Inovação

Quem quer um investimento milionário?


Gustavo Junqueira, sócio da Inseed Investimentos e um dos gestores do fundo Criatec 3, está em busca de empresas inovadoras para investir R$ 200 milhões


  Por Italo Rufino 22 de Fevereiro de 2016 às 13:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Imagine ter à disposição alguns milhões de reais para preparar sua empresa para crescer dez vezes em poucos anos.

Além do capital, o empreendedor também receberá o auxílio de profissionais experientes para aprimorar o modelo de negócio, estruturar a organização e contratar profissionais gabaritados para turbinar o negócio. 

Esse será o futuro das empresas selecionadas pelo Criatec 3, fundo de capital semente que detém mais de R$ 200 milhões para investir em micro e pequenas empresas inovadoras do Brasil. 

O fundo, que está em sua terceira edição, utiliza recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de investidores privados.

O capital será gerido pela Inseed Investimentos, gestora de ativos mineira responsável pela prospecção, aceleração e desinvestimento das empresas, que irão receber aportes entre 1,5 milhão e 10 milhões de reais até 2019. 

Conversamos com Gustavo Junqueira, sócio-diretor da Inseed Investimentos, para saber quais os perfis de empresas estão no radar do Criatec 3. 

DIÁRIO DO COMÉRCIO - QUAL PERFIL DE EMPRESA A INSEED BUSCA? 

GUSTAVO JUNQUEIRA - Primeiramente, buscamos empresas inovadoras com alto potencial de crescimento, que possuam barreiras de entrada relevantes e sustentáveis em longo prazo -- não pode ser uma inovação que uma grande empresa consiga copiar com facilidade, por exemplo. São valorizadas empresas que desenvolvem tecnologias baseadas em ciência avançada (hard science).

Temos interesse em empresas de tecnologia da informação e comunicação, biotecnologia, agronegócio, novos materiais e nanotecnologia. Esses setores possuem maior probalidade de apresentar inovação, mas empresas qualificadas de outros segmentos também podem receber aportes.  

Outro critério é que a empresa deve ter faturamento bruto anual até R$ 12 milhões.Empresas que ainda não faturam devem apresentar tecnologia pronta para aplicação, produto ou serviço pronto para ser comercializado e estarem bem próximas de gerar a primeira nota fiscal.

Não investimos em empresas que ainda estão em estágio de desenvolvimento tecnológico ou em ideias de negócio. 

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DC - QUAIS COMPETÊNCIAS SÃO VALORIZADAS NO EMPREENDEDOR? 

Junqueira - O empreendedor precisa ter uma visão de construção em conjunto. Ele deve estar ciente que o fundo será um sócio atuante que vai fazer com que a empresa cresça muito em poucos anos -- e que isso é mais interessante do que crescer sozinho. Ele também precisa ter profundo conhecimento tecnológico ou mercadológico em sua área de atuação.

Muitos empreendedores que participaram de outras edições do Criatec possuem carreira acadêmica com título de mestrado. A carreira científica faz com que o empreendedor se torne especialista na sua área – e isso é valorizado, embora não seja um critério obrigatório.  

DIRETORES DA INSEED: PAULO TOMAZELA, GUSTAVO JUNQUEIRA E ALEXANDRE ALVES/Foto: Pedro Queiroz

DC- COMO A INSEED AJUDA O EMPREENDEDOR A ESTRUTURAR O NEGÓCIO PARA UM RÁPIDO CRESCIMENTO?  

Junqueira - Temos uma equipe de 25 profissionais. Percebemos que, além do capital, o empreendedor precisa de ajuda em gestão e nas tomadas de decisões estratégicas. Então, ajudamos em modelo de negócio, governança, estratégia e crescimento. Auxílio em seleção e profissionalização da equipe gestora também gera muito valor para a empresa.

DC - QUAIS SÃO OS DESAFIOS DE CRESCIMENTO DAS EMPRESAS?  

Junqueira - Os desafios são diferentes de acordo com o porte da empresa. Numa explicação simplificada, empresas que faturam até R$ 1 milhão têm o desafio de aprimorar o modelo de negócio e criar uma proposta de valor atrativa para o mercado. 

Organizações que faturam entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões têm como prioridade criar uma estrutura inicial, como departamento comercial e de produção. 

Empresas que faturam até R$ 20 milhões precisam aprimorar os processos para ganhar escala. 

Acima de R$ 20 milhões, há os desafios comuns de uma empresa de médio porte, como criar estratégias de expansão e uma possível internacionalização. 

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DC - O FUNDO COSTUMA SER SÓCIO MINORITÁRIO. POR QUE É IMPORTANTE QUE O EMPREENDEDOR CONTINUE À FRENTE DA EMPRESA? 

Junqueira - Geralmente, adquirimos entre 20% e 49% de participação acionária. Acreditamos que o empreendedor é quem detém a experiência e o potencial de inovação. Não queremos ser o controlador da empresa e nem chefes do empreendedor. Queremos ser parceiros nas tomadas de decisões estratégicas.

DC - COMO ESTÁ SENDO CONDUZIDA A BUSCA DE EMPRESAS?

Junqueira - A seleção começou no dia 1 de fevereiro deste ano e vai até 31 de janeiro de 2019. 

Os interessados podem preencher um formulário no site do Criatec 3 com informações sobre a empresa, os produtos e serviços oferecidos e a experiência da equipe empreendedora. 

Os profissionais da Inseed também circulam por núcleos locais de inovação, como incubadoras e aceleradoras.

Esperamos receber cerca 2.500 inscrições até o fim da fase de seleção. 

LANÇAMENTO DO CRIATEC 3 NO BNDES/ Foto: André Telles

ATÉ 2025, AS EMPRESAS PASSARÃO PELO DESINVESTIMENTO. COMO A INSEED PLANEJA A SUA SAÍDA DAS EMPRESAS?

Junqueira - Antes realizar o aporte, criamos uma tese de investimento, em que nos reunimos com o empreendedor para definir o valor ideal do aporte, como os recursos poderão ser utilizados, até quando ficaremos na empresa e como ela se tornará um ativo interessante para outros investidores no futuro. 

No decorrer do processo de aceleração, o plano é ajustado. Na prática, a própria jornada da empresa atrai novos investidores. Por exemplo, uma empresa que oferece um serviço complementar ao de uma multinacional e chegou ao seu limite do crescimento pode ser incorporada. 

Há casos de empresas que vão precisar de aportes maiores, geralmente entre 50 milhões e 100 milhões de reais, visando a abertura de capital. O novo investidor pode ser um fundo de private equity especializado em IPO

Acreditamos que em determinado momento haverá investidores mais qualificados do que a Inseed para ajudar a empresa a continuar crescendo. 

DC - QUAL FOI A MÉDIA DE CRESCIMENTO DAS EMPRESAS INVESTIDAS PELO CRIATEC? 

Junqueira - No Criatec 1, investimos em 36 empresas – dessas, já vendemos dez. As 26 companhias restantes faturaram juntas 155 milhões de reais em 2015 – dez vezes mais do que em 2008, quando começamos a realizar os aportes.

Na edição Criatec 3, esperamos que as empresas investidas apresentem uma taxa de crescimento entre 10 e 20 vezes até 2025. 

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DC - QUAL O IMPACTO DE O BNDES RELANÇAR O CRIATEC NUMA ÉPOCA DE RETRAÇÃO ECONÔMICA COMO A QUE O BRASIL VIVE ATUALMENTE?  

Junqueira - Fico muito feliz com o interesse do BNDES em inovação. Junto com a educação, a inovação é a melhor maneira de gerar riqueza nacional. Em momentos de crise, os investimentos em inovação são ainda mais necessários. 

O fundo ainda está captando recursos – esperamos obter mais 18 milhões de reais. Então, ainda há oportunidade para investidores profissionais participarem do Criatec 3.

Como cidadão, o Criatec 3 me deixa muito esperançoso num futuro melhor para o país. Esse é o tipo de investimento que pode criar algumas dezenas de empresas com grande potencial de crescimento e geração de empregos.

Essas empresas também podem criar novos núcleos locais de inovação e inspirar mais empreendedores. Com bases de inovação florescendo pelo país, o Brasil poderá crescer de maneira sustentável em longo prazo. 

FOTO: Pedro Queiroz