Inovação

O varejo de autopeças entra no mundo digital


Com a bênção de Romero Rodrigues, cofundador do Buscapé, os sócios Fernando Cymrot (à esq.) e Vinicius Dias querem mudar o negócio de venda de peças automotivas


  Por Thais Ferreira 28 de Julho de 2016 às 08:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Desde que deixou a presidência do Buscapé, Romero Rodrigues tem se dedicado – entre outras dezenas de atividades – a ser mentor e investidor de novos negócios. 

Ele está utilizando sua experiência para ajudar uma nova geração de empreendedores a criar empresas tão inovadoras quanto o próprio Buscapé foi no início dos anos 2000.  

O Canal da Peça – marketplace de peças de automotivas – foi uma das startups escolhidas para receber os conselhos e o dinheiro de Rodrigues. 

O negócio foi fundado em 2013 por Fernando Cymrot e Vinicius Dias. A ideia é mudar a dinâmica de um mercado ainda pouco explorado pelas empresas online: o de reposição de peças para automóveis

A lacuna nesse setor é evidente. De acordo com uma pesquisa do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios (Sindirepa), 44% das oficinas mecânicas não encontram peças com facilidade no mercado.

Além disso, cerca de 35% dos carros ficam parados entre 6 e 10 dias por falta de componentes necessários. 

“Ao estudarmos esse nicho, percebemos que tudo ainda era feito por meio de catálogos impressos”, diz Cymrot. “O mecânico procurava peça e ligava para as distribuidoras para saber se a peça estava disponível. A informação era muito mal distribuída.” 

Essa dinâmica é pouco eficiente para todas as pontas dessa cadeia. “É óbvio que existe uma oportunidade de reinventar essa relação entre dono do automóvel, oficina e distribuidores. Por isso, o modelo de negócio do Canal da Peça faz muito sentido” afirma Rodrigues.

O fundador do Buscapé não foi o único a enxergar o potencial desse negócio. A empresa conta com um grupo de investidores-anjo de peso: Eduardo Casarini, fundador da Flores Online, especializada em venda de flores e presentes pela internet e Carlos Curioni, presidente da Elo7, marketplace de produtos de artesanato. 

TRAJETÓRIA 

Antes de fundarem o Canal da Peça, Cymrot e Dias foram colegas de faculdade e depois seguiram trajetória diferentes. O primeiro atuou em consultoria financeira, em processos de fusão e aquisição, e o segundo em banco de investimentos. 

Antes de darem os primeiros passos no caminho do empreendedorismo, eles analisaram oportunidades em diversos ramos: material de construção, produtos químicos, rolamentos e plásticos, até chegar nas peças de veículos. 

Três elementos foram fundamentais para essa escolha. O primeiro é que o comércio de autopeças está intimamente relacionado ao de venda de carros, por isso é possível prever a evolução desse mercado com bastante antecedência.

Em média, os automóveis novos precisam de peças após cinco anos de uso. 

“A venda de veículos cresceu muito no começo do século XXI, devido ao incentivo do IPI reduzido, o pleno emprego e a inflação baixa. Logo, o mercado de peças cresceria nos próximos anos”, afirma Cymrot. 

Além disso, a frota de veículos sofreu uma grande diversificação no Brasil, com isso a variedade de peças também aumentou – o que torna a busca peças de reposição algo mais complexo.

Em outras palavras, a dificuldade da oferta e demanda se encontrarem se tornou maior. 

O último elemento foi encontrar um mercado resistente a crises. “Como trabalhávamos com finanças, em 2013 já víamos nuvens pretas pairando no ar”, diz Cymrot. 

O setor de autopeças acabou se encaixando perfeitamente nesse quesito. Peças de reposição são um artigo de primeira necessidade, principalmente quando o veículo quebra:

“Muitas pessoas deixam de fazer comprar um item supérfluo, para consertar o carro”, afirma Cymrot. 

Além disso, os altos índices de desemprego e a menor oferta de crédito no mercado têm deixado os consumidores receosos em comprar um carro novo –  o que acaba beneficiando a manutenção de veículos. 

A receita para a criação do Canal da Peça estava completa: crescimento, complexidade e oportunidade durante a crise. 

CYMROT, FUNDADOR DO CANAL DA PEÇA

NOVOS MERCADOS

A plataforma de compra e venda de peças de veículos começou a operar em julho de 2013 –  e se tornou a primeira especializada nesse nicho no Brasil.

Para viabilizar o projeto, os sócios começaram a procurar investidores. Os primeiros foram justamente os antigos chefes de Cymrot e Dias.

O Canal da Peça une três pontas da cadeia de autopeças: a indústria, o vendedor (varejo ou distribuidor) e o comprador (oficinas ou o consumidor final).

A empresa fatura toda vez que uma peça é comercializada dentro do site. A taxa é de 12% em cima do valor do produto. 

Hoje, o site comercializa apenas peças novas. Mas com a nova lei do desmanche – que regulariza a venda de peças usadas – o site está se adequando para começar a oferecer esses produtos também.  

Outra nova oportunidade que os sócios estão de olho é o mercado latino americano. “Internacionalizar é um passo arriscado, ainda mais para uma empresa que ainda está no começo. Por isso, vamos começar a fazer alguns testes”, afirma Cymrot. “A ideia é primeiro levar a plataforma e depois a operação.”

O site deve ser lançado em outras línguas nos próximos meses, o objetivo é analisar como está demanda por peças nos países vizinhos. Mas foco ainda será o desenvolvimento do marketplace no Brasil. 

Hoje, as vendas na plataforma crescem cerca de 25% ao mês. Mais 700 mil itens estão cadastrados no site. Até o final de 2016, o Canal da Peça quer transacionar R$ 15 milhões em peças – cinco vezes mais do que no ano anterior.