Inovação

Os caçadores de tendências: eles sabem o que os clientes vão querer


Eles não têm bola de cristal, mas apostam no que vai bombar. Conheça os trend hunters, profissionais que podem levar o futuro para sua empresa


  Por Thais Ferreira 03 de Julho de 2015 às 06:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Em 2009, Francine Candiotti assumiu o cargo de designer chefe do setor de vestiário da Fila – empresa do grupo coreano SBI que produz roupas e calçados esportivos. Ela já havia trabalhado anteriormente em grandes redes, como a Victoria's Secret que vende lingeries e produtos de beleza, e acumulava vasta experiência na criação de criar grandes coleções.  

A situação na empresa de artigos esportivos, no entanto, era muito delicada. Após uma série de linhas de roupas que não agradaram os consumidores, a Fila precisava se reposicionar no mercado. “Não havia espaço para erros”, afirma Candiotti. 

A designer tinha de criar duas dezenas de roupas com temas diferentes. Era uma tarefa difícil, que exigia um mergulho no mundo da moda e do esporte. Para auxiliá-la, a designer Francine decidiu contratar os serviços da empresa WGSN, especializada em buscar e analisar novas tendências. 

Foi explorando os boletins e ferramentas da empresa que ela tirou inspiração para suas criações. Com isso, economizou horas em desenvolvimento e pesquisa de mercado. 

O resultado foi uma linha de vestuário que está se tornando um sucesso de vendas e foi usada pela maioria dos jogadores de tênis durante o Australian Open deste ano.  A Platinum, como foi batizada, chama atenção pelas cores fortes, uma silhueta moderna e a capacidade de dissipar o calor do corpo. 

“É claro que eu posso criar os design das coleções sem usar os serviços da WGSN. Mas seria como se um cirurgião não usasse a  melhor tecnologia e os melhores medicamentos”, afirma.    

Os serviços de pesquisa de tendências estão se tornando cada vez mais relevantes pela capacidade de se diferenciar da concorrência e saber o que vai se tornar moda muito antes que os produtos desembarquem nas prateleiras. 

LOREANA BORJA, PROFESSORA DE COOL HUNTING DA FAAP: "OS PESQUISADORES DE TENDÊNCIA AJUDAM INVESTIREM MELHOR SEUS RECURSO. Foto:Divulgação

O QUE FAZ UM TREND HUNTER?

Se existisse uma bola de cristal capaz de prever o futuro do varejo, provavelmente os comerciantes perguntariam sobre a próxima grande tendência de consumo –aquele produto, cor ou design que começa a atrair atenção dos clientes e, de uma hora para outra, se torna uma febre. 

Infelizmente, não existe nenhum instrumento capaz de produzir tais previsões. Mas há profissionais dedicados a antecipar e a analisar essas tendências. 

Os nomes são vários: trend hunter, cool hunter ou em bom português pesquisador de tendências. Mas a definição é única: um especialista dedicado a entender o que vai estar em voga nos próximos meses e anos. Não se trata de tentar adivinhar o futuro, e sim de um estudo baseado em pesquisa, informação e observação. 

Um dos conceitos mais utilizados por esses profissionais é o “zeitgeist” – um termo alemão que sintetiza o espírito de uma época. A ideia é capturar essa essência abstrata que circula pelas ruas e transformar isso em algo concreto que possa ser aplicado em produtos e serviços.  

Essa profissão é nova em todo mundo. Existem ainda poucas empresas especializadas nesse tipo de serviço. Um das pioneiras é a inglesa WGSN, que é se tornou uma das referências nessa área. Fundada há 17 anos, o negócio se expandiu e está presente em 16 países, incluindo o Brasil. 

A WGSN funciona por meio de assinaturas e entrega periodicamente para seus clientes uma análise com foco em moda, comportamento, estética, lifestyle, varejo e outros diversos segmentos. A empresa também oferece serviços personalizados. 

“A mente do consumidor está em constante mutação, por isso é essencial entender seus modelos mentais e como isso pode afetar os negócio”, afirma Beatriz Modolin, gerente de contas e especialista em pesquisa de tendências da WGSN na América Latina.“A informação se torna, cada vez mais, um bem extremamente valioso.”

Fora as grandes agências estrangeiras, há também empresas nacionais que prestam esse tipo de serviço, como a Lmborja consultoria, fundada por Lorena Borja, pesquisadora de tendências e professora de Cool Hunting da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).  

Com uma longa experiência em grandes empresas de moda e cosméticos, como Marisa e Contém 1g, a profissional acredita que os principais benefícios para os empresários que contratam os cool hunters são a redução de gastos. 

“Os pesquisadores de tendências ajudam a planejar para onde os recursos de uma empresa devem ser direcionados. Evitando despesas em apostas que não vingaram nos próximos anos”, afirma Lorena. “É uma forma inteligente de pensar o futuro.”

Apesar de ser mais utilizado por grandes negócios, Borja garante que os preços desse tipo de serviço são acessíveis para pequenos e médios empresários. “É um investimento que cabe na maioria dos orçamentos”, diz Lorena. 
NOVO UNO: TEVE A CONSULTORIA DE ESPECIALISTAS EM TENDÊNCIAS AUTOMOBILÍSTICAS  Foto: Divulgação

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MUITO ALÉM DO MUNDO DA MODA

Apesar de muitas pessoas associarem a busca de novas tendências com profissionais da moda, os trend hunters possuem diversas formações, como jornalismo, designer, mídias sociais, publicidade, marketing e demais áreas que acompanham constantemente as mudanças de comportamento. E atuam em empresas dos mais diferentes setores, como bancos e até na indústria automobilística. 

A Fiat utilizou esses serviços ao lançar o Novo Uno. A primeira versão do carro foi lançada em 1983 e sobreviveu até 2010 com apenas pequenas alterações. Em meados do ano 2000, a empresa decidiu reinventar o carro por completo, incluindo o motor, os acessórios e o design.

Em vez de tentar imaginar o que o consumidor queria, os designers da empresa decidiram ouvir os clientes e realizaram diversas pesquisas tradicionais de marketing com consumidores da empresa que deram suas opiniões sobre como deveria ser o  novo veículo. 

Outra parte do desenvolvimento do carro foi baseada na opinião de um grupo de especialistas que tinham um profundo conhecimento de tendências do mercado automobilístico. Como a criação de um novo carro demora anos, eles se concentram nessas tendências que ainda estavam nascendo. E deu certo.  

O Novo Uno chegou ao mercado em 2010 e nos meses precedentes foi o carro mais vendido da Fiat, demonstrando a aceitação do público em relação às mudanças feitas. Além disso, o modelo foi eleito pela Associação Brasileira de Imprensa Automotiva e pelas revistas especializadas como o carro do ano.