Negócios

Brasil é grande perdedor com mega-acordo EUA-Pacífico


Exportações brasileiras tendem a cair. País está engessado pelo Mercosul e por uma diplomacia mais ideológica que pragmática


  Por João Batista Natali 06 de Outubro de 2015 às 12:38

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O Brasil será um dos grandes perdedores com a assinatura, segunda-feira (05/10), da Parceria Transpacífico, acordo comercial negociado nos últimos oito anos entre os Estados Unidos, o Japão e mais dez países. Estarão no novo bloco quatros latino-americanos: México, Chile, Colômbia e Peru.

Esse conjunto de economias suprimirá as taxas alfandegárias em suas transações e definirá padrões técnicos unificados, para que a indústria de um país possa utilizar componentes produzidos pela indústria de outros.

Dois pesquisadores da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), citados nesta terça (6/10) pela Folha de S. Paulo, calculam que as exportações brasileiras deverão cair em 2,7% em razão da TPP (sigla em inglês para a Parceria Transpacífico).

Essa queda atinge indistintamente as exportações de minérios, commodities agrícolas e produtos industrializados, de pequenas empresas a grandes conglomerados exportadores.

Os signatários da TPP são parceiros do Brasil em um quarto do comércio exterior e compram um terço das exportações, segundo dados de 2012.

DIPLOMACIA "IDEOLÓGICA"

O impacto do bloco na economia brasileira coincide com a relativa imobilidade das negociações comerciais em pouco mais de uma década, quando, por motivação ideológica ou pela camisa-de-força imposta pelo Mercosul, caminham muito lentamente as negociações com a União Europeia.

Os resultados concretos mais recentes do Brasil estão em acordos com a África do Sul e com a Autoridade Nacional Palestina, dois mercados de peso irrisório quando se fala de blocos de estatura continental.

O país tem investido parte de sua energia no Mercosul, que está em pane em razão das crises cambiais da Argentina e da Venezuela, cabendo a este último país a constatação de virtual falência, depois de 16 meses de declínio nos preços do petróleo, seu principal produto de exportação.

Apesar de dispor de quadros técnicos de altíssimo padrão no Itamaraty e no Ministério do Desenvolvimento, os três primeiros governos do Partido dos Trabalhadores tiveram em Marco Aurélio Garcia o teórico para a política externa e comercial.

Ele favoreceu Cuba, o regime bolivariano da Venezuela, o peronista da Argentina, a Bolívia de Evo Morales, o Equador e ainda países africanos não necessariamente governados pela esquerda. A ideia de sólida implantação brasileira na África foi pulverizada com a agressividade da China no comércio e investimentos do continente.

O ingresso da Venezuela no Mercosul, em manobra que afastou temporariamente o Paraguai das deliberações, não resultou em nenhum resultado comercial relevante. O regime de Caracas tampouco honrou investimentos bilaterais, como a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

GUARDEM ESTA SIGLA: TTIP

Nesta segunda-feira, em lugar de constatar os magros resultados de sua política, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez palestra em que lamentou não ter privilegiado ainda mais seus aliados da América Latina.

Com relação ao espaço perdido dentro da TPP, a valorização do dólar poderá ser neutralizada com relação às vendas brasileiras de industrializados ao mercado norte-americano, que hoje absorve 35% das exportações do setor.

O quadro tende a ser ainda pior, caso os Estados Unidos fechem um mega-acordo com a União Europeia, a chamada Parceria Transatlântica, conhecida pela sigla Ttip.

Nesse caso, diz à Folha José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), isso “asfixiaria” o país. Com a Ttip, dizem os pesquisadores da FGV, a queda nas exportações brasileiras chegaria a 5%.

O jornal Valor Econômico traz a previsão de que os Estados Unidos, Canadá e Austrália estarão, com a TPP, em situação vantajosa nas exportações agrícolas para os países asiáticos.

Segundo O Estado de S. Paulo, o Brasil exportou US$ 54 bilhões, no ano passado, para os 12 países signatários da TPP e importou US$ 60 bilhões. Em manufaturados, as exportações foram de US$ 31 bilhões, e as importações de US$ 47 bilhões.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) disseram na segunda-feira que o Brasil deveria acelerar as negociações comerciais e eventualmente negociar sua adesão ao novo bloco.


FOTO: Thinkstock