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ACSP busca facilitar comércio entre Líbano e o Mercosul


Alfredo Cotait, presidente da ACSP (ao centro), e Hassan Mourad, ministro do Comércio Exterior do Líbano (à direita), se reuniram para discutir acordo de livre-comércio com países da América do Sul


  Por Redação DC 03 de Maio de 2019 às 17:43

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


A distância entre o Brasil e o Líbano é de cerca de 10 mil quilômetros. No entanto, nosso país possui laços tão fortes com o país árabe que parece que somos vizinhos.

Estimativas do Itamaraty mostram que existem cerca de 10 milhões de libaneses e descendentes vivendo no Brasil. Isso faz com que a comunidade libanesa no país seja maior do que a população inteira do Líbano – formada por 6 milhões de pessoas.

Em breve, essa história de intercâmbio cultural e econômico atingirá um novo marco. Em 2020, serão comemorados os 140 anos do início oficial da imigração árabe para o Brasil.

Em 1880, estimulado pelo imperador Dom Pedro II, que visitara o país quatro anos antes, partiu do porto de Beirute o primeiro navio de libaneses com destino às terras brasileiras.

A maioria dos imigrantes veio para São Paulo. Aqui, eles formaram uma forte comunidade de comerciantes: foram eles, junto aos sírios, que criaram uma das mais populares ruas de comércio do Brasil, a 25 de Março.

Quase um século e meio depois, essa parceria deve ganhar mais um capítulo. Aconteceu na última quinta-feira, 2/05, uma visita oficial de Hassan Abd al-Rahim Mourad, ministro do Comércio Exterior do Líbano, à sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Mourad foi recebido por Alfredo Cotait Neto, presidente da ACSP e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (FACESP).

Também participaram do encontro Mireille Choufani, assessora ministerial para assuntos de comércio exterior do Líbano; Haissam Almasri, da entidade Lar Druzo Brasileiro; Michel Bassil, da Câmara de Comércio Brasil-Líbano (Rio de Janeiro); Mohamad El Zoghbi, da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil; e os empresários Antoine El Etter, Talal Daoui e Giuliano Chaddoud.

LIVRE COMÉRCIO

Mourad e sua comitiva tem feito um verdadeiro roadshow junto a entidades empresariais brasileiras. O ministro tem defendido um acordo de livre comércio entre o Líbano e o Brasil.

“Estamos aqui para bater em portas brasileiras e renovar as negociações para um acordo com o Mercosul”, disse ele. “Precisamos de todo apoio possível. ”

A ideia de tratado de livre comércio entre Líbano e Brasil teve início em 2010. A iniciativa partiu de Alfredo Cotait - à época senador e membro do Parlamento do Mercosul - que apresentou uma moção para iniciar o acordo entre os países.

Entretanto, o tratado está parado desde 2015 porque o próprio governo do Líbano não mostrou, até então, interesse em prosseguir com as negociações.

“Agora, temos no Líbano um ministro que está disposto a fazer com que esse acordo siga em frente”, afirmou Cotait.

RUDY EL AZZI, CÔNSUL-GERAL DO LÍBANO; HASSAN MOURAD, MINISTRO
DO COMÉRCIO EXTERIOR DO LÍBANO; E MIREILLE CHOUFANI, ASSESSORA
MINISTERIAL: AJUDA DO BRASIL PARA VENDER PARA O MERCOSUL

Os interesses do Líbano no Brasil são uma tentativa de reequilibrar a balança comercial entre os países, que sempre pendeu mais para o lado brasileiro.

Enquanto o Brasil exporta anualmente cerca de US$ 270 milhões para o Líbano, as importações são de apenas US$ 28 milhões, de acordo com dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

Além disso, o Líbano mira todo o Mercosul.

O país já teve – e agora tenta retomar – contato para fomentar relações comerciais com Uruguai, Paraguai e Argentina.

Para Mireille Choufani, o fato do Brasil assumir a presidência rotativa do Mercosul em julho fará com que o país possa intermediar um acordo amplo que contemple mais países da região.

“A única coisa que precisamos, com apoio do Brasil, é convencer a Argentina e o Paraguai a trazer de volta a questão libanesa para a mesa de negociação”, disse a assessora ministerial. “Porque, uma vez de volta, vamos trabalhar em ritmo acelerado”.

Um dos principais entraves relatados pela delegação libanesa é a exigência da Argentina em relação a origem dos produtos vindos do Líbano.

Para chegar a um acordo, a Argentina demanda que os produtos importados do Líbano sejam 100% produzidos no país árabe. Mas, de acordo com a comitiva, o pleito é inviável.

“Mesmo na produção agrícola, há muitas coisas que nós simplesmente não temos”, disse Choufani.

Ela explicou que até mesmo a União Europeia aceita importações de produtos com 40% de insumos locais – o que faz a exigência da Argentina ser extremamente rigorosa.

Choufani também lembrou outro obstáculo. O Líbano não faz parte da Organização Mundial do Comércio (OMC), o que faz com que o país não tenha privilégios nas relações comerciais com os integrantes do bloco.

Ela defende que estudos conduzidos pelo Ministério do Comércio Exterior do Líbano apontam que o país tem sim condições de garantir entregas de mercadorias para o Mercosul.

Atualmente, as exportações do Líbano estão muito centralizadas em itens alimentícios, com azeitona, vinho, azeite, castanhas, geleias, enlatados e condimentos (zaatar, tahin e babaganuche).

Já com um eventual acordo, o portfólio de exportações tende a aumentar, o que incrementará a economia libanesa e estreitará ainda mais as relações culturais entre as duas regiões.

“Se não fosse intenção do governo libanês de negociar com o Mercosul, não estaríamos aqui”, disse Rudy El Azzi.

O cônsul-geral também afirmou que as representações diplomáticas do Líbano nos outros três países sul-americanos estão atuando em conjunto para concretizar a iniciativa dentro de um tempo hábil.

A comitiva libanesa sugeriu que, em contrapartida aos esforços brasileiros para realização do acordo, há a possibilidade de o Líbano servir como polo de comércio exterior para os produtos sul-americanos. Dessa forma, o país seria um centro de distribuição de importações oriundas do Mercosul para empresas da Síria, Iraque e Jordânia.

Juntos, esses países têm uma população de mais de 70 milhões de pessoas e uma economia de cerca de US$ 440 bilhões.

IMAGEM: Renato Santana/ACSP