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Bar Guanabara, a arte de se reinventar em meio ao caos


O secular ponto de encontro de políticos e celebridades está desde 1968 no Vale do Anhangabaú e convive com moradores em situação de rua, escuridão e sujeira


  Por Wladimir Miranda 26 de Janeiro de 2017 às 13:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Pelo Bar Guanabara já passaram figuras de relevo da vida pública e da sociedade nacional como Santos Dumont, Adhemar de Barros, Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Abreu Sodré, Carvalho Pinto, Ulisses Guimarães, Guilherme de Almeida Prado, Menotti Del Picchia e Silvio Caldas, o eterno seresteiro do Brasil.

Isto em tempos idos. No presente, em campanha eleitoral, ou já alojado no Palácio dos Bandeirantes, como Governador, Geraldo Alckmin, de vez em quando aparece por lá.

Fundado em 1910, pela família Martinez, no antigo endereço, na Rua Boa Vista, hoje o estabelecimento se reinventa para sobreviver em meio a moradores em situação de rua, o lixo acumulado nas calçadas e a péssima iluminação noturna nas proximidades e no próprio Vale do Anhangabaú.

A mudança para o atual endereço, Avenida São João, 128, ocorreu em 1968. Antes, funcionou no número 326 da Rua Boa Vista, em um edifício que foi desapropriado pela Companhia do Metropolitano de São Paulo para construção da estação São Bento.

O local era muito frequentado na hora do almoço pela fina flor da sociedade paulistana. Quando a noite chegava, o Bar Guanabara recebia quem saía dos cinemas e teatros da cidade e tinha o hábito de jantar fora. A disputa era para ver quem conseguia chegar às mesas do fundo, onde estavam os frios variados e as saladas de maionese.

No fundo do restaurante havia também um mural em que um artista desconhecido pintara um híbrido de baía de Guanabara e baía de Nápoles.

Até 1935, quem ocupava o espaço que o Guanabara ocupa hoje era o Restaurante Pinguim, da Companhia Antarctica Paulista.

CENAS DOS TEMPOS EM QUE NO ATUAL ENDEREÇO HAVIA UMA BADALADA CERVEJARIA

Desde 1968, os novos proprietários do tradicional bar e restaurante são Nelson de Abreu Pinto, de 84 anos, com 75% das ações, e Antônio Augusto da Costa Silva, de 61 anos, que detém os outros 25%.

Antônio admite que o tradicional bar e restaurante foi atingido em cheio pela crise econômica. Mesmo assim, diz, com orgulho, que o local é um dos poucos que continuam servindo alimentação à la carte no centro de São Paulo.

O Guanabara passou por uma ampla reforma antes da Copa do Mundo no Brasil, em 2014. O corredor que havia na entrada não existe mais. Os antigos lambris de madeira deram lugar a uma decoração muito mais moderna. Com as novas instalações, a casa hoje comporta 350 pessoas sentadas.

A região do Vale do Anhangabaú foi abandonada pelas autoridades municipais. Assim que o sol se vai e a noite vem, fica difícil passar pelo Vale do Anhangabaú sem ser incomodado por moradores em situação de rua. Isto faz com que a casa, que já foi uma ótima opção para quem gosta de happy hour, agora feche a porta muito mais cedo.

“Muitos clientes vão embora assim que escurece. Eles têm medo de assalto”, afirma Antônio.

A saída para sobreviver em meio ao caos, foi apostar todas as fichas na hora do almoço. Os pratos à la carte seguem sendo a grande atração do estabelecimento.

O prato mais pedido ainda é a picanha à brasileira, com arroz, farofa e fritas, dividida em dois preços: R$ 89,00, a meia, e a grande, à R$ 136,00, que serve três pessoas.

O filé à parmegiana, com arroz e fritas, para duas pessoas, a R$ 95,00, e o prato grande, também a R$ 136,00 continuam na lista dos preferidos.

Nos dias de hoje, o maior movimento no Guanabara é de quarta à sexta-feira, quando 300 pessoas, em média por dia, costumam saborear a comida da casa. Claro, nos bons tempos, antes da crise econômica, este número triplicava.

A coxa-creme (coxa de frango recoberta com massa empanada e frita), que ajudou a fazer a fama da casa, é servida ao preço de R$ 5,50. A desfiada, a R$ 4,00.

Lanches, massas e pratos das cozinhas brasileira e alemã, sem esquecer o chope bem servido, logo à entrada do estabelecimento, ainda estão lá.

A novidade, implantada em junho do ano passado, por Antônio, que ajudou a “turbinar” o movimento, são os pratos executivos.

A direção do Guanabara também resolveu fazer convênios com empresas e estabelecimentos bancários do centro da cidade. Pratos como o virado à paulista (segunda-feira), servem duas pessoas, ao preço de R$ 69,00.

O convênio só vale para duplas de pessoas que, se preferirem, podem optar pelo prato à la carte, com desconto de 10% no preço.  O convênio vigora também às terças, quartas (com feijoada, também para duas pessoas), a R$ 68,00, quintas e sextas.

Com a promoção, de 30 a 40 pratos executivos são consumidos por dia.

“Não posso afirmar que se não tivesse feito estas promoções a casa já teria fechado suas portas. Mas, sem dúvida, se não fossem os pratos executivos e os convênios com empresas e bancos, nossa situação estaria bem pior”, afirma Antônio, que não esconde que sente saudades da Copa do Mundo.

É que um grande telão no Vale do Anhangabaú, colocado ali pela Fifa para a transmissão dos jogos, levou milhares de pessoas à região. E o Guanabara foi um dos mais beneficiados pela massa de torcedores, brasileiros e estrangeiros.
“No período da copa, o nosso faturamento aumentou em 100%. Bem que podia ter copa no Brasil todos os anos”, sonha Antônio.

FOTOS: Wladimir MIranda/Diário do Comércio e Divulgação

ARTE: Guto Camargo