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Bens tombados se transformam e ganham vida em São Paulo


Abandonado durante 25 anos, casarão de 1920 (na foto) foi convertido em um bar badalado, o Drosophyla, no centro da capital


  Por Mariana Missiaggia 12 de Março de 2018 às 13:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


A empresária Lilian Malta Varela precisava de um novo espaço para abrigar seu bar, o Drosophyla, que durante 13 anos funcionou na região da Consolação.

Há três anos, quando iniciou sua maratona pela cidade de São Paulo, deu de cara com um casarão de 1920, projeto do arquiteto Adelardo Soares Caiuby, na rua Nestor Pestana, no Centro.

Fechado há 25 anos e tombado pelo Conselho Municipal de Preservação (Conpresp), a casa conservava todos os elementos originais, como lustres, afrescos e assoalhos. Comprometido,o telhado de madeira de lei abrigava uma infinidade de pombos.

CASARÃO DO DROSOPHYLA TEM INFLUÊNCIA
GERMÂNICA

Um cenário que desanimaria qualquer possível locatário. Mas a ideia de trazer vida nova àquele imóvel parecia ser mais do que suficiente para a empresária.

Toda a reestruturação do local, que tinha fachada e área interna tombados, levou um ano, sob o comando do arquiteto Alexandre Mascarenhas, especialista em edificações históricas e construções barrocas.

Enquanto marceneiros e restauradores se ocupavam pesquisando materiais e trabalhando na restauração de cada item, Lilian circulava entre os órgãos de defesa do patrimônio histórico em busca de licenças e orientações para correr com o processo que lhe pareceu extremamente burocrático.

Um dos documentos necessários para dar início ao restauro, por exemplo, dependia da aprovação de um colegiado que se encontra apenas uma vez por mês, segundo a empresária.

Com pilhas de processos a serem analisados, a espera foi longa. Durante esse período, Lilian já pagava aluguel e se quer podia dar início ao trabalho de reforma.

“Nem gosto de dizer quanto gastei porque para muitos, soa como algo insano. Mas, costumo dizer que foi proporcional à falta de apoio que tive do poder público”, diz.

Há três anos em funcionamento, o negócio ainda está longe de trazer à empresária o devido retorno financeiro.

“Foi uma realização pessoal. Do ponto de vista de bussiness, não faz sentido investir sem incentivos”.

IMPACTO DE INCENTIVOS 

Em novembro de 2017, representantes do Conselho de Política Urbana (CPU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e o Conselho Municipal de Preservação de Patrimonio Historico (Conpresp) assinaram um acordo para tentar potencializar ações como a de Lilian.

LILIAN ESCOLHEU UM CASARÃO PARA ABRIR O
DROSOPHYLA

Desde então, um corpo técnico avalia algumas possibilidades de inserção desses bens no cenário da economia urbana.

A intenção é sugerir politicas públicas que estimulem a recuperação desse patrimônio cultural por meio de um uso economico e sustentável, agregando valor a esses bens, como aconteceu com o imóvel do Drosophyla.

Essas possíveis alternativas de uso futuro envolvem o estudo do impacto da isenção de impostos para fins de preservação, de acordo com Larissa Campagner, responsável pelo estudo e coordenadora técnica do CPU.

Com base em uma organização do banco de dados dos IPTUs dos bens tombados na cidade (cerca de 24 mil cadastros), a equipe fez um levantamento da isenção de IPTU x os custos de restauro e preservação dos imóveis selecionados.

E com base nisso, criou um modelo simplificado de alternativas de uso futuro para os bens em questão.

O recorte feito pelo estudo considera uma amostragem de 394 estabelecimentos. Foram utilizados como referência prédios das ruas Boa Vista, Florência de Abreu, Gaivota e Rua Santa Ifigênia, no Centro de São Paulo.

"O impacto da isenção do pagamento de IPTU para esses bens (394 imóveis), seria uma perda de 0,74% da receita do munícipio", diz Larissa.

Por outro lado, a economia da cidade seria muito mais estimulada. Na época em que Lilian chegou ao endereço, o único negócio que funcionava por ali era uma boate. Agora, além do Drosophyla, uma pizzaria e outros bares dão vida noturna ao endereço que estava esquecido na cidade.

A RESTAURAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DO CASARÃO DE 1920 DEMOROU UM ANO

Atualmente, a casa está listada ente os cem melhores bares do mundo pelo site World’s Best Bars. 

Sem ter recebido nenhum tipo de incentivo, Lilian acredita que esse tipo de proposta pode ser a única salvação para o casario da cidade.

Ao optar por um imóvel tombado, Lilian estima ter gasto, no mínimo, 60% a mais do que se tivesse escolhido outro tipo de imóvel. Hoje, ela não aconselha outros empresários a fazer o mesmo sem que o processo todo seja reformulado.

“Quem saiu ganhando foi o dono do imóvel e a região, que ganhou um novo gás”.

FOTO: Divulgação