Inovação

O empreendedor que derrotou a Adidas


Kevin Plank, fundador da Under Armour e um dos inovadores mais celebrados das últimas duas décadas, participou de painel na NRF, a maior convenção mundial do varejo, que debateu a convergência cada vez mais inevitável entre lojas físicas e virtuais


  Por Sérgio Teixeira Jr. 20 de Janeiro de 2016 às 08:00

  | Jornalista especializado em tecnologia e negócios, vive em Nova York (EUA)


A história de uma das empresas mais bem-sucedidas dos Estados Unidos das últimas duas décadas começou no vestiário do time de futebol americano da