Inovação

Saiba como a tecnologia pode destravar a burocracia oficial


Diálogo entre sistemas informatizados é um dos caminhos da eficiência, diz Eduardo Mário Dias, professor da USP, em palestra na ACSP


  Por João Batista Natali 23 de Maio de 2018 às 15:40

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


PROFESSOR EDUARDO DIAS
DIAS, DA POLITÉCNICA, NA ACSP: A EFICÁCIA DOS CHIPS

Coexistem ao mesmo tempo, na área pública da saúde, 796 sistemas eletrônicos de informação. Mas eles não dialogam uns com os outros, o que representa uma indescritível dor de cabeça para controlar ou dividir estoques de medicamentos, compartilhar prontuários e comprar material.

O exemplo dessa espécie de arca de Noé na administração brasileira foi mencionado, em palestra nesta quarta-feira (23/5), por Eduardo Mário Dias, professor titular da Escola Politécnica da USP e há 43 anos especialista em questões de automação.

Ele foi o convidado do Conselho de Economia da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que tem como coordenador o economista Roberto Macedo.

O tema de Dias foi “Automação e sociedade – quarta Revolução Industrial (indústria 4.0): um olhar para o Brasil".

Com relação ao controle de medicamentos, ele disse que apenas uma integração dos sistemas de informação poderia diferenciar, no país inteiro, o faturamento de produtos comprados de laboratórios daqueles que são falsificados.

Estima-se que são utilizados, anualmente, R$ 2 bilhões em medicamentos falsificados – adquiridos por meios ilícitos e que provocam sérios problemas de saúde.

A mesma anomalia atinge o comércio das próteses, afirmou Dias.

Uma integração de sistemas também permitiria a troca de informações técnicas para evitar, como ocorre hoje, que 30% das vacinas, em lugar de serem aplicadas, acabem se perdendo por não terem sido estocadas na adequada temperatura.

EXPORTAÇÃO DE CARNE E SOJA

O pesquisador relatou um dos projetos em que trabalhou e que desburocratizou e agilizou a exportação de produtos animais.

O mecanismo é de assustadora simplicidade. Ao ser despachado na origem, o contêiner com a carne congelada recebe na porta um lacre que o acompanha por todo o transporte.

Dentro desse lacre há um chip com informações completas sobre origem, destino, preço, guias alfandegárias e informações para a Receita Federal.

Ao pegar a estrada em direção ao Porto de Santos – onde a experiência já começou – o chip é lido e suas informações são transmitidas para o cais em que se dará o embarque.

Ao chegar no porto, basta uma nova leitura do chip para que o motorista descarregue seu contêiner. Economizam-se toneladas de papéis com guias impressas e ainda se ganham no mínimo 48 horas entre o transporte e o desembarque.

Esse mecanismo foi encomendado em 2009 pelo Ministério da Agricultura, mas só agora foi implementado.

Pela economia que proporciona, o sistema teve um custo absurdamente baixo. Apenas R$ 2,5 milhões.

Antes disso, afirma Dias, o governo havia gasto R$ 500 milhões, em sistemas que não funcionaram ou funcionaram mal.

O segredo não está propriamente no aproveitamento de tecnologia já existente, mas sobretudo no abandono da ideia segundo a qual os sistemas importados são mais eficientes que os produzidos no Brasil.

NOTA FISCAL ELETRÔNICA

Um exemplo engenhoso de soluções em que a tecnologia permite aumentar a arrecadação de tributos com o mesmo volume de faturamento foi dado pela nota fiscal eletrônica, disse o professor da Poli.

Com os caixas integrados a um único sistema, a emissão da nota no momento em que os produtos são comprados pelo cliente final significa 100% de sucesso no combate à sonegação, num mecanismo que também permite ao varejista controlar, em tempo real, seus estoques e faturamento das vendas.

A ideia partiu da Secretaria da Fazenda durante o governo José Serra, e a USP a executou, a um custo ridículo se comparado aos benefícios produzidos. O projeto saiu por UR$ 1,8 milhão.

O Ceará já adotou a mesma ideia, e Minas Gerais está a caminho de fazer o mesmo.

Outra experiência, encomendada pela Prefeitura de São Paulo pela gestão Kassab, procurou integrar as informações da CET e da Transurb.

A ideia não teve prosseguimento. Mas com o monitoramento de ônibus e veículos, acoplado ao tempo de abertura dos semáforos, o objetivo era economizar em 20% o tempo necessário aos trajetos urbanos.

Existe, nesse campo, disse Dias, um campo de experiências quase ilimitado. Citou, por exemplo, a criação de um waze público e do monitoramento dos celulares transportados dentro dos veículos para mapear preferências de trajetos e tentar desimpedi-los.

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