Inovação

Quer receber em casa ou vai buscar sua compra no locker?


Depois dos terminais de autoatendimento, chegou a vez de outra tendência mundial: armários inteligentes disponibilizados pelas redes de varejo para que os clientes retirem mercadorias compradas pela internet no horário que desejarem


  Por Mariana Missiaggia 16 de Julho de 2018 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Comum nos Estados Unidos e Europa, a compra de produtos online com opção de retirada em lockers ganhou visibilidade no início do ano, quando a Via Varejo adotou a modalidade, em São Paulo.

Desde janeiro, quem compra em sites, como Casas Bahia e Pontofrio, e Extra, do GPA, passou a ter a opção de retirar produtos em armários inteligentes de autoatendimento, conhecidos como lockers.

A modalidade está disponível em algumas unidades dos postos Ipiranga da capital paulista e também do Rio de Janeiro. Todos funcionam 24 horas por dia e sete dias por semana.

Chamado de Retira Rápido, o serviço também foi estendido para retirada de pedidos em balcões de 43 agências dos Correios de 11 Estados. O dispositivo é acionado por um QR Code, enviado por e-mail ou SMS.

Para o consumidor, a opção pode ser mais prática do que receber pelo correio, principalmente para quem não fica em casa em horário comercial, sem condições de receber a encomenda.

O mesmo procedimento é replicado em varejistas de todo o mundo, como a The Home Depot, nos Estados Unidos.

A varejista também aderiu ao modelo de entrega e instalou armários inteligentes na entrada de suas lojas, de acordo com um artigo da USA Today, publicado na última semana.

No entanto, em vez de alugar espaços em pontos de retirada, como faz a Via Varejo, a Home Depot tem utilizado a própria fachada para instalar seus lockers.

Assim, em vez de caminhar pelos corredores da grande loja em busca de alguns produtos, muitos clientes da Home Depot podem ir direto ao armário indicado, pegar o que pediram e sair pela porta – sem sequer entrar em uma das unidades.

O Walmart pratica algo parecido com as chamadas torres de coleta –uma espécie de quiosque que possui por volta de cinco metros de altura e 2,5 metros de largura, geralmente localizados na entrada das lojas.

Todas as máquinas possuem uma tela de vídeo em que os consumidores passam o código de barras de confirmação do pedido de seus telefones e uma esteira entrega o pedido completo.

O tamanho das máquinas se deve às toneladas de pacotes em seu interior, de acordo com a varejista, uma forma ainda mais prática que os armários de coleta (que também foram testados pelo Walmart).

São mais de 250 torres de coleta nas lojas e outras 450 até o final de 2018, segundo o porta-voz do Walmart, Ragan Dickens. Cada torre pode armazenar cerca de 300 itens.

A adesão das redes varejistas americanas a esse movimento é uma tentativa de competir com o Amazon Locker -depósitos da Amazon que ficam em pontos em várias cidades dos Estados Unidos com a função de receber as compras.

A gigante do comércio eletrônico aderiu à modalidade por diferentes razões, como diminuir o valor do frete pago pelos clientes, proporcionar uma alternativa àqueles que não estão em casa no horário da entrega e também por conta dos turistas, tendo em vista que a maioria dos hotéis começou a cobrar uma taxa para recebimento de encomendas, inibindo o volume de compras. 

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EMBATE COM O VAREJO

Embora seja uma opção muito conveniente para os consumidores e que reafirma o modelo omnichannel, tão perseguido pelas empresas atualmente, a proposta pode de certa forma, distanciar os consumidores da loja física.

No passado, a venda a prazo no carnê foi utilizada por Samuel Klein, fundador da Casas Bahia, como incentivo para que todo mês o freguês visitasse a loja para realizar o pagamento e eventualmente, se interessasse por novos produtos.

A área de pagamento dos carnês ficava estrategicamente posicionada nos fundos da loja, compelindo os clientes a observar, a cada mês, as mercadorias expostas com ofertas tentadoras -e, assim, fazer novas compras.

Portanto, a questão que surge com o uso de lockers é a seguinte: sem a obrigação de entrar nas lojas para retirar as suas compras, o consumidor ainda se sentirá motivado a comprar por impulso?

PANVEL ESTÁ ENTRE AS EMPRESAS QUE DISPONIBILIZAM LOCKERS

Na opinião de Alexandre van Beeck, sócio-diretor da GS&Consult, empresa de consultoria com foco em varejo, tudo depende do posicionamento de cada varejista.

O consultor diz que é possível impactar o cliente mesmo em casos como o da Home Depot, quando nem é preciso entrar na loja para retirar algum produto. Lançamentos, ofertas ou ações de marketing também podem fisgar o consumidor para o lado interno da loja.

“Estamos na era do multicanal e o uso de lockers é apenas mais uma modalidade dessa integração. O consumidor precisa ser o centro de todas as estratégias. A grande vantagem dos lockers é a conveniência e isso é tudo que o cliente quer”, diz.

Neste sentido, Van Beeck cita que a modalidade tem atraído outros segmentos do varejo, como o farmacêutico, que tem buscado novas formas de conceder acesso a seus produtos.

A gaúcha Panvel saiu na frente e é a única em seu ramo a oferecer o serviço. Desde fevereiro, a rede de farmácias disponibilizou a opção “retirar no locker” para quem compra pela internet. Quando o pedido é colocado no armário, uma mensagem é enviada, avisando que está disponível para retirada, juntamente com senha exclusiva.

Depois, é só ir até o locker, digitar o CPF e a senha. Assim como nos outros casos, cada cliente pode pegar sua mercadoria na hora que desejar. E é justamente, esse recurso que se diferencia de outros serviços, como por exemplo, a retirada nos Correios ou a entrega em casa.

Esses lockers ficam disponíveis 24 horas e normalmente, em espaços iluminados, movimentados, com vagas de estacionamento e seguros, como postos de gasolina.

Especialista em varejo, Ana Paula Tozzi, diretora executiva da AGR Consultores, diz que a instalação de lockers é um desdobramento do sistema clique e retire, em que o cliente compra pelo site e retira o produto em uma loja física.

A diferença é que os armários ampliam os possíveis pontos de coleta para além da rede de lojas. Postos de gasolina, shopping centers, estações de metrô e outros pontos de passagem são potenciais locais de retirada.

Para o empresário Frederico Trajano, presidente do Magazine Luiza, que não aderiu aos lockers, mas incentiva a retirada de produtos em suas 860 lojas, os principais problemas para o e-commerce no Brasil são o custo logístico e a baixa confiabilidade das transportadoras.

"Colocando a loja nessa equação você vence os dois problemas", disse Trajano em uma entrevista ao Diário do Comércio. "Garante uma entrega mais rápida e reduz o custo porque todos os dias há caminhões saindo do centro de distribuição para as lojas e resolve o problema da rentabilidade do e-commerce". Enquanto lá fora, a modalidade foi adotada, justamente pela redução de custos de frete e por oferecer mais conveniência aos clientes, no Brasil as redes varejistas têm ainda outros incentivos.

AMAZON LOCKER INSPIROU OUTRAS REDES VAREJISTAS

Ana Paula cita que esse tipo de retirada pode driblar as dificuldades impostas pela falta de segurança, como os casos de roubo de carga em estados como o Rio de Janeiro, que muitas vezes impedem que o produto chegue diretamente à casa do cliente.

Em uma recente reportagem, o jornal americano USA Today, informa que como a Home Depot vende muitos itens volumosos e variados -de fornos a fertilizantes -não tem sido tão vulnerável à perda de vendas para a Amazon quanto as cadeias de lojas especializadas e de departamentos.

No entanto, a instalação dos lockers demonstra que a varejista não quer ficar de fora desse movimento omnichannel.

A Home Depot espera ter armários em todas as suas lojas dentro de três anos. A estratégia faz parte de um plano de investimento de US$ 11 bilhões da empresa com sede em Atlanta.

Hoje, cerca de 45% dos pedidos on-line da Home Depot são retirados nos armários instalados nas lojas e oferecem aos clientes a conveniência do autoatendimento e economia de tempo.

FOTOS: Divulgação/Empresas