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Black Friday (mais) Legal


Data promocional pode ajudar a erguer o desempenho do varejo neste ano


  Por Karina Lignelli 23 de Setembro de 2015 às 17:19

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


No Brasil é comum afirmar que as contas saem do vermelho para entrar no azul. Mas, no varejo americano, a sexta-feira logo após o Dia de Ação de Graças é a oportunidade do ano para engordar os resultados.

A data promocional batizada de Black Friday vem da expressão "going to back black" que, apesar de mencionar a cor preta, significa que é a sexta-feira na qual os resultados voltam para o azul. 

Em tempos de recessão, a Black Friday 2015, que será realizada em 27 de novembro, pode ser a chance de melhorar os resultados, tanto no e-commerce quanto no varejo físico.

"E de faturar mais do que no Natal", segundo Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Segundo ele, essa é uma chance de tentar reverter o mau momento do varejo brasileiro, que deve encerrar o ano em queda de 5%, de acordo com projeções da ACSP. Porém, é preciso se preparar, e a movimentação já começou.

A Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (camara-e.net), em parceria com a Braspag (empresa de pagamentos online da Cielo) realizou na quinta-feira (24/09), das 9h às 12h, o terceiro e último workshop de capacitação gratuita e online para o “Black Friday Legal 2015”. . 

DATA DO CALENDÁRIO DO E-COMMERCE JÁ FOI INCORPORADO AO DO VAREJO FÍSICO/FOTO: NILTON FUKUDA/ESTADÃO CONTEÚDO

A exemplo do que ocorreu em 2014, nesta edição da Black Friday a ACSP será parceira da Buscapé Company e, com isso, apoiará as diversas campanhas que serão realizadas no período para estimular o consumidor a aproveitar as ofertas de ocasião.

O site oficial da Black Friday, criado pelo BuscaDescontos - que trouxe o evento para o calendário do e-commerce brasileiro em 2010  - já começou a divulgar ações e promoções de lojistas.  

Se a projeção para o varejo é fechar este ano no vermelho, para o comércio eletrônico a expectativa é de crescimento de 15% em 2015, segundo projeções da E-bit no 32º Relatório Webshoppers.

Esse crescimento será muito estimulado pelo evento promocional, que representa dois meses e meio do faturamento mensal do varejo eletrônico, de acordo com Gerson Rolim, diretor de comunicação e consultor do Comitê de Varejo da camara-e.net. 

“O consumidor está com menos dinheiro no bolso, com medo de perder o emprego, o dólar está disparando e a inflação, galopante... Mas é nos momentos de crise que, mais do que nunca, ele quer pagar o menor valor possível pelo produto ou presente que precisa comprar”, diz.  

Juliano Motta, diretor geral do grupo francês LeadMedia, que comprou o BuscaDescontos em 2013, tem opinião semelhante. Segundo ele, para muitos varejistas, a Black Friday é um momento de recuperação das vendas - e,consequentemente, de diminuição do nível de estoques

“Nossa pesquisa junto aos consumidores ainda não está pronta mas, pelo que já apuramos, muita gente entende a Black Friday como uma oportunidade para o dinheiro render mais", afirma. Mesmo na crise, a vida continua, e as pessoas continuam com necessidade de comprar.” 

COMO SE PREPARAR PARA VENDER MAIS 

Na capacitação da camara-e.net para o Black Friday Legal 2015, os pequenos e-commerces podem aprender sobre planejamento, logística, meios de pagamento e marketing digital, além de participar do workshop “Aspectos legais e Código de Ética do BFL” para conquistar o selo de credibilidade. 

Especialistas do Sebrae, Correios e BNDES, além da Câmara e da Braspag devem ministrar palestras no evento, que tem como objetivo preparar as pequenas lojas virtuais dentro boas práticas do e-commerce.

A meta é reduzir o número de reclamações dos consumidores junto ao Procon, que identificaram todo o tipo de fraude nas edições anteriores - como maquiagem de preços, por exemplo.  

O lojista ainda precisa ficar atento a outros pontos importantes. Segundo Rolim, da camara-e.net, não é muito fácil para o varejo online promover o marketing digital durante a Black Friday, já que é preciso um investimento alto para conseguir ações de relevância. 

“Um bom conselho para os pequenas e médias lojas virtuais é fazer parcerias com marketplaces. A razão disso é que têm condições de fazer bons investimentos para a data e conseguem atrair audiência para os parceiros”, afirma. 

Juliano Motta, do LeadMedia/BuscaDescontos, diz que, para obter um melhor desempenho, no primeiro momento é preciso buscar a melhor negociação de um grupo de produtos, no qual dificilmente o grande varejista terá preferência. 

