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Até abril, varejo deve ter a maior queda desde início do Plano Real


Levantamento revela que o resultado negativo nas vendas deve chegar a 11,42%, segundo Marcel Solimeo (foto), economista-chefe da ACSP


  Por Karina Lignelli 16 de Dezembro de 2015 às 19:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Sem recuperação nas vendas no curto prazo. Esta é a perspectiva da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) para o movimento do varejo paulista, que deve fechar 2015 em queda de 7%. A estimativa é bem próxima ao volume de vendas do varejo nacional monitorado pelo IBGE que, apesar de uma ligeira alta em outubro (0,6%), deve encerrar o ano negativo em 5%.

Até abril de 2016, a projeção negativa para o varejo ampliado (que inclui concessionárias e lojas de materiais de construção) é ainda mais significativa, de 11,42% - um recorde da série histórica desde o início do Plano Real, em julho de 1994.

O indicador antecedente é baseado em dados do SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito) e da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP).  

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Segundo Marcel Solimeo, economista-chefe da ACSP, apesar do país ter passado por crises recorrentes e, em geral, com origem no mercado externo, a atual resulta de uma total incerteza do cenário político. Por isso, é impossível prever sua duração e intensidade.  

“Mesmo que a solução (política) seja rápida, a recuperação vai demorar. Dificilmente 2016 será positivo, e a economia só deve começar a voltar ao normal em 2017”, afirma.

Assim, com base no indicador antecedente, a tendência é que a crise atual se intensifique. Pelo levantamento da ACSP com base em dados da Sefaz-SP, a contração nas vendas do varejo se aprofundou em outubro, quando a queda média em relação a setembro ficou em 10,8%.

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Setores que dependem do crédito colaboraram para a queda generalizada, como veículos (-24,7%), móveis e decoração (22%), materiais de construção (20,4%) e lojas de eletroeletrônicos (17,2%), já que o consumidor está mais cauteloso e inseguro em relação ao futuro, afirma Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da ACSP.

Ele menciona o Indicador Nacional de Confiança do Consumidor (INC da ACSP, medido pelo Instituto Ipsos), que traz “uma síntese da situação do emprego, da renda e do crédito.”

“No atual cenário, haverá um aprofundamento dessa queda, e até abril não há perspectiva de recuperação. A tendência (de queda nas vendas) não é de estabilizar, mas de intensificar.”  

Para Marcel Solimeo, em um cenário otimista, a perspectiva é que a situação comece a se estabilizar a partir do segundo semestre de 2016. Mesmo assim, fica difícil prever um respiro em 2017.

“Fazer previsões no Brasil é difícil. Se continuarmos com indefinição política, há um risco maior de aumento nos juros e talvez não dê para esperar melhora nem em 2017”, alerta.  

E O NATAL?

O Natal de “abraços, beijos e orações”, previsto por Emílio Alfieri, economista da ACSP, deve se confirmar.

O Balanço de Vendas da Associação da primeira quinzena de dezembro mostra que, apesar do movimento do comércio paulistano ter registrado alta sazonal de 41,3% ante igual período de novembro, na comparação com o primeiros quinze dias de dezembro de 2014, a queda média foi de 18,4%.

Nas vendas a prazo, a alta de 34,2% sobre novembro ficou ligeiramente abaixo da média normal dos três anos anteriores (-0,7%). Já na comparação interanual, a queda foi mais significativa: de 15,4%.

“A alta dos juros, a restrição do crédito e os 55% dos consumidores que se sentem inseguros no emprego (dados do INC/Ipsos) fazem com que não sobrem condições para entrar na prestação”, diz Alfieri.  

Nas compras à vista, a situação se repetiu na primeira quinzena de dezembro: apesar da alta de 48,4%, ante a quinzena do mês anterior, ela também ficou abaixo da média de 52% dos últimos três anos. Já na comparação interanual, a queda foi mais acentuada e ficou em 22,4%. 

(DA ESQ.P/A DIR.) ALFIERI, SOLIMEO E GAMBOA, DA ACSP: RECUPERAÇÃO DIFÍCIL

A Black Friday, citada por alguns especialistas como a possível “salvadora do varejo” em 2015, também pode ter sido a responsável pela diminuição nas vendas em dezembro, já que muitos consumidores claramente anteciparam as compras de Natal, afirma.

“A ação ajudou um pouco a melhorar as vendas, porque foi prorrogada para o fim de semana. Mas como começou na internet, que representa menos de 5% do varejo, ainda não tem o mesmo peso”, diz.

Para Alfieri, o consumidor vai esperar a segunda parcela do 13º para comprar - principalmente itens como roupas ou bijuterias, “para sair bonito nas fotos" no Natal e Ano Novo. “Só não sabemos se esse ano realmente será ‘novo’, ou se vai continuar velho”, afirma.  

E 2016, pode ser considerado um ano perdido? Para Marcel Solimeo, só não será perdido se forem feitos os ajustes necessários na economia.

“Nenhuma recuperação é de graça, sempre tem seu custo. Mas, se o ano for aproveitado para fazer um ajuste estrutural, então não será perdido”, conclui.

Fotos: ACSP/Divulgação