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Aumento da carga tributária pode atrasar retomada do varejo


A elevação das alíquotas de Pis/Cofins para combustíveis terá impacto nos fretes, o que encarecerá os produtos para o consumidor final


  Por Renato Carbonari Ibelli 21 de Julho de 2017 às 17:43

  | Editor rcarbonari@dcomercio.com.br


O aumento das alíquotas de Pis/Cofins para combustíveis deixa o varejo em alerta. O setor começava a enxergar uma saída para a crise, beneficiado pela liberação do FGTS de contas inativas e pela redução da taxa básica de juros, medidas que deram mais fôlego ao consumidor. Porém, o anúncio de aumento da carga tributária pode prejudicar a retomada das vendas.

Na última quinta-feira, 20/07, a equipe econômica do governo elevou em 86% a alíquota de Pis/Cofins para diesel e dobrou a da gasolina. Além do impacto direto no preço dos combustíveis nos postos, o consumidor sentirá também a influência desse aumento no preço de bens e serviços.  

O custo do combustível impacta o frete e, por isso, tem reflexo em toda a cadeia produtiva. Segundo a Agência Nacional de Transporte de Cargas (ANTC), o aumento dos impostos deverá elevar em até 4% no preço do frete. Na ponta, o varejo acabará repassando ao consumidor os aumentos que se sucederão desde a indústria.  

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Segundo Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a medida do governo resultará em uma elevação de 0,5 ponto percentual na inflação. “O que se espera agora é uma compensação. Na próxima reunião do Copom, em vez de uma redução de 1 ponto percentual na Selic, poderiam baixar em 1,25”, diz o economista.

Alfieri lembra que, a partir de agosto, o consumidor não contará mais com recursos do FGTS de contas inativas, que foram antecipados agora em julho. Isso, segundo ele, pode influenciar negativamente as vendas à vista. “Nesse contexto, acelerar a queda dos juros ganha importância, já que reduz o custo do crédito, favorecendo as vendas a prazo”, diz o economista.

Com dificuldades em recuperar a arrecadação, o governo decidiu aumentar o Pis/Cofins para tentar arrecadar R$ 10,4 bilhões até o final do ano e assim cumprir a meta fiscal de déficit primário de R$ 139 bilhões. 

“Agora é um momento totalmente inoportuno para pensar em elevar tributos. O governo precisa fazer um controle eficiente dos gastos públicos e pensar em primeiro lugar na superação da população frente aos problemas financeiros trazidos pela recessão”, diz Alencar Burti, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp).

INDÚSTRIA

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) manifestou indignação com a medida e comentou que a elevação da carga tributária vai agravar a crise num momento em que a economia dá sinais de recuperação.

"Aumentar imposto não vai resolver a crise. Pelo contrário, irá agravá-la bem no momento em que a atividade econômica já dá sinais de retomada, com impactos positivos na arrecadação em junho", diz Paulo Skaf, presidente da Fiesp. 

A Fiesp tem uma campanha contra alta dos impostos que ficou marcada pela instalação de um pato inflável gigante em frente à sede da entidade na Avenida Paulista. O pato voltou a ser inflado depois do anúncio do governo.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) defendeu que o equilíbrio das contas públicas deveria ser perseguido pela contenção dos gastos e não pelo aumento dos impostos. 

"A elevação dos tributos drena recursos do setor privado para o setor público. Provoca o aumento dos custos das empresas e reduz o poder de compra das famílias, o que prejudica o crescimento da economia", afirma Robson de Andrade, presidente da CNI.

SUPERMERCADOS

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) também criticou a decisão do governo de aumentar impostos. Em nota assinada pelo presidente da entidade, João Sanzovo Neto, a Abras diz que o reajuste nos preços dos combustíveis terá reflexo em toda a cadeia de abastecimento e representa mais um obstáculo a quem quer empreender e crescer.

A associação avalia ainda que recorrer aos contribuintes para aumentar a arrecadação não é a melhor saída para cumprir a meta fiscal num País com uma das maiores cargas tributárias do mundo.

"O País ainda sofre os efeitos da crise econômica e acreditamos que o caminho para a retomada do crescimento não inclui nenhuma tributação a mais", afirma Sanzovo Neto

*com agências

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