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A startup que investe no 'mercado do sono'


Vislumbrando oportunidade em noites mal dormidas, o trio de empreendedores da Zissou vende colchão inspirado em modelo americano, com embalagem compacta que facilita o transporte


  Por Mariana Missiaggia 02 de Outubro de 2018 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Parte fundamental de uma vida bem equilibrada, dormir se tornou um luxo para boa parte dos brasileiros. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente (IPOM) aponta que 69% da população avalia seu próprio sono como ruim ou insatisfatório.

Ainda de acordo com o mesmo estudo, a recorrência de noites mal dormidas prejudica o trabalho de 48% dos brasileiros. Nos Estados Unidos, calcula-se que a insônia custa U$ 441 bilhões por ano e pode cortar até 11,3 dias de trabalho a cada ano, de acordo com o Departamento de Políticas de Saúde de Harvard.

Mesmo sem um estudo similar para o mercado brasileiro, o empreendedor Amit Eisler, 32 anos, co-fundador da Zissou, uma startup brasileira, acredita que, no Brasil, os efeitos sejam os mesmos.

Na companhia de outros dois amigos -os engenheiros Andreas Burmeister, 40 anos e Ilan Vasserman, 32 anos, Eisler decidiu apostar num nicho que considera ser tão fértil quanto o de alimentação saudável – o "mercado do sono".

ANDREAS, ILAN E AMIT COM A DIGITAL INFLUENCER GABRIELA
PUGLIESE

Eisler diz que todo mundo sabe que o tripé de uma vida saudável está baseado na prática de exercícios físicos, uma boa alimentação e em manter uma boa regularidade do sono. Embora esse descanso seja tão importante quanto aos hábitos alimentares e a prática de esportes, a indústria do sono ainda não é algo tão explorado no país.

“Em vez de tentar promover esse momento, as pessoas vão para o trabalho e executam mal suas tarefas, agravando os efeitos de sua condição no ambiente profissional”, diz.

A IDEIA

O trio passou a prestar mais atenção nesse mercado, após uma viagem de Vasserman aos Estados Unidos, em 2015, quando o brasileiro se surpreendeu com a seguinte cena: um grupo de jovens americanos carregando com muita facilidade um colchão de casal dentro de um elevador.

Após algumas pesquisas, descobriu que se tratava da startup americana Casper e do modelo bed in box – uma novidade na indústria do sono. Como o próprio termo (na tradução literal: cama na caixa) sugere, o colchão vem em uma caixa compacta retangular de pouco mais de um metro de altura e 40 centímetros de largura.

A inovação que tirava de cena o uso de caminhões, carregadores e acertos logísticos levou o administrador a pensar na possibilidade de reproduzir aquilo no mercado brasileiro.

De volta, convidou Eisler e Burmeister para a empreitada. Na época, Eisler e Burmeister eram colegas de trabalho na Xiaomi, gigante chinesa de tecnologia.

Ambos trabalhavam no fuso horário chinês e eram bem impactados por uma noite de sono ruim.

“Aquilo tudo parecia ser um desafio para transformar esse mercado do sono, muito mal explorado no Brasil. Queríamos qualidade de vida e autonomia”, diz.

Em pouco tempo, deixaram as carreiras e investiram R$ 2 milhões na Zissou –metade do valor veio de uma reserva do próprio trio e o restante de um investidor. Passaram a estudar a relação do brasileiro com o sono - descobriram, entre outras coisas, que uma das necessidades dos consumidores era que o colchão não esquentasse com o calor do corpo.

Receberam também a consultoria do designer de produto Felipe Bettoni, integrante da quarta geração da família e responsável por administrar a tradicional Colchoaria Bettoni, que desde 1937 cria colchões personalizados.

COLCHÃO CASPER, MODELO QUE INSPIROU A ZISSOU

PARA CABER NA CAIXA

Idealizado no Brasil, o colchão é produzido nos Estados Unidos, com látex hipoalergênico –material que ajuda a dissipar o calor e manter o colchão fresco a noite toda –como uma das três camadas da estrutura, formada também por poliuretano e viscoelástico.

É lá também que o produto é submetido a uma prensa de 60 toneladas que o comprime sem interferir na qualidade quando ele for aberto – tal qual o modelo americano. Assim que é retirada caixa e o plástico cortado, o colchão assume sua forma convencional.

Dados da indústria mostram que os fabricantes de colchões movimentam R$ 6,5 bilhões ao ano no Brasil –cerca de 22 milhões de brasileiros trocam de cama anualmente.

Os varejistas são pulverizados e as lojas são amplas -pagam aluguel caro por conta da quantidade de modelos e para garantir estoque.

A logística, segundo Eisler é um pesadelo, e o custo de transporte chega a representar mais da metade do valor na fábrica.

“O colchão entregue na caixa é fundamental para nosso modelo de negócio porque seu custo é 20% menor do que se fosse entregue aberto”, diz.

Para driblar esses obstáculos, as vendas da Zissou são feitas pelo e-commerce da marca, em marketplaces parceiros e na Casa Zissou, em Pinheiros, um showroom onde os clientes também podem testar o produto antes de comprá-lo.

A loja conceito funciona também como um ponto de experiência com eventos voltados para o sono, como sessões de hipnose para melhorar insônia e até degustação de vinhos com propriedades tranquilizantes.

FUTURO DO SONO

Para alçar novos voos, a Zissou, que informa já ter recuperado mais da metade do capital investido, está buscando mais uma rodada de financiamento, de R$ 5 milhões, com fundos de venture capital.

A empresa pretende abrir novos pontos físicos para garantir a experimentação e investir ainda mais em showrooms. Além defazer parte da rede de hotéis de luxo Fasano, os colchões da marca já estão nas lojas da Ornare e da Breton, redes de decoração de luxo.

A empresa já pensa em outros produtos, como uma linha de travesseiros. Os colchões são vendidos a preços a partir de R$ 2,9 mil.

“Dá para pensar em tecnologias para iluminação, temperatura e umidade corretas para dormir. Nos Estados Unidos, já se fala até em IoS, o internet of sleep”, diz.

FOTOS: Divulgação