Leis e Tributos

De empresário modelo a alvo da PF: entenda a prisão do fundador da Ricardo Eletro


Acusado de sonegação de impostos e lavagem de dinheiro, o empresário Ricardo Nunes pode ter omitido cerca de R$ 400 milhões em impostos que deveriam ter sido pagos ao estado de Minas Gerais


  Por Mariana Missiaggia 08 de Julho de 2020 às 13:20

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Enquanto a maioria das empresas tenta lidar com as dificuldades impostas pelos efeitos do novo coronavírus na sociedade, a Ricardo Eletro tem um desajuste extra para administrar.

A prisão do empresário Ricardo Nunes, fundador e ex-principal acionista da rede varejista, na manhã desta quarta-feira (8/7), por um suposto esquema de lavagem de dinheiro na companhia, em que mais de R$ 400 milhões foram sonegados.

A Ricardo Eletro é uma das principais varejistas de móveis e eletrodomésticos do Brasil e é a principal bandeira do grupo Máquina de Vendas, fundado em 2010 com a fusão de empresas regionais: Ricardo Eletro (Sudeste), Insinuante (Nordeste), City Lar (Norte), Eletro Shopping (Nordeste) e Salfer (Sul). Tal união pretendia competir com nomes como Magazine Luiza e Via Varejo.

No entanto, a partir de 2014, a empresa passou a acumular prejuízos e, em 2018, entrou em recuperação extrajudicial. Em 2017, a Máquina de Vendas havia faturado 5,5 bilhões, depois de fechar 600 pontos de venda no ano anterior.

COMO TUDO COMEÇOU

Tido como uma inspiração no cenário do empreendedorismo, Nunes teve seu primeiro contato com vendas após a morte do pai, quando passou a colaborar para o sustento da família. Vendendo mexericas na porta de uma faculdade em Divinópolis (MG), construiu sua própria estratégia para enfrentar a concorrência e cunhou o bordão “Cubro qualquer oferta”, presente até hoje nas lojas Ricardo Eletro.

Como ambulante conseguiu a sua primeira loja própria aos 18 anos – um pequeno comércio de pelúcias. Foi ali que começou seu sucesso com a venda de eletrodomésticos. A estratégia era a seguinte: comprava um item por R$ 50 e vendia a R$ 19,90. Compensava o prejuízo com a venda de ursinhos pelo dobro do valor que pagava na região da 25 de Março, em São Paulo. Assim, descobriu que no ramo de eletrodomésticos, o importante é ter competitividade no preço, já que os produtos são todos iguais.

NEGÓCIOS RUINDO

Aos poucos, foi se tornando conhecido e comprando outras lojas até a aquisição da rede de lojas Mig, em 2007, quando a Ricardo Eletro deu início a um agressivo processo de expansão. Nunes chegou a abrir 700 lojas até o negócio entrar para o grupo Máquina de Vendas, em 2010, e fez da Ricardo Eletro a terceira maior varejista do ramo no Brasil – um reinado de curta duração. Por conta da recessão, a companhia passou por uma reestruturação em 2015 e enxugou seu porte. Reduziu o quadro de funcionários de 24 mil para 14 mil e, das 1.050 mil lojas, fechou 393.

Com as prateleiras desabastecidas, lojas sem manutenção, vendedores desmotivados e sem condições de arcar com as dívidas, a Ricardo Eletro entrou com pedido de recuperação extrajudicial em 2018, quando foi assumida por um fundo especializado em empresas em dificuldade, o Starboard. As dívidas somavam R$ 2,5 bilhões.

Na época, o grupo entregou seu controle e 70% de seu capital em troca de um aporte de recursos de aproximadamente R$ 500 milhões. A negociação marcou a saída de Nunes da empresa que fechou o ano de 2019 com apenas 290 lojas, demitiu diversos funcionários e fez vários acordos para parcelamentos das verbas rescisórias dos funcionários.

NEGÓCIO SOB INVESTIGAÇÃO

Em nota, a Ricardo Eletro informou que o antigo proprietário, Ricardo Nunes, e seus familiares deixaram de fazer parte do quadro de acionistas e da administração da empresa em 2019. A companhia "pertence a um fundo de investimento em participação, que vem trabalhando para superar as crises financeiras que assolam a companhia desde 2017, sendo inclusive objeto de recuperação extrajudicial devidamente homologada perante a Justiça", diz a nota.

No entanto, segundo os órgãos que estão à frente das investigações envolvendo o nome de Nunes, foram reunidas várias provas de que o empresário não se afastou dos negócios. Além disso, o Ministério Público de Minas Gerais alega que a empresa já vem omitindo recolhimento de ICMS há quase uma década.

A investigação também apura que fazendas e outros imóveis não estão registrados em nome do investigado, mas no de pessoas de sua família, também alvo da operação. No mesmo período em que os crimes tributários contra o Estado eram praticados, Nunes teve um crescimento vertiginoso do patrimônio individual, o que, para a força-tarefa, configura ainda lavagem de dinheiro.

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