“É oferecer produtos bons e diferenciados a preços acessíveis – afinal, o pequeno e-commerce vai brigar com um varejista muito maior que ele.”

SELO BFL 2015: CERTIFICAÇÃO PARA DAR CREDIBILIDADE

Mas não adianta oferecer boas ofertas, conduzir um plano de marketing e comprar mídia no Google para gerar tráfego para a loja se o site “não parar em pé” - ou seja, se o sistema cair em pleno processo de compra do consumidor. 

“Por isso é importante conversar com fornecedores de tecnologia para ver se a infraestrutura será suficiente com o incremento da demanda”, afirma. 

André Ricardo Dias, diretor executivo da E-bit/Buscapé, reforça as dicas de ambos. Segundo ele, ficar atento à infraestrutura tecnológica é essencial: na edição passada da Black Friday, mesmo entre os maiores e-commerces, apenas os sites de uma ou duas lojas não saíram do ar. 

“A data gera um volume muito maior do que o site está acostumado a suportar, e muitos podem acabar não vendendo por isso", diz. 

Ele afirma que é preciso planejar os estoques de acordo: quanto mais agressivos são os descontos, mais rápido se vende. E se isso não acontecer, acaba-se perdendo vendas.

“Nesse momento de compra por impulso, muitos consumidores tendem a ir para as lojas que mais confiam, já que não há muito tempo de avaliar se é barato mesmo ou se vai receber a compra”, afirma. 

HORA DE COMPRAR?

Quando a situação macroeconômica está ruim, a alternativa para o varejo é reforçar o trabalho no ambiente micro - principalmente em ações de marketing. É o que afirma Alfieri, da ACSP.

Ou seja, é continuar fazendo promoções, liquidações e ofertas. Nesse sentido, a Black Friday se tornou sinônimo de “vamos torrar os estoques”.  

“O termo em si representa preços mais baixos. Tanto que até grandes varejistas já começaram a fazer propaganda com o apelo 'preços de Black Friday'", afirma. "Por isso o ideal é trabalhar boas ofertas, marcas alternativas e outras táticas para garantir a sobrevivência do negócio." 

Longe de “salvar o varejo” em 2015, mas apenas “corrigir a baixa excessiva do terceiro trimestre”, a consolidação da Black Friday no varejo virtual e no físico já tem sido a aposta de muitos lojistas para fechar o ano com resultados no azul, opina Dias, da E-bit/Buscapé - que também finaliza pesquisa própria de intenção de compra junto aos consumidores na data especial.  

No primeiro semestre, segudo ele, o setor não cresceu tanto porque muitos consumidores ainda acabavam de pagar as parcelas do Black Friday anterior. Sem contar que o aumento do desemprego e o menor poder de compra acabaram reduzindo o potencial de consumo.

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“Com os descontos bem agressivos dos últimos dois anos, porém, o consumidor acabou entendendo que a Black Friday é a grande oportunidade para comprar o que precisa com preços muito mais baixos.”  

COM A ALTA DO DÓLAR, DESCONTOS DA BF PODEM FAVORECER VENDA DE ELETROELETRÔNICOS/FOTO: THINKSTOCK

Por outro lado, há a influência do cenário econômico. A alta histórica do dólar, que nesta quarta-feira (23/09) fechou cotado perto de R$ 4,15, pode tornar muitos negócios inviáveis – principalmente a venda de artigos que têm componentes importados, como os eletroeletrônicos.

“O lojista não pode ficar repassando preços. Ou reduz custos para ver se segura ou então vai ter que descontinuar linhas de produtos”, afirma Alfieri.

O resultado do Balanço de Vendas da ACSP da primeira quinzena de setembro, porém, já sinaliza uma tendência: a antecipação das compras para o Natal.

Se as vendas de presentinhos (itens pagos à vista) caíram 20%, a comercialização de bens duráveis subiu 1,8% - o que significa uma mudança de comportamento de um determinado perfil de consumidor nos últimos meses.

Como nem todo mundo está com a situação financeira ruim, segundo Alfieri, quem pode compra, tem preferido aproveitar os "preços de Black Friday".

Ou seja, o notebook que hoje custa R$ 899 poderá estar mais caro no Natal se o dólar continuar subindo, alerta. 

“A Black Friday é uma estratégia de curto prazo. Mas pode se prolongar enquanto a situação estiver ruim: o importante é usar todos os recursos possíveis para continuar a vender”, diz o economista Alfieri. 

Foto de abertura: Thinkstock