Negócios

As vendas em Holambra não murcharam com a crise


Mesmo em meio à instabilidade econômica, os produtores de flores e plantas do interior paulista preveem fechar 2015 com crescimento de 8%, graças ao mercado de eventos


  Por Mariana Missiaggia 28 de Julho de 2015 às 07:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Não fosse a 2º Guerra Mundial, talvez a cidade de Holambra, a 134 quilômetros da capital paulista, não teria primavera o ano todo. Foi ela quem abrigou parte das recém-chegadas famílias holandesas após a grande destruição causada pela guerra, na década de 1940.

Usando a experiência trazida da Holanda, a atividade rural se tornou a base econômica da cidade, em especial, no segmento da floricultura.

Impulsionados pelo mercado de festas que movimenta R$ 15 bilhões por ano no país, o mercado de flores de Holambra reage bem à crise e prevê crescimento de vendas de cerca de 8% em 2015 –pouco abaixo da média anual de 12%. Mesmo assim, os produtores apostam em inovações para manter a progressão no atual momento econômico. 

Como terceiro produtor mundial de flores e plantas ornamentais, o Brasil ostenta um consumo per capita em torno de R$ 26 e em 2014, a cadeia produtiva do Brasil encerrou o ano com um movimento de R$ 5,6 bilhões. De acordo com a previsão, o mercado brasileiro de flores e plantas manterá o ritmo de crescimento que vem registrando desde 2006 e fechará 2015 com faturamento de R$ 5,7 bilhões.

SUZI, DA ACE HOLAMBRA: FLORES DESENCADEIA TURISMO

A principal atividade econômica de Holambra é o que desencadeia o turismo, também responsável por uma boa fatia da renda da cidade. De acordo com Suzi Celegatti, gerente da ACE Holambra (Associação Comercial e Empresarial de Holambra), os eventos ligados ao setor de flores e também ao agronegócio em geral têm influência direta em hotéis, restaurantes, garden center e agências de turismo receptivo, que se tornaram os segmentos mais beneficiados pelo cultivo de flores na cidade.

MAIOR PRODUTORA DE FLORES DA AMÉRICA

Fonte de 45% do mercado nacional de flores, a Veiling Holambra - um dos centros de comercialização de plantas da cidade - recebe, por dia, 250 clientes em busca de melhor preço para atender a demanda constante do mercado. 

VEILING QUER FATURAR R$550 MILHÕES EM 2015

“A maior região consumidora, sem dúvida, é o Sudeste, e a de menor representatividade, o Nordeste, inclusive pela distância”, diz Rachel Osório, 36 anos, gerente comercial da Veiling – que projeta faturar R$ 550 milhões em 2015 --crescimento entre 8% e 12%.

Com 360 associados, e 500 clientes ativos, a cooperativa também abastece as principais redes de autosserviço, como Carrefour e Pão de Açúcar, que representam 30% do faturamento da cooperativa.

Outros 32% provêm de atacadistas e varejistas de flores, e os 38% restantes são consumidos pelo ramo de decoração, que segundo Rachel, é o único que ainda não apresentou queda nesta fase recessiva da economia. 

Devido à alta demanda interna, a cooperativa deixou de exportar há seis anos para atender exclusivamente  aos compradores brasileiros, abrindo exceções apenas para pequenos compradores na Argentina, Paraguai e Uruguai.

“E mesmo assim, sendo a maior produtora de flores da América, tudo o que é produzido em Holambra ainda não é suficiente. Nossos produtores estão sempre viajando em busca de novidades para serem lançadas em setembro, na Expoflora.”

SEMESTRE INDEFINIDO 

Com uma produção semanal de 2 milhões de hastes, a Cooperflora – também em Holambra, compreende 52 produtores e atende de forma fixa a 400 clientes. Milton Hummel, 46 anos, diretor geral da cooperativa, viu o ramo se modificar nos últimos 15 anos. 

HUMMEL, DA COOPERFLORA - EXPECTATIVA CONTIDA

“As floriculturas perderam espaço para os supermercados, e tiveram que se reinventar para lucrar. Porém com o ramo de eventos, e principalmente, casamentos elas (floriculturas) conseguiram enxugar a estrutura física e aumentar o volume de contratos fechados”, diz Hummel.

Mesmo com as vendas em um bom patamar até o momento, Hummel prefere conter a expectativa de crescimento entre 7% e 10%. “Numa comparação com julho de 2014, estamos melhor em 2015 porque a Copa em 2014 congelou os casamentos nesse período”, diz. “No entanto, a informação é de que o mercado vai enfraquecer nos próximos meses, por isso estamos com o semestre indefinido.”

FLORES PARA OLÍMPIADAS 

Dentre as novidades preparadas para todos os anos, algumas foram apresentadas no 24º Enflor (Encontro Nacional de Floristas, Atacadistas e Empresas de Acessórios) e na 12ª Garden Fair - feira de tecnologia em jardinagem e paisagismo, em Holambra. 

Entre os destaques, um é especial para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, a cróton samba - variedade genuinamente brasileira, que recebeu o nome por conta do movimento das folhas onduladas e de suas cores.

CRÓTON SAMBA: A PLANTA OFICIAL DAS OLÍMPIADAS/ FOTO: DIVULGAÇÃO

A nova planta, que deve ser lançada somente após o carnaval de 2016, surgiu de uma variedade que já existia de cores vermelha e laranja – num processo que durou cinco anos. A ideia é que a planta se torne a decoração oficial durante o evento por ter as cores verde e amarela. 

PROVA DE FOGO

Dono do maior e-commerce de flores do Brasil, a Giuliana Flores, Clóvis Souza, 45 anos, prevê crescimento 30% nas vendas este ano, e dribla a crise negociando com fornecedores e lançando promoções no site, como o festival de orquídeas por R$ 69,90. Outra estratégia foi aumentar a possibilidade de pagamento pelo site para seis parcelas. 

CLÓVIS, DA GIULIANA FLORES, ESPERA CRESCER 30% EM 2015

No e-commerce há 16 anos, Souza mantém duas lojas físicas em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, e ainda um canal de televendas – responsável por 27% do faturamento da marca. “As pessoas se sentem mais seguras com todos esses canais. Sentem confiança em poder ligar para tirar dúvidas e conhecer nossas lojas físicas que representam apenas 6% de nossa receita, enquanto o virtual gera 67%”, diz. 

Atender a todo o país obrigou Souza a fechar inúmeras parcerias para que todos os seus pedidos sejam atendidos dentro do prazo. A marca passou a trabalhar com uma plataforma própria para não se limitar ao código fonte que já havia no mercado, e que não atendia especificamente as necessidades da Giuliana Flores.  

Seja lá qual for o destino, todos os produtos saem do centro de distribuição de São Caetano para que o processo de entrega que acontece durante a manhã, tarde e noite com distribuidores terceirizados seja eficiente. 

*Foto: Jonne Roriz/Estadão Conteúdo