunidades do país, número que saltou 55% no ano passado.

Em 2015, o faturamento da empresa foi de R$ 54 milhões e a expectativa para este ano é alcançar R$ 65 milhões.

O público da periferia, de acordo com Ferréz, não está sendo atendido pelas marcas. E é esse espaço que vem sendo preenchido por grifes como a dele.

Se a constatação do escritor Ferréz vale também para o setor de atacado de autosserviço, a família Roldão hoje tem mais um motivo para comemoração.

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FOTOS E VÍDEO: Divulgação

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