Negócios

A recessão se agrava com cortes de vagas no comércio e nos serviços


Associações setoriais preveem movimento crescente de demissões, até no comércio popular da rua 25 de Março (foto). Para a Fecomércio, retomada virá apenas no segundo semestre de 2017


  Por Estadão Conteúdo 02 de Agosto de 2015 às 13:57

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Os dois setores que mais empregam no Brasil, comércio e serviços, caminham para ter em 2015 o primeiro corte de vagas formais após mais de uma década sustentando o crescimento do mercado de trabalho nacional. 

As empresas do setor não suportaram a pressão da inflação elevada, do aumento dos juros e principalmente da queda na renda. Diante da demanda das famílias, cada vez mais tímida, iniciaram um ajuste veloz em seu contingente de trabalhadores. 

Mais de 83 mil postos formais serão fechados somente no comércio, de acordo com projeção da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O levantamento considera a evolução do varejo ampliado (desde setores tradicionais até veículos e materiais de construção) e do atacado no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). 

A entidade, embora não tenha concluído uma estimativa para serviços, prevê que a tendência para o setor é até pior. "O impacto é ainda mais forte em serviços porque se trata de um setor mais intensivo em mão de obra", afirma Bruno Fernandes, economista da CNC, Bruno Fernandes.

Sem escapar da desaceleração da atividade, evidente desde o início do ano passado, tanto comércio quanto serviços adiaram por um bom tempo o ajuste no pessoal ocupado. Mas a recuperação cada vez mais distante levou os empresários a uma revisão dos planos. 

Desde o fim de 2014, o comércio vem enxugando o quadro de funcionários, movimento reforçado mais recentemente pelos outros serviços - que reúnem justamente os segmentos de serviços pessoais, como cabeleireiro e alimentação, mais sensíveis à renda das famílias.

Somente em junho passado, os dois setores demitiram juntos 209 mil funcionários nas seis principais regiões metropolitanas, em relação a igual mês do ano passado, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE. O levantamento considera tanto empregos formais quanto informais. O número representa 70% das dispensas no período.

FECHAMENTO DE LOJAS

Em muitos casos, a situação é tão dramática que inviabiliza o negócio. Na cidade do Rio, 1.280 lojas já fecharam suas portas nos primeiros cinco meses deste ano, uma alta de 33% em relação a igual período de 2014, de acordo com levantamento do Sindilojas Rio. "Considerando a média de funcionários, isso significa entre 13 mil e 20 mil demissões", afirma o presidente da entidade, Aldo Gonçalves. 

Em todo o Estado, o número de pontos comerciais fechados no período foi ainda maior: 3.290. "Considerando o cenário desfavorável, é mais provável que elas (pessoas demitidas) não tenham conseguido recolocação", acrescenta.

Nem o comércio popular escapa do mau momento. No Saara, tradicional centro de compras no centro carioca, pelo menos cem lojas estão à venda, algo incomum para a região. "O cenário é muito difícil, e o Rio de Janeiro ainda tem um agravante. A economia é muito voltada para o petróleo." 

Para o presidente do Sindilojas Rio, a queda no preço do petróleo gera menos royalties ao governo, e a situação vem sendo agravada com o escândalo de corrupção na Petrobras. "Os escândalos envolvendo a estatal drenaram receitas das prestadoras de serviços, o que deprimiu ainda mais a demanda do comércio local.

"Diante do quadro, a sala de homologações na sede do Sindicato dos Empregados do Comércio no Rio de Janeiro (SECRJ) não fica mais vazia. A todo o momento há novos pedidos para ratificar demissões. 

Segundo levantamento feito pela entidade, 2.460 pessoas solicitaram a ratificação em junho deste ano, um avanço de 7,3% em relação a igual mês do ano passado. Quando levados em conta os pedidos de demissão, o número chega a 3.126, alta de 22%.

EM SÃO PAULO

Em São Paulo, a situação é igualmente grave, com o fechamento de 57 mil postos de trabalho ao longo dos últimos meses. "Nunca tivemos um início de ano tão ruim para o mercado de trabalho do comércio como este", afirma o economista Jaime Vasconcellos, assessor econômico da FecomercioSP. 

As vendas no comércio paulista, de acordo com a entidade, já encolheram 4% este ano, e as demissões têm sido a principal maneira encontrada pelos empresários para lidar com a queda na receita e a menor demanda.

Nem as grandes redes varejistas escapam do mau momento da economia. A Via Varejo, dona das Casas Bahia e do Ponto Frio, anunciou há poucos dias que demitiu 4,8 mil pessoas no segundo trimestre deste ano. As posições foram cortadas em lojas, montadores, centros de distribuição e administrativo. A empresa não descarta novas reduções de custo. 

Já o Grupo Pão de Açúcar, dono das bandeiras Pão de Açúcar e Extra, informou a dispensa de 7 mil trabalhadores entre abril e junho.

RESTAURANTES ECONÔMICOS EM ALTA

O quadro nos serviços é nada alentador. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), estabelecimentos com preço médio entre R$ 30 e R$ 70 -que concentram um grande número de restaurantes e bares- são os mais afetados, com queda de 20% a 30% do faturamento. Já os mais caros e aqueles com tíquete médio entre R$ 20 e R$ 30 registram estabilidade.

Apenas bares e restaurantes que cobram em média R$ 20 ou menos estão vendo a clientela crescer. "As pessoas estão buscando lugares mais baratos para comer", explica Paulo Solmucci Júnior, presidente da associação.

Com a pressão dos custos e o movimento em baixa, restaurantes e bares em geral reduziram o número de trabalhadores em 4,5% em todo o País no primeiro trimestre deste ano em relação aos últimos três meses de 2014, segundo levantamento da Abrasel. A alta de custos - principalmente com a energia elétrica, que subiu 42% só neste ano - e a redução no movimento pesam na decisão.

CICLO VICIOSO 

O comércio e os serviços geralmente são os últimos a demitir, mas o ajuste no mercado de trabalho desses setores tende a ser mais rápido, segundo economistas. Isso porque essas atividades são impactadas por um ciclo vicioso - e nada virtuoso. 

As dispensas antes concentradas na indústria e na construção diminuíram a demanda e aos poucos recebem reforços do comércio e dos serviços. Com isso, muito mais gente deixa de receber um salário, o que significa consumo ainda mais fraco e maior incentivo para as empresas continuarem com os cortes de pessoal.

"Não há perspectiva de recuperação em 2015 e 2016, até 2017. Enquanto houver retração de vagas formais, o ciclo vai piorar", aponta Vasconcellos, da FecomercioSP. O especialista vê "algum equilíbrio" nas receitas do comércio apenas no segundo semestre de 2017.


Imagem: Mario Ângelo/ Estadão Conteúdo