Inovação

Uma nova geração de empreendedores repagina o tradicional Bom Retiro


Um dos principais redutos da moda de São Paulo está de cara nova. Em meio aos novos negócios do bairro, os irmãos Boram e Garam Um (à dir. na foto) comandam a UM Coffee Co


  Por Mariana Missiaggia 26 de Julho de 2018 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Lojas bem decoradas, pratos e bebidas gourmet e a presença constante de blogueiras famosas. As ruas do Bom Retiro, na região central de São Paulo, já não são mais as mesmas.

As tradicionais bancas cheias de roupas reviradas deram lugar a vitrines bem compostas. Os anúncios de liquidação feitos à mão agora são impressos e elaborados. Os despojados manequins são mais reais, fazem poses e usam maquiagem.

Em sintonia com a sofisticação das lojas de roupas, novos cafés têm surgido na região com propostas bem atuais, comercializando produtos orgânicos e com origem de qualidade. Bem planejadas, se transplantadas de lá poderiam muito bem estar instaladas em bairros badalados, como Jardins, Pinheiros e Vila Madalena.

É como se um dos redutos da moda mais famosos de São Paulo, cuja principal rua é a movimentada José Paulino, por onde cerca de 40 mil pessoas circulam a cada dia, tivesse passado por um verdadeiro banho de loja e estivesse se transformando num bairro mais moderno e versátil.

LOJAS DO BOM RETIRO ESTÃO MAIS BEM PRODUZIDAS

COMER BEM

Uma das antigas tecelagem na rua Júlio Conceição, por exemplo, permaneceu fechada durante anos até que a família Um, proprietária do imóvel, decidiu reativar o prédio como a Um Coffe Co –primeira cafeteria no Brasil a servir a bebida extraída à base de grãos próprios.

Servindo o café produzido pelo pai Stefano Um, os irmãos Garam e Boram Um, estão se tornando referência pela bebida e qualidade dos grãos, saídos fresquinhos da torrefação feita no mesmo prédio.

Stefano se apaixonou por variedades de cafés quando implantou uma fábrica da Samsung em Varginhas, Minas Gerais e conheceu pequenos produtores. Ali entendeu que o Brasil mantinha uma cultura de café de exploração em que nossos melhores grãos eram exportados, enquanto os comercializados no país são misturados com até 20% de outras substâncias, como milho e cevada, conforme estabelece a legislação brasileira.

ANTIGA TECELAGEM DEU LUGAR à LOJA UM COFFEE CO,
NO BOM RETIRO

Foi então, que comprou uma fazenda em São Gonçalo do Sapucaí, no mesmo estado e, em 2012, passou a cultivar seu próprio cafezal. Decidido a obter um grão de alta qualidade, Stefano arrancou todos os pés da recém-comprada propriedade, que já produzia grãos há mais de 50 anos, e recomeçou tudo do zero.

Todas as árvores são tratadas sem agrotóxicos, de forma orgânica. A colheita é feita manualmente, na qual são selecionados os grãos mais maduros e os verdes, deixados de lado.

Tanto cuidado motivou os filhos a dar continuidade à produção do patriarca. Boram, 28 anos, se formou em engenharia na Mauá e Garam, 29 anos, em finanças, em Boston, nos estados Unidos.

Há três anos, começaram a desenvolver um modelo de cafeteria incipiente no Brasil que serve a bebida criada com total controle, do plantio à extração.

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Escolheram o Bom Retiro, onde a família tinha uma fábrica de tecidos e em 2016, transformada em um ambiente moderno, onde tudo o que é servido é de produção própria, como bolos, tortas e sucos, que são extraídos a frio e produzidos diariamente com frutas orgânicas da fazenda Um. Hoje, são três unidades da UM Coffe Co. Além do Bom Retiro, há lojas em Pinheiros e Itaim Bibi) 

Em relação à escolha do primeiro ponto, Garam diz acreditar num movimento de renovação no Bom Retiro, especialmente, gastronômica. "Tinhamos um certo receio se o público do Bom Retiro aceitaria bem nosso produto. Mas, hoje, eles já entendem ou quem aprecia café vem aqui só para isso", diz Garam. 

POLO GASTRONÔMICO

Formado em gastronomia, Matheu Shim, 29 anos, foi convidado para administrar o Béni Café há dois anos, e hoje, é proprietário do negócio ao lado da mulher, especializada em confeitaria.

Shim cresceu no Bom Retiro, mas se mudou quando tinha sete anos. Voltou poucas vezes para comprar em estabelecimentos  comerciais de coreanos especializados e ficou receoso quando soube que o ponto escolhido para o café era justamente no Bom Retiro.

A impressão do empresário era a mesma da maioria dos paulistanos: um bairro exclusivamente dedicado ao comércio de moda, onde não havia espaço para mais nada.

Surpreendeu-se, porém, quando passou a receber clientes que visitam o endereço por diferentes razões. São funcionários de bancos e empresas do bairro, turistas de todo o país, descendentes de coreanos, estudantes dos colégios da redondeza e amantes do café que passaram a enxergar o local como referência no assunto. Além disso, as ruas são vigiadas diariamente por cerca de setenta seguranças e policiais.

Estabelecimentos como o Pho. 366, Dare, Bistro da Sara e Fresh Cake Factory colocaram o Bom Retiro no roteiro dos apaixonados por comida, que já veem o bairro com potencial para se tornar um importante polo gastronômico da cidade.

 VITRINES REPAGINADAS

Outra mudança visual no bairro está à vista nas vitrines de muitas confecções, que mudaram as estratégias traçadas para seduzir a freguesia diante de um cenário econômico pouco favorável.

A começar pelas vitrines, que deixaram de lado o apelo popular, e estão mais criativas. Muitas delas são preparadas por Juliemy Machado, de 33 anos, especialista em visual merchandising que já trabalhou para a Ellus e a italiana Fendi. No bairro há sete anos, ela atende 20 marcas de atacado, a exemplo da Manacá e Aqua.

Juliemy diz que o Bom Retiro está para o Brasil como Nova York para o mundo. “O que rola por aqui influencia o comércio do resto do país”, diz.

VITRINE DA TUART, NO BOM RETIRO, PRODUZIDA POR JULIEMY MACHADO

Com passagem por várias empresas de moda, Juliemy decidiu montar sua própria empresa, a VM.SP, mas sabia que não poderia concorrer com grandes nomes do mercado de visual merchandising, como a Vimer, de Camila Salek.

Professora da Escola Panamericana, conheceu um dos diretores do Mega Polo, no Brás, que lhe sugeriu procurar os lojistas do Bom Retiro, uma região até então, inexplorada pela visual merchandising.

“Sem saber como funcionava o mercado da região, logo percebi o nível de profissionalismo dos coreanos, que acreditam muito na arte e no design”, diz.

Ao caminhar pelas ruas, constatou que muito do que se fazia era replicar vitrines vistas em outras partes do mundo, já que os coreanos viajam muito para fazer pesquisas de moda e tentavam adaptar o que viam lá fora.

Quando começou a trabalhar na região, Juliemy pegou a transição de muitas confecções que começavam a ser comandadas pela nova geração da família –filhos que na maioria das vezes, não possuíam formação em moda, mas sim em administração, finanças e economia.

JULIEMY PRODUZ VISUAL MERCHANDISING DE 20 MARCAS
NO BOM RETIRO

Esses jovens empresários, segundo Juliemy, se preocupavam com o processo de construção de imagem da marca e lhe deram passe livre para criar cenografias mais produzidas, que podem custar entre R$ 6 mil e R$ 15 mil.

Hoje, ela cita que o Bom Retiro está à frente dos shoppings quando o assunto é moda e vitrinismo, e cita nomes como Tuart, Tova, La Chocolê e Malagueta como lojas que representam bem esse movimento. Juliemy já chegou a desenvolver projetos de até de R$ 2 milhões para imóveis do endereço –um modelo de loja que não se encontra nem mesmo na rua Oscar Freire, segundo a especialista.

NA ONDA DAS INFLUENCERS

Outra estratégia bem-sucedida do bairro é a parceria de algumas marcas com blogueiras, que cobram entre R$ 3 mil e R$ 10 mil para passar uma tarde para lançar uma nova coleção ou simplesmente, tirando fotos com as clientes.

O contrato também inclui que elas postem alguns looks nas redes sociais. Essas fotos também poderão ser utilizadas pela marca para divulgação como bem entenderem. Muitas deles se espalham pelo país todo por revendedoras que compartilham a imagem para divulgar as peças.

A INFLUENCER ANA PAULA SIEBERT MESCLA PEÇAS DO
BOM RETIRO COM MALA LOUIS VUITTON E BOLSA CHANEL

O investimento do atacado nessas celebridades trouxe também uma nova clientela às confecções consideradas populares. Ocorre que é comum elas combinarem peças do Bom Retiro com acessórios de grifes internacionais, como Chanel, ao compor o visual para o Instagram. É o que chamam de estilo hi-lo: a mistura de uma peça luxuosa, como uma bolsa de etiqueta com algo mais descolado e básico, de uma marca desconhecida.

As marcas estão descobrindo que, mais importante que o número de curtidas e seguidores é o engajamento, ou seja, em que medida  determinada blogueira influencia no comportamento de compra do consumidor.

Com quase 800 mil seguidores, a empresária Ana Paula Siebert está entre as influenciadoras com maior nível de engajamento em São Paulo. Karmani, Zen e HIT são algumas das marcas do Bom Retiro que a mulher de Roberto Justus divulga nas redes sociais.

 FOTOS E VÍDEO: William Chaussê/Diário do Comércio