Negócios

A hora e a vez dos MEIs


Microempreendedores individuais, como Thiago Santos e sua TM Viagens (acima), representam quase 85% das novas empresas abertas no país desde julho de 2018, segundo levantamento da BigData Corp


  Por Karina Lignelli 14 de Outubro de 2019 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


De analista administrativo em uma multinacional do varejo a dono de uma agência de viagens. Foi assim que Thiago Henrique dos Santos encontrou uma oportunidade de gerar renda após o fim do contrato com a empresa: colocando em prática o sonho antigo de ser dono do próprio negócio. 

Ao participar de uma palestra de Celso Athayde, ativista e empreendedor social e fundador da CUFA (Central Única das Favelas) e da Favela Holding, Thiago conheceu a Vai Voando, empresa de turismo do grupo Fly Tour focada nas classes C, D e E e integrante dessa holding que estimula e fomenta o empreendedorismo em comunidades. E enxergou ali uma chance de empreender, ganhar dinheiro e, de quebra, movimentar a região onde mora.  

O resto é história: formalizou o empreendimento, abriu um ponto comercial numa garagem virada para rua - espaço comum por abrigar pequenos comércios na Cohab II de Carapicuíba (na Grande São Paulo), onde reside com a família - e passou a revender pacotes turísticos e passagens aéreas pré-pagas. Hoje, um ano depois, virou franqueado da marca e, ao longo desses 12 meses, sua TM Viagens faturou R$ 30 mil.

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O empreendimento comandado por Thiago faz parte do contingente de novas empresas que mais cresceram entre julho de 2018 e junho deste ano: o dos MEIs (Microempreendedores Individuais).

Sejam motivados pelo desemprego ou simplesmente pelo tal espírito empreendedor inerente aos brasileiros, de acordo com levantamento da plataforma global de dados BigData Corp, dos 2,621 milhões de negócios abertos no período, 2,255 milhões estavam enquadrados no regime, que engloba profissionais autônomos com faturamento de até R$ 6.750 mensais.

O estudo aponta outros dados: o mais recente retrato do titular do MEI é de um homem (54,95%) de até 35 anos (52%), com renda de até quatro salários mínimos (65,83%), que participa de uma família formada por até quatro pessoas (75,32%).  

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À exceção da idade - 38 anos -, Thiago é praticamente a personificação desses empreendedores. “Os MEIs respondem, basicamente, por três perfis majoritários: pequenos negócios que se formalizam, novos serviços que surgem e jovens que abrem suas próprias empresas como uma saída para fazer frente ao desemprego”, diz Thoran Rodrigues, presidente e fundador da BigData Corp. 

O executivo chama a atenção para a renda familiar do microempreendedor individual que, em sete de cada 10 casos, não supera os 4 salários mínimos. "Nas demais empresas, em sete de cada 10, a renda familiar dos sócios é superior a 10 salários mínimos”, comenta. 

O caso do proprietário da TM Viagens sai um pouco dessa média dos MEIs, já que, casado e com dois filhos, o salário da mulher, que é professora, também é parte importante para engordar a renda familiar. Assim como sua segunda atividade empreendora - a de DJ, realizada aos fins de semana. 

ARRIMOS DE FAMÍLIA

Quando se observa a renda individual dos novos titulares de MEIs, 65,83% auferem até 4 salários mínimos. Já quando se avalia o conjunto dos demais CNPJs abertos recentemente, 99,02% têm renda acima de 4 salários mínimos; e 69,78% acima de 10 salários mínimos, segundo a pesquisa.

“Estamos falando de pessoas provenientes de famílias de renda modesta, cuja contribuição financeira tem um papel decisivo no orçamento familiar”, afirma o especialista.  

Outras descobertas do levantamento indicam que o MEI tem pouca experiência em outras atividades, apesar de ser muito mais digital. “Vimos que em 40,51% desses microempreendedores individuais jamais trabalharam antes – seja em seu negócio próprio, ou em outros, enquanto 38,31% deles tiveram uma única experiência profissional antes de obter o seu CNPJ", diz Rodrigues.

Em contraste, apenas 15,78% dos titulares de empresas tradicionais recém-abertas não trabalharam formalmente antes de abrir o seu negócio, e 29,07% tiveram uma única experiência profissional antes de abrirem o seu negócio, completa o presidente da BigData Corp. 

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Empreendedor por natureza, Thiago conta que a TM nasceu de um projeto familiar: como o contrato de quatro anos na varejista estava perto do fim, ao conhecer o modelo da Vai Voando decidiu que direcionaria parte do dinheiro da rescisão para investir na própria revenda de produtos turísticos.

Além de virar fonte de renda, o que chamou sua atenção foi "o papel social", conforme diz, de ajudar a realizar o sonho do morador da periferia de poder viajar de avião para visitar a família que mora em outras regiões do país depois de muito tempo - com baixo custo e pagando em até 12 vezes no carnê ou boleto, sem juros e sem consulta de crédito.  

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"Apesar do sonho de empreender, até então não tinha enxergado um negócio com o qual eu me identificasse", conta. "Então, ao invés de entregar currículos para tentar conseguir uma vaga, tomei coragem de arriscar: com o apoio da família e o suporte técnico da Vai Voando, virei MEI."  

PEGADA DIGITAL 

O engajamento digital dos empresários foi medido pela BigData Corp levando em conta a intensidade de uso da internet, plataformas digitais, mídias sociais e aplicativos diversos, incluindo os de entretenimento.

Numa escala de A a H, 87,65% dos MEIs concentram-se nos estágios de maior engajamento. Já os demais empresários somam 11 pontos percentuais a menos nessas categorias.  

Bastante ativo no Whatsapp, Facebook e Instagram já por conta da sua atividade como DJ, que já exercia muito antes de virar MEI, Thiago fala sobre a importância de criar esse engajamento para fazer os negócios andarem - algo que ficou ainda mais interessante, no seu caso, já que contou com o apoio da Vai Voando para fazer a TM Viagens literalmente decolar. 

"Quando comecei o processo de montar a loja, usando o material de propaganda fornecido pela Vai Voando, as pessoas ficaram surpresas, demoraram um pouco para entender que era sério e uns até achavam que eu inventei", diverte-se. "Mas quando eu soube que poderia usar o material digital deles nas redes sociais, o negócio passou a ter mais credibilidade", completa.

Ele lembra também que abriu a agência numa época em que a marca havia lançado uma promoção de Dia dos Pais, em que o cliente concorria a uma viagem. "Coloquei a arte da Vai Voando nas páginas e muita gente não entendeu a princípio. Mas foi legal porque, depois disso, as pessoas começaram a postar comentários", conta Thiago.

Daí em diante, sempre deixou as redes atualizadas com o material da marca - inclusive com vídeos direcionados ao público-alvo, para fazê-los entender que era possível voar de avião pagando no boleto. E a TM ganhou seguidores.

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"As pessoas viram que era um negócio profissional com atendimento personalizado. E passaram a confiar na minha agência para marcar viagens. Tanto que já estou sentindo o retorno previsto para um ano: agosto e setembro últimos foram os melhores meses, e muitos clientes que tinham comprado pacotes e passagens comigo já estão comprando de novo", comemora. 

Ao comentar os dados sobre engajamento digital do levantamento da BigData Corp, o presidente Thoran Rodrigues afirma que eles levam a perguntar: será que pessoas como Thiago são mais empreendedoras porque são digitais, ou por serem mais empreendedoras foram obrigadas a serem mais digitais para competir melhor?

“Tanto faz. O importante é o mercado saber que esse empreendedor tem essa característica, e que busca resolver boa parte de seus desafios empresariais e de sua vida pessoal com o auxílio da internet”, complementa.

FORMANDO NOVOS EMPREENDEDORES

Curiosamente, no entanto, entre os titulares formados, as primeiras profissões dos MEIs pouco têm a ver com serviços digitais. “Ainda que seus titulares tenham um alto engajamento digital, lideram negócios tradicionais mesmo”, afirma Rodrigues. Administradores de empresas representam 12,8% dos MEIs com nível superior - a mesma formação de Thiago - e advogados respondem por 6,13%.

Ciências Contábeis é o curso que figura em terceiro lugar, com 4,97%. No caso das demais empresas, os mesmos cursos também lideram, nas mesmas posições, com uma participação, respectivamente, de 12,14%, 10,56% e 6,88%.

Já as atividades que normalmente seriam associados às startups, como Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Sistemas de Informação ou Ciência da Computação aparecem, entre as MEIs, listados na décima segunda posição, e nas empresas tradicionais, a partir da 16ª. posição.  

Com o sucesso da TM, o lado gestor-administrador de Thiago já começa a ensaiar os próximos passos: colocar pelo menos um funcionário na agência "porque trabalhar em dupla é mais eficiente", acredita. Também pretende inaugurar um novo ponto de atendimento em sua cidade - só que mais ao Centro.

"A ideia é dar oportunidade para outras pessoas revenderem pacotes e passagens, também se tornarem MEIs e, assim como eu, realizarem o sonho de ter o seu próprio negócio", sinaliza. 

ORIGEM DOS DADOS

Para realizar o levantamento sobre os MEIs, a BigData Corp recolheu dados das bases oficiais do governo e os cruzou com outros - obtidos de pesquisas processadas semanalmente, na ordem de 15 petabytes - sobre os titulares de CNPJs abertos entre os meses julho de 2018 a junho (inclusive) de 2019.

Foram expurgados do cadastro as empresas inativas, assim como categorias que não representam tipicamente o empreendedorismo, como os CNPJs de advogados, candidatos a eleições, ordens religiosas, condomínios, fundos de investimentos e afins. 

FOTOS: Arquivo pessoal