Negócios

A indexação está asfixiando os lojistas, diz dono da Ellus, VR e Hercovitch


O empresário Nelson Alvarenga, controlador do grupo Inbrands, critica a relação desigual entre varejistas e shoppings e conclama as entidades empresariais a batalhar pela desindexação da economia


  Por Nelson Blecher 28 de Março de 2017 às 12:09

  | Superintendente editorial do Diário do Comércio


À frente de um dos maiores grupos nacionais de moda, o Inbrands, que faturou cerca de R$ 1,2 bilhões no ano passado produzindo e comercializando marcas consagradas como Hercovitch, VR, Ellus e Richards.

O empresário Nelson Alvarenga, um protagonista da indústria de vestuário desde 1972, quando fundou a Ellus, fez uma das intervenções mais contundentes durante o 5o. Fórum Nacional do Varejo promovido pelo Lide no último fim de semana.

"A gente tenta aprender com as crises, mas não adianta", desabafou. "Quando as coisas estão se estruturando, o país dá marcha a ré e, novamente, precisamos aprender a sobreviver."

Para Alvarenga, as ciclotimias da economia brasileira prejudicam sobretudo marcas premium como as da Inbrands, que, segundo ele, privilegiam propostas de valor antes do crescimento.

"Com essa confusão fica difícil maturar projetos de longo prazo para consolidar valor", disse.

Nesta entrevista ao Diário do Comércio, Alvarenga debita ao círculo vicioso da indexação -que, segundo afirma, o Plano Real não conseguiu extinguir -os problemas enfrentados pelo varejo e pede que o país "baixe a poeira" para que as pessoas voltem a consumir, gerando empregos e crescimento.

Quais são os principais problemas que afetam o varejo?
Nestes dois anos foram fechadas 210 mil lojas no país. O lojista tem, normalmente, seu custo de ocupação nos shopping centers com aluguéis e taxas de condomínio indexadas.

Os salários também são indexados, mas isso não ocorre com as vendas. No segmento de mercado premium, no qual atuamos, as vendas reais caíram mais de 20%. Isso descapitaliza todo mundo.

O sistema de crédito no Brasil é muito frágil para os lojistas, de modo geral. Na verdade, temos que ficar fazendo o papel meio de agente financiador para nossos próprios franqueados [o grupo Inbrands opera com 180 franqueados, 200 lojas próprias e vende para 3,2 mil lojas multimarcas].

Muitas vezes carregamos suas dívidas, enquanto esperamos que a crise avance e termine. Isso para não desmontar os nossos modelos de negócios.

Acho muita insensibilidade dos shopping centers porque ao mesmo tempo em que estamos ajudando a manter as portas abertas, eles têm seus índices de vacância saudáveis e baixos, recebendo seus aluguéis.

Já o lojista está moribundo com essa realidade da indexação versus queda de vendas. Enquanto não houver uma cooperação geral...

LEIA MAIS: Há um movimento de 'seleção natural' nos shoppings. Como sobreviver?

É um problema generalizado?
Estou me referindo principalmente ao lojista satélite, que proporciona o maior rendimento para os shoppings. O lojista âncora tem um poder de barganha muito maior.

Ocorre que a grande maioria dos lojistas é satélite, e esse pessoal está prejudicado porque tem custos (proporcionalmente) muito maiores do que os dos próprios âncoras.

Na verdade, os comerciantes têm que viver pedindo esmola para banco pedindo crédito e para shoppings para cooperar um pouco porque os contratos são todos super leoninos. Isso em função ainda da indexação.

Como existe indexação eles se fazem da correção algo automático e isso não é realidade de mercado porque as vendas não evoluem automaticamente. Sem indexação, deixa o mercado flutuar e aí, sim, vamos para uma prova de competência.

Em seu depoimento, o senhor mencionou também a questão tributária...
Os impostos com efeito cascata e esses juros altos são outro problema.

O custo Brasil fica muito deslocado em relação ao valor venal de um produto equivalente dos Estados Unidos, por exemplo, que não sofre o efeito de impostos comulativos, essa taxa de juros tão elevada e não tem essas indexações.

Infelizmente, no Plano Real eles não conseguiram avançar com maior desindexação no Brasil.

Minha proposta para as entidades de classe hoje é que aproveitem essa queda de juros que começou a ocorrer agora, até em função da crise, para trabalhar arduamente no sentido de desindexar este país o máximo possível.

Que se deixe a economia flutuar, em função da renda, mas em todos os níveis. O que prevalece é uma coisa descompensada, em que algumas partes são indexadas e outras, não.

Existe muita distorção no Brasil, tanto com esse crédito direcionado que faz com que os juros cresçam na ponta quanto por essas indexações que arrebentam com o setor de operação.

Mas a crise afeta também as camadas de alta renda, uma vez que as marcas do Inbrands são da categoria premium?  

Acontece aquele fenômeno do empregado desempregado.

Mesmo aquele cara que está empregado e tem poder aquisitivo, com esse ambiente péssimo no Brasil de recessão e só notícia ruim na mídia, perde a vontade de comprar, na incerteza de que ele mesmo, eventualmente, possa ficar desempregado.

Isso vira uma síndrome. Com esse ambiente, ninguém tem vontade de consumir.

Nós não precisamos mais de confusão. É necessário deixar a poeira baixar para que gere consumo e a economia comece a rodar, volte o emprego e o crescimento. Mas não para de vir confusão.

E ainda chegam os engraçadinhos [ele se refere à operação Carne Fraca da Polícia Federal], que para aparecer, fazem um negócios desses com um setor que proporciona oito milhões de empregos e exporta 14 bilhões de dólares por ano.

Compromete a construção de marca de qualidade Brasil que levou 40, 50 anos. Contamina a imagem de todos os produtos nacionais mundo afora.

Precisa haver um pouco mais de visão política, como o STF está tendo porque não se pode ficar alimentando esse círculo vicioso que leva o país cada vez mais para o buraco. Tem que mudar esse ambiente.

FOTOS: Kazuo Kajihara/Divulgação

*O jornalista viajou ao Guarujá para participar do 5o.Fórum Nacional do Varejo a convite do Lide (Grupo de Líderes Empresariais)