Negócios

Bandeira branca nas (tensas) relações entre lojistas e shoppings


Na tentativa de amenizar conflitos gerados pela crise, comerciantes e executivos de centros de compras agora brindam pelo diálogo


  Por Fátima Fernandes 12 de Junho de 2017 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


No dia 1º de junho, uma quinta-feira, lojistas e gestores de shopping centers participaram de um happy hour no Bar Botica, no Brooklin, zona Sul paulistana.

Com música, salgadinhos e bebida à vontade, o bar fechou só para eles, das 19h às 22h. Só entravam convidados com nomes na lista. Estava lotado.

Não é a primeira vez que a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) promove um encontro deste tipo. O primeiro aconteceu no final do ano passado.

O evento deste mês, que contou com o apoio do Conselho de Varejo da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), teve um claro objetivo: elevar o astral nas relações entre as duas partes, que chegaram a viver em pé de guerra no ápice da crise econômica.

O relacionamento entre administradores de shoppings e comerciantes são mais tranquilas quando a economia vai bem.

Se o consumo está em expansão, os centros comerciais têm menos com o que se preocupar. Alguns contratos de locação estão atrelados à receita da loja. Quanto maior a venda, maior será também os ganhos dos shoppings.

Tudo se complica quando as vendas vão mal e o lojista não consegue arcar sequer com despesas básicas, como aluguel, condomínio e fundo para promoções.

A recessão dos últimos dois anos estressou essa relação. Assim que os lojistas sentiram o baque das  vendas correram atrás da administração dos empreendimentos para solicitar a revisão de contratos.

Lojistas pleitearam por descontos no aluguel e por mudança para espaços menores, mais baratos. Muitos não obtiveram sucesso nas negociações e tiveram de fechar as portas.

Um caso ilustrativo é a Di Pollini, rede de lojas de sapatos masculinos, que teve de sair do shopping Pátio Higienópolis, onde estava desde a inauguração do empreendimento, em 1999. Também fechou lojas nos shoppings Central Plaza e Anália Franco.

LOJA DA DI POLLINI QUE FECHOU EM ABRIL NO SHOPPING HIGIENÓPOLIS

É grande a lista de lojas que não conseguiram arcar com os custos dos shoppings é imensa.

A Pink & Co., especializada em moda jovem, fechou 12 das suas 14 lojas em shoppings. A Beluga, especializada em roupas femininas, fechou duas lojas em shoppings (Vila Olímpia e Center Vale, em São José dos Campos).

Com 160 lojas em shoppings, a rede L´Occitane au Brésil, já é exemplo de rede que conseguiu redução de 15%, em média, nos preços dos aluguéis em shoopings e está expandindo os negócios no país.

Quem costuma frequentar shopping centers deve ter notado o aumento de tapumes e a reciclagem de lojas nos últimos dois anos.

Lojistas dizem que os shoppings promoveram uma 'seleção natural'. Permaneceram aquelas redes que fazem grandes investimentos em marketing e atraem público, como a Apple e a Zara.

Para sobreviver, os shoppings dependem de lojas capazes de oferecer experiências de consumo à clientela.

"As grandes redes, ao contrário das pequenas lojas, conseguem acompanhar essa tranformação", diz Luiz Marinho, sócio-diretor da consultoria GS&MD.

A seu ver, o processo de "seleção natural" só não foi mais intenso devido à elevada vacância. "É melhor ter lojas abertas do que espaços vazios."

"Se o shopping quer a loja, faz concessões até que a má fase seja superada", diz Luis Augusto Ildefonso da Silva, diretor de relações institucionais da Alshop,entidade que reúne lojistas de shoppings. .

"Se não tem interesse que a loja fique porque não traz receita, não se esforça para mantê-la. É a lei de mercado".

 SHOPPING VAZIO: A CRISE AUMENTOU A TENSÃO ENTRE LOJISTAS E CENTROS DE COMPRAS

"Os shoppings mais maduros sofreram menos. Precisamos conversar com alguns varejistas para adequar o valor do aluguel à nova realidade de vendas das”, diz Ricardo Afonso, diretor superintendente do Center Norte, que esteve no evento da Abrasce.

As revisões de contrato, porém,, foram pontuais, e por um período de três meses, no máximo. “Isso aconteceu no último trimestre de 2016”, diz.

Com três décadas em operação, o Center Norte está consolidado. Há grandes redes na fila à espera de espaço para ali se instalar, segundo ele. As redes Zara e Forever 21, por exemplo, ainda não estão lá.

“Juntos vamos encontrar soluções criativas para o crescimento, incentivando o diálogo e, principalmente, a união do setor”, enunciava o convite da Abrasce.

Diálogo passou a ser uma palavra-chave entre lojistas e executivos. Não dá mais para os dois segmentos, de acordo com eles, trabalhar como forças distintas, desconectadas.

“O trabalho terá de ser conjunto. A indústria do varejo abrange desde o terreno, o shopping, as lojas e os consumidores. A integração é necessária para fazer com que as partes conversem e se entendam, para, juntas, caminharem na mesma direção”, afirma Nelson Kheirallah, presidente do Conselho de Varejo da ACSP.

Para Celso Muniz Filho, sócio-diretor do grupo CM, dono do shopping Boa Vista, em Recife (PE) esse encontro deveria te ocorrido há dois anos”, afirma, ao colocar outro tema à mesa: a canibalização dos negócios.

Para Muniz, empreendedores de shoppings e lojistas precisam, em conjunto, identificar áreas capazes de suportar centros comerciais, sem que um empreendimento prejudique o outro.

Dois shoppings em uma mesma área acabam enfraquecendo os dois empreendimentos. “Quando a procura é menor do que a oferta, todo mundo fica prejudicado”, diz.

Cerca de 75% das lojas de shoppings são de pequeno porte. Faturam entre R$ 40 mil e R$ 60 mil por mês. Antes da crise, seu lucro líquido girava em torno de 8% a 10%. Agora está negativo ou perto de zero, de acordo com a Alshop.

Para Marcos Hirai, sócio-diretor da consultoria GS&MD, o fato é que o shopping não vive sem o lojista e vice-versa. “Antes da crise, a relação entre eles era mais fria. Agora está mais próxima porque cada lado viu a necessidade de entender as particularidades do outro”, diz.

A aproximação começou justamente quando a economia dá sinais de melhora. “Não digo que está tudo ótimo, mas o pior momento da crise já passou”, afirma Glauco Humai, presidente da Abrasce.

De acordo com ele, a vacância média nos shoppings está estabilizada em torno de 5% no país.

Outro levantamento, do Ibope Inteligência, divulgado em abril identificou, porém, vacância de 8,5% nos shoppings consolidados em 2016 e de 9,1% em 2015.

No caso dos shoppings novos, inaugurados a partir de 2014, de acordo com a Abrasce, o nível de ocupação está aumentando.

Os empreendimentos inaugurados em 2014 com 65% de ocupação estão com quase 90% ante 75% daqueles abertos em 2015, com 65% de ocupação.

Já os que abriram as portas no ano passado com 50% de ocupação têm atualmente 70% de ocupação.

No levantamento do Ibope Inteligência, há 13,4 mil lojas vazias nos shoppings abertos a partir de 2012 ante 45% nos inaugurados entre 2013 e 2015.

A reciclagem de lojas que aconteceu nos centros comerciais, de acordo com Humai, é saudável, por demonstrar que os shoppings estão adequando o mix de lojas ao desejo dos consumidores.

O Brasil conta hoje com 560 centros de compras, dos quais 12 são outlets. De janeiro abril, de acordo com a Abrasce, o setor cresceu 4%, praticamente o mesmo que em 2016, 4,3%.

Considerando somente o mês de abril, o faturamento dos shoppings cresceu 10,7% na comparação com igual período do ano passado. Os outlets tiveram melhor desempenho, com expansão na casa de dois dígitos.

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“Estamos em um novo momento. A década de ouro do varejo passou e as vendas devem crescer numa velocidade diferente", afirma o presidente da Abrasce. !A corda esticou ao máximo, mas com diálogo conseguimos fazer com que ela não estourasse. Agora vamos retomar o caminho para voltar a crescer.”

BUROCRACIA

Para Humai, os shoppings têm desafios pela frente. Um deles é acompanhar o consumidor que está conectado todo o tempo, com possibilidade de comprar 24 horas por dia pelo celular ou computador.

Outro é enfrentar a burocracia que envolve a operação:

“Um empreendedor de  shopping tem de lidar com 4 mil leis e normas. E, quando vai dormir, não sabe se determinada lei que rege o empreendimento será a mesma. Essa tensão e instabilidade regulatórias causam insegurança e afasta os investimentos”, diz.

Neste momento, segundo afirma, os empreendedores de shoppings estão segurando os investimentos. No ano passado, foram inaugurados 18 shoppings no país. Esse número deve se repetir ou até crescer um pouco em 2017.

Os shoppings também estão mudando para atender novas demandas dos consumidores.

O grupo CM vai inaugurar um centro de compras em Olinda, em parceria com o grupo HBR, que prevê até a instalação de uma faculdade.

Programado para abrir as portas em abril de 2018, será dotado de um mix de lojas, espaços para lazer, serviços, poupa tempo , teatro, cinema, academia, clínica médica para consultas e exames.

Esse modelo de shopping, diz Muniz, atende às necessidades dos moradores (em um raio capaz de atender 1 milhão de pessoas) e dos lojistas. Não há outro rival nas proximidades.

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FOTO: Thinkstock e divulgação