Negócios

A empresária que deixou o luxo para ensinar camelôs a empreender


Em Porto Alegre, como em São Paulo, os ambulantes relutavam em ser alojados em um shopping popular. Aí, surgiu Elaine Deboni, que os capacitou e mudou suas vidas


  Por Wladimir Miranda 08 de Dezembro de 2016 às 13:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Não na mesma proporção de São Paulo, mas Porto Alegre também enfrenta problemas com os vendedores ambulantes. Lá, como cá, são constantes os conflitos de camelôs com os fiscais da prefeitura e a Brigada Militar, o equivalente à nossa PM.

A diferença é que na capital gaúcha uma empresária que administrou uma butique, há seis anos trocou o luxo de suas atividades pelo trabalho de transformar camelôs em empreendedores.

Em 2010, o então prefeito de Porto Alegre José Alberto Fogaça (PMDB) resolveu alojar os camelôs da cidade em um shopping popular, para que pudessem vender seus produtos de forma organizada e segura.

Tratava-se de uma parceria público-privada. Como já aconteceu em São Paulo em algumas gestões municipais e que também faz parte das metas de governo do prefeito eleito João Doria, a ideia teve uma enorme resistência dos camelôs, que se recusavam a trocar as ruas por um espaço físico onde teriam de conquistar uma nova freguesia.

Revoltados, os vendedores ambulantes foram para as ruas protestar. Recusavam-se a assumir os boxes reservados para eles no Pop Center, o nome que foi dado ao shopping popular.

Foi quando surgiu Elaine Deboni. De origem humilde, ela ganhou notoriedade e espaços nas colunas sociais dos jornais da cidade por ter sido empreendedora do mercado de luxo, com uma loja em Erechim (RS).

Contratada pela administração do novo centro de compras, Elaine, diante da resistência dos camelôs, percebeu que não adiantava nada apenas alojá-los no prédio, sem antes oferecer a eles a capacitação necessária para que pudessem subir de patamar.

O trabalho não foi fácil para que os vendedores ambulantes começassem a acreditar que tinham, sim, condições de ser empreendedores.

O primeiro passo foi organizar palestras para os novos lojistas com a Receita Federal, Sebrae e a Associação de Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil – ADVB.

Elaine colocou também à disposição dos camelôs os conhecimentos de uma equipe do Serviço Nacional do Comércio – Senac. Foi além: Fez uma imersão no Disney Institute para entender melhor a gestão de grandes públicos, o que foi decisivo para o sucesso do empreendimento.

O POP CENTER: SUCESSO EM PORTO ALEGRE.

“O que aprendi no Disney Institute foi decisivo para o sucesso do empreendimento”, afirma Elaine.

Ela mudou a trajetória daqueles camelôs, que não se viam como empreendedores. Os conhecimentos que eles incorporaram nas palestras tinham lhes dado formação, incentivo e estratégias criativas de marketing. Mais: Ficaram confiantes, com a autoestima melhorada.

O espaço, considerado hoje o maior centro de compras da cidade, abriga 800 comerciantes. Antes, assim como seus colegas paulistanos, sofriam com a falta de segurança, abrigo e limpeza nas ruas.

As condições precárias de outrora, foram substituídas pelo conforto e um faturamento de R$ 10 milhões mensais.

Viraram símbolo de sucesso em empreendedorismo social.

Estão nos planos de Elaine e das autoridades gaúchas a abertura de novos Pop Centers para abrigar mais vendedores ambulantes da cidade. Segundo levantamentos da prefeitura, em torno de 2 mil camelôs comercializam seus produtos pelas ruas de Porto Alegre.

Elaine levou para o Pop Center a bagagem de excelência e empreendedorismo adquirida como gestora da butique de luxo de Erechim.

Graduada em especialização em imagem em Londres, ela teve em casa os primeiros exemplos para aprender a empreender.

Seu pai, filho de operário de uma fábrica de Passo Fundo (RS), foi trabalhar muito cedo, com 13 anos. Apenas com o quinto ano primário, aos 15 anos, começou a trabalhar como office boy em uma fábrica em Erechim.

Quando Elaine nasceu, seu pai era muito pobre. Tão pobre, que o berço dela era um encosto de banco de ônibus da fábrica onde o pai trabalhava.

Elaine mirou-se no exemplo do pai, que foi subindo de cargo até comprar cotas de sociedade e se tornar sócio majoritário da empresa, a Incasel, hoje chamada Comil.

A loja administrada por Elaine em Erechim tinha o maior mix de grifes nacionais e internacionais do estado, com marcas como Moschino, La Perla, Gloria Coelho, Reinaldo Lourenço, Maria Bonita, Lita Mortari, NK Store e Chris Barros.

O Pop Center é reconhecido e premiado por instituições como a Fundação Getúlio Vargas – FGV -, Instituto Federal do Rio Grande do Sul – IFRS -, Associação Brasileira de Vendas e Marketing – ADVB -, entre outros.

Os comerciantes abrigados no Pop Center vendem hoje 1.000% a mais do que vendiam quando eram camelôs.

O shopping conta atualmente com 800 lojas e, de acordo com pesquisa recente, tem uma média de 1,2 milhão de clientes ao mês, com compras médias por cliente em torno de R$ 186,00 e uma movimentação de 40 mil pessoas por dia.

O Pop Center atrai clientes das classes A a D e já foi visitado por personalidades como Giles Lipovetsky, filósofo e sociólogo francês, Alexandra Loras, especialista em diversidade e ex-consulesa da França em São Paulo, Edmour Saiani, reconhecido especialista em negócios, além de Filipa Bleck, da agência de modelos Elite de Nova Iorque, que já esteve no Pop Center garimpando new faces.

Um outro Pop Center já está em operação em Pelotas, também no Rio Grande do Sul.

HISTÓRIA INSPIRADORA

Maria das Graças, conhecida como tia Maria, com 65 anos, foi camelô durante 20 anos. Depois da qualificação oferecida pelo Pop Center e de tirar seu comércio da irregularidade, viu a sua vida mudar.

Hoje tem casa e carro. Tem, enfim, uma situação econômica confortável, em comparação com a que tinha quando vendia seus produtos pelas ruas de Porto Alegre.

Elaine Deboni é graduada em administração de empresas, com especialização em imagem, pelo Instituto Marangoni em Londres.