Negócios

Ainda inseguro no emprego, consumidor fica mais cauteloso em agosto


Mas, mesmo que os números estejam relativamente estáveis no Índice de Confiança ACSP/Ipsos, a queda nos juros, os saques do FGTS e os novos financiamentos habitacionais sinalizam melhora das perspectivas


  Por Karina Lignelli 23 de Agosto de 2019 às 18:10

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


O alto nível de desemprego puxou de novo a confiança do consumidor, que está mais cauteloso, para baixo. Em agosto, o Índice Nacional de Confiança (INC) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) medido pelo Instituto Ipsos, registrou ligeira queda e ficou em 88 pontos - dois a menos que os 90 de julho, ainda no campo do pessimismo mas dentro da margem de erro.

Mesmo assim, o indicador está em patamar melhor do que em igual mês de 2018, quando registrava 76 pontos.

O quesito que mede a insegurança no emprego caiu dois pontos percentuais, de 47% dos entrevistados em junho para 45% em agosto. Porém, os que se sentem seguros são pouco mais da metade (24%). Já entre os que avaliaram a chance de perder o emprego no curto prazo, o indicador aumentou de 30%, em julho, para 32%, em agosto.

Por outro lado, se diminuiu o número de pessoas que conhecem alguém que perdeu o emprego nos últimos seis meses (de 67% para 65% dos entrevistados), aumentou o número médio de conhecidos que ficaram desempregados, de 4,7 pessoas, para 5,2.

O consumidor também continua preocupado com as finanças: enquanto 30% declararam que sua situação financeira atual é boa, outros 45% consideraram-na ruim. Essa percepção é que mantém a cautela do consumidor, que continua menos à vontade de fazer compras parceladas de imóveis e carros (63%), assim como de eletrodomésticos (22%), segundo a pesquisa. 

"O que preocupou um pouco foi o número de conhecidos desempregados em agosto", afirma Emílio Alfieri, economista da ACSP. "Mas como a segurança no emprego continua a mesma (24%), é preciso aguardar os números do IBGE (que sairão em setembro) para ver se não foi um ponto fora da curva." 

De modo geral, porém, na comparação mês a mês os números se mantém relativamente estáveis, mas bem acima de igual período do ano passado, com diferenças médias de 10 pontos - o que mostra uma perspectiva diferente. 

Alfieri lembra que uma certa aversão às compras parceladas continua porque as expectativas de melhora ainda não se concretizaram: ao captar a fraqueza da atividade econômica, o PIB desacelerou, levando junto o emprego.

O economista ressalta que os indicadores de confiança estão melhores do que há um ano, quando havia incerteza sobre o futuro do país. Agora, as perspectivas são alentadoras, devido ao anúncio de formas mais baratas de financiamento da casa própria, assim como a queda dos juros Selic pelo Banco Central e a liberação dos saques do FGTS, além da antecipação de metade do 13º dos aposentados. 

"Temos que ficar atentos à essa reversão de expectativas que, quando se concretizarem, começarão a surtir efeito nos próximos meses ou no começo do ano que vem", sinaliza.

REGIÕES E CLASSES

Quando se fala na confiança do consumidor por região, o Sul mostrou resultado positivo. Mesmo com a queda de cinco pontos no indicador em agosto (de 108 para 103), devido às fortes geadas e frentes frias que prejudicaram o agronegócio, a confiança da região ainda está acima de 100 - ou seja, no campo do otimismo, afirma Emílio Alfieri. 

Já o Norte e o Centro-Oeste, por sua vez, subiram de 80 para 91 pontos em agosto, e tiveram recuperação no indicador por conta da melhora da segurança nas barragens da Vale no Pará, após o acidente em Brumadinho (MG).

Por outro lado, no Sudeste, o indicador caiu de 97 para 90 pontos, puxado pelo setor industrial, que ficou negativo em 1,68% no primeiro semestre (segundo o IBGE) devido à perda do mercado argentino. No Nordeste, que não é sítio eleitoral do presidente, a confiança caiu de 88 para 78 pontos em agosto, já que o consumidor declarou não ver perspectivas favoráveis no horizonte. 

"A região voltou a ter chuvas, mas o semi-árido ainda é muito forte. Além da atividade do setor têxtil continuar fraca no Ceará, ela se ressentiu tanto por conta da desaceleração da indústria como por não ter a válvula de escape do agronegócio", diz. 

Quanto às classes sociais, tanto as classes A/B quanto a C registraram queda no indicador, de 98 para 95, e de 89 para 85, respectivamente. Já as classes D/E tiveram ligeira alta na confiança, de 73 para 74 pontos. Porém, apesar das diferenças, o indicador de todas está bem melhor que em agosto de 2018, segundo Alfieri, quando variavam entre 50 e 60 pontos.

"Há um ano atrás, havia grande incerteza sobre o futuro do país, que era muito nebuloso. Mas com a inflação menor, a queda dos juros para pessoa física e a liberação do FGTS - principalmente para as classes D/E - as expectativas podem melhorar."  

O INC da ACSP/Ipsos varia entre zero e 200 pontos, sendo o intervalo de zero a 100 contempla o campo do pessimismo e, de 100 a 200, o do otimismo. A margem de erro é de três pontos. A pesquisa foi realizada com 1.234 entrevistados de 75 cidades brasileiras entre os dias 10 e 15 de agosto.

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