Inovação

Quais são os obstáculos na corrida pela inovação – e como superá-los


Ex-presidente da FINEP e executivos de duas das dez empresas mais inovadoras do Brasil, como Rony Sato, da Basf (foto), comentam os problemas nacionais que entravam essa prática


  Por Italo Rufino 21 de Julho de 2015 às 09:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Já é unanimidade no mundo corporativo que a inovação é um caminho promissor e, sobretudo, estratégico para o crescimento de uma empresa. Porém, como empreendedores e executivos podem lidar com as adversidades do país que entravam o processo de inovação? 

“A inovação deve fazer parte da estratégia da empresa, com recursos, estrutura e processos que fomentem essa cultura dentro da companhia”, afirma José Eduardo Fusaro, diretor da filial brasileira da consultoria Strategy&. “Empresas que encontram o equilíbrio entre intenção e esforço para inovar tendem a ter os melhores resultados e ser reconhecida no mercado.”

 Em parceria com o jornal Valor Econômico, a Strategy& classificou as cem empresas mais inovadoras do Brasil. 

Conversamos com Glauco Arbix, professor de sociologia da Universidade de São Paulo e ex-presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), empresa pública de fomento à inovação, para discutir os gargalos da inovação no Brasil.

ARBIX: STARTUPS SÃO ALIADAS

Também consultamos executivos da Weg, fabricante de motores elétricos que ocupa a 7ª posição no ranking nacional, e da Basf, uma das maiores empresas do setor químico do mundo e 8ª colocada na lista. Veja: 

OBSTÁCULOS

De acordo com o professor Glauco Arbix, que proferiu palestra durante o evento de lançamento do ranking, o Brasil possui quatro dificuldades básicas para gerar inovação. “A primeira é a educação, pois a inovação não vem de máquinas ou computadores, mas sim de pessoas que pensam e transformam ideias em algo real na economia.” 

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O professor também cita a precariedade da infraestrutura, como a de logística, que afeta toda a população e as empresas. Outro ponto negativo é o desfavorável ambiente de negócios do país, como a alta carga tributária e burocracia elevada. Por último, o professor afirmou que o Brasil ainda gera pouco conhecimento e tecnologia.  

Mas ainda há outro problema que está dentro da própria empresa – muitas companhias não inovam por terem medo de arriscar. “O empresário tem receio de trocar aquilo que é um pouco velho – mas ainda dá certo – por algo novo”, afirma Arbix. “Mas qual é o momento que aquilo que é um pouco velho passa a ser completamente obsoleto? Esse é o dilema das grandes companhias”. 

Para Arbix, o caminho da inovação passa por qualificar melhor o funcionário, não manter muitas estruturas hierárquicas –para não sufocar boas ideias que surgem espontaneamente– e trabalhar com parcerias, como instituições de ensino e pesquisa e outras empresas, até mesmo concorrentes. 

As startups também podem ser uma boa parceira para o florescimento da criatividade empresarial. De acordo com Arbix, essas empresas lidam melhor com o risco – pois não têm muito a perder.

“Elas não possuem grandes custos com pessoal e estrutura e nem fatia expressiva de mercado”, afirma Arbix. “As grandes podem apoia-las em recursos financeiros e governança visando usufruir de sua capacidade inovadora.” 

RESPONSABILIDADE DO GOVERNO

Para Sebastião Lauro Nau, gerente de inovação e pesquisa da Weg, fabricante de motores elétricos, o risco para gerar inovação deve ser compartilhado entre empresa e governo.  O executivo afirma que quando uma empresa desenvolve um produto inovador beneficia a sociedade ao solucionar uma demanda dos cidadãos ou das empresas.

Ao mesmo tempo, o faturamento da companhia cresce –o que reflete maior arrecadação de impostos pelo governo. “Então é natural que o governo ajude as empresas inovadoras, pois ele também terá proveitos”, disse Nau. 

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O executivo também se diz favorável a que o governo crie programas de médio e longo prazo que apoiem as empresas a montarem equipes e estruturas dedicadas a inovação. Subsídios e incentivos pontuais e intermitentes não geram retorno esperado. “Uma equipe de inovação só começa a mostrar resultados relevantes após, em média cinco anos de trabalho”, afirma Nau. “É fundamental um apoio constante.”

RONY SATO, DA BASF, DURANTE ENTREGA DO PRÊMIO DE 8ª EMPRESA MAIS INOVADORA DO BRASIL

COMO AGIR EM ÉPOCAS DE CRISE 

A crise econômica também foi tema de conversas entre os executivos. Um consenso: não é recomendado diminuir os investimentos em pesquisa e desenvolvimento durante um período de turbulência. 

“Quando se interrompe uma pesquisa não é possível retoma-la no futuro exatamente do ponto em que parou”, afirma Rony Sato, gerente de tecnologia e inovação da Basf, empresa alemã do setor químico. “Existe um período de inércia antes da recuperação.”

O executivo afirma que a Basf não reduziu nenhum dispêndio em inovação – lição adquirida durante a crise global de 2008. 
Em 2014, a Basf investiu 1,884 bilhão de euros em inovação -- quase 2% a mais do em 2013. O montante representa cerca de 2,5% do faturamento global da companhia, que somou 74,3 bilhões de euros. Na América do Sul, a companhia destinou à pesquisa e desenvolvimento 1% de suas receitas, que somou 3,715 bilhões de euros.

Em 2025, a empresa espera que a região atinja receitas de 9 bilhões de euros – desse total, cerca de um terço deverá ser proveniente de inovação desenvolvida regionalmente, que também engloba o Brasil. 

“A ideia é não perder os investimentos que a empresa fez em capacitação e programas de fomento a inovação dentro e fora da companhia”, afirma Sato.