Inovação

Uma estamparia para os pequenos empresários


A catarinense PrintMyPrint, que estampa tecidos, quer crescer atendendo um nicho até então ignorado pelas grandes empresas do setor


  Por Thais Ferreira 05 de Janeiro de 2016 às 15:33

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Em 2014, a cidade de Florianópolis foi escolhida pela Endeavor, organização de fomento ao empreendedorismo, como a melhor cidade para se abrir um novo negócio. No ano seguinte, a capital catarinense ficou em segundo lugar (São Paulo ficou no topo do ranking). 

O resultado pode ser uma surpresa, já que alguns esperavam que as capitais do sudeste, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, figurassem nas primeiras posições. Mas para quem conhece de perto o cenário de Santa Catarina, o resultado da pesquisa não causou nenhum espanto. 

Nos últimos dez anos, os catarinenses têm assistido suas principais cidades se transformarem em polos de inovação. 

Há razões que explicam isso: a qualidade das universidades da região, o capital humano altamente qualificado – com custo médio de contratação mais baixo do que outras regiões – e os programas de incentivo, como a Sinapse de Inovação, um projeto que aproxima a produção acadêmica do empreendedorismo. 

Nesse pano de fundo favorável, algumas empresas estão surgindo e as tradicionais estão se reinventando e buscando inovações. 

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O EXEMPLO QUE VEM DO SUL

Uma dessas é a Lancaster, que há mais de 30 anos se dedica a estampar e tingir tecidos. Instalada em Blumenau, na região do vale do Itajaí – um dos polos têxtil do país– a empresa catarinense é considerada uma das referências em estamparia digital. 

Seus clientes são empresas de médio e grande porte que necessitam de tecidos personalizados para artigos de decoração e coleções de roupas, como os estilistas Alexandre Herchcovitch e Ronaldo Fraga. 

Nessas estamparias, os pedidos têm de ser feitos em grande escala para compensar os custos de produção. O volume frequentemente exclui os micro e pequenos empresários que precisam de quantidades menores. 

Geralmente, esses empreendedores têm poucas opções: ou compram em lojas de tecidos em que as estampas não são personalizadas ou recorrem a técnicas alternativas de impressão em que apenas as fibras sintéticas, como o poliéster, podem ser submetidas. 

Ou seja, os pequenos ficam muito restritos a algumas estampas e fibras. 

PROCESSO DE TINGIMENTOS DE TECIDOS FEITO PELA LANCASTER. Foto: Divulgação 

A Lancaster percebeu potencial desses consumidores desatendidos. Há cinco meses, a empresa decidiu criar um novo braço: a PrintMyPrint, uma estamparia especializada em demandas menores. 

Todos os pedidos são feitos pela loja online e a quantidade mínima é de apenas 1m². Nas grandes estamparias, o pedido mínimo costuma ser de 30 m². 

Os clientes podem criar suas próprias estampas ou escolher as opções disponíveis no site. As impressões digitais podem ser feitas em sarja ou viscose. 

Para viabilizar esse processo, a Lancaster investiu em novas tecnologias que conseguem criar estampas personalizadas em pequenas quantidades e há preço acessíveis, em média o  metro quadrado sai por R$ 50. 

“Essa é uma alternativa para os empreendedores que querem viabilizar seus próprios desenhos e não podem arcar com os custos dos grandes pedidos”, afirma Anderson Lange, consultor da PrintMyPrint. 

O público-alvo são os proprietários de pequenos ateliês de costura e decoração, como a empresária Anna Wolff, estilista e co-fundadora da Apsara Brasil, marca que vende vestidos, biquínis e maiôs. 

“Trabalho há 20 anos com moda e sempre foi muito difícil me expressar em termos de estamparia porque as quantidades eram muito grandes”, afirma Ana. “Essa nova tecnologia ajudou a fazermos pequenas quantidades para uma criação individual.” 

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A RECEITA PARA OS TEMPOS DE CRISE

Expandir a empresa e criar um novo núcleo com um plano de negócios diferente pode parecer arriscado em tempos de recessão econômica. Uma vez que a palavra de ordem é reduzir custos. 

Mas, de acordo com consultores, esse pode ser um dos principais remédios para as empresas driblarem a queda do consumo. Já dizia o ditado: enquanto uns choram, outros vendem lenços. 

“Como a crise financeira, muitas pessoas perderam seus empregos e estão investindo em seus próprios negócios”, afirma Lange.“O número de micro e pequenos empresários deve crescer nos próximos anos e queremos vender para esse público”

Os especialistas acreditam que essa não é a hora de lançar versões mais sofisticadas dos produtos. Mas é momento ideal para investir em formatos mais simples para alcançar consumidores que até então não são atendidos pela empresa, como fez a catarinense Lancaster.