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Ânimo do consumidor para comprar é o mais fraco desde 2002


E isso afetará as vendas no varejo ampliado, que devem recuar 1,5% no período, segundo o Ibevar. Perspectiva é que a retração "se aprofunde", de acordo com a ACSP


  Por Karina Lignelli 13 de Janeiro de 2016 às 19:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


O resultado da Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE divulgado nesta terça-feira (13/01) confirmou o que o varejo sabe e, por isso, já esperava: um recuo de 7,8% nas vendas, puxado principalmente pela retração no setor de alimentos.

2016 mal começou e as perspectivas de uma melhora para esse cenário continuam negativas, já que apenas 41,2% dos consumidores pretendem comprar bens duráveisno primeiro trimestre de 2016.

Os dados são da “Pesquisa Trimestral de Compra no Varejo” do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo em parceria com o PROVAR (Programa de Administração do Varejo), da FIA (Fundação Instituto de Administração).

Apesar do índice ter ficado 6,8 pontos percentuais acima do registrado nos três últimos meses de 2015 (34,4%), o ânimo do consumidor para fazer compras no primeiro trimestre do ano é o mais fraco para o período desde 2002. Na comparação com o primeiro trimestre de 2015, a queda na intenção foi de 8,4%.

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O que mais pesou para esse cenário foi o retrocesso da classe C, já que 3,7 milhões de pessoas voltaram para as classes D e E - resultado de uma combinação de fatores, como a inflação em dois dígitos (10,67% em 2015), os juros em 14,25% ao ano (alta de 9,2 pontos percentuais), a queda de 8,3% na renda das famílias e o aumento do desemprego.

Essa combinação de fatores, segundo o professor Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Ibevar, também derrubou a confiança do consumidor e cortou as expectativas de gastos futuros.

E é isso o que os números da pesquisa mostram: a projeção de gastos com bens duráveis, que era de R$ 2.751, caiu para R$ 1.840 – uma queda de 33% na comparação com o primeiro trimestre de 2015.  

Já a intenção de utilizar o crediário caiu para 62,9% no período, assim como o percentual comprometido com carnês ou financiamentos, que teve queda de 18,8%.

Na avaliação de orçamento mensal dos 500 entrevistados, no período de 8 a 23 de dezembro, um resultado positivo: passou de 9,2% o percentual daqueles que dizem sobrar dinheiro no fim do mês, no primeiro trimestre de 2015, para 10,6% neste primeiro trimestre de 2016.

O índice que mostra quem conseguiu poupar no 4º trimestre do ano passado também foi maior, de 26,2%.

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“É como o saldo da balança comercial: se é positivo, é bom. Mas a explicação, infelizmente, é o cenário não-positivo, que inclui o aumento da expectativa de desemprego”, destaca.

Pelo levantamento do Ibevar, o indicador que ficou negativo em 2,6% no último trimestre de 2015, passou para 5%.

FUNDO DO POÇO?

O consumidor não vai deixar de gastar, mas tem readequado seu orçamento à atual realidade, afirma Felisoni.

Se antes ele comia no restaurante, agora come na padaria. Deixou de ir ao supermercado, mas vai ao atacarejo. Em vez de comprar um carro novo, leva o atual para a manutenção.

“Por isso, mesmo num cenário ruim, esses segmentos têm se saído bem”, completa.

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A preocupação do consumidor com a situação geral da economia sustenta uma projeção de queda de 1,5% das vendas reais do varejo ampliado (inclui automóveis e materiais de construção) no primeiro trimestre de 2016, de acordo com o Ibevar.

Isso mostra, de acordo com Felisoni, que o modelo econômico baseado no estímulo ao consumo por meio da liberação de crédito, já adotado anteriormente pelo governo - e que voltou a ser discutido neste começo de ano, conforme sinalizou o ministro da Fazenda Nelson Barbosa - já “nasceria morto.”

“O que sustenta a economia é o investimento. Mas, para isso, é preciso que o panorama políticose estabilize – e no momento isso não está acontecendo”, afirma.  

MELHORA ESTÁ DISTANTE

A perspectiva de melhora a partir do segundo semestre de 2016 já começa a ficar cada vez mais distante – e os indicadores antecedentes da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), baseados nos índices de confiança do consumidor medidos pelo Instituto Ipsos, e nas consultas do Serviço Central de Proteção do Crédito (SCPC), já mostram isso.

Os indicadores mostram que a projeção de queda no varejo ampliado para os próximos seis meses – até abril deste ano – se revelaram as mais baixas doPlano Real (-11,42%).  Já a confiança do consumidor ficou muito abaixo dos 100 pontos, e chegou aos 77 em dezembro de 2015.

De acordo com Emílio Alfieri, economista da ACSP, se no primeiro trimestre deste ano o  movimento do varejo chegar ao nível de “fundo do poço”, e houver uma reversão durante as datas comemorativas de maio e junho, o cenário pode começar a virar.

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O temor de um novo ciclo de alta da taxa Selic, conforme sinalizado pelo Banco Central para mostrar sua “independência” em relação ao governo, pode aprofundar ainda mais o cenário de queda nas vendas do varejo e no PIB, segundo o economista.

“E não só nos primeiros meses: ao contrário do que se espera, (a queda) pode até ser maior do que em 2015. Mas ainda é uma questão em aberto”, afirma. 

Alfieri orienta o lojista a manter o olho no caixa, insistir nas promoções e liquidações ou até buscar um novo sócio em 2016. “No momento, pedir dinheiro emprestado não é uma boa. É preciso sobreviver.”  

NO E-COMMERCE

No comércio eletrônico, a intenção de compra para o primeiro trimestre de 2016 subiu de 82,5% para 83,2% - uma ligeira alta de 0,7 pontos percentuais ante igual período de 2014, segundo levantamento com 4,2 mil consumidores da consultoria E-bit/Buscapé em parceria com o Ibevar/Provar.  

“Em períodos de inflação alta, o consumidor fica mais racional e procura descontos e promoções mais comuns nos canais digitais”, afirma Pedro Guasti, vice-presidente de relações institucionais da Buscapé Company e co-fundador da E-bit, que lembra, porém, que o resultado ficou “estável.”

Por outro lado, na comparação com os três primeiros meses de 2015, a queda foi mais significativa: de 11,2%.

Assim como no ano passado, em 2016 as vendas do comércio eletrônico deverão refletir o peso da inflação elevada - com aumento do tíquete médio – o que deve levar à desaceleração do volume de vendas. 

“A alta nos preços de smartphones e o fim das isenções de IPI devem intensificar essa previsão”, afirma.

Os dados (do Relatório Semestral Webshoppers) ainda não estão consolidados, mas a expectativa de Guasti é que o e-commerce tenha fechado 2015 com alta de 15% nas vendas, conforme o previsto, mas “que deve se manter estável em 2016, com um crescimento no patamar de 12% a 15%”, conclui. 

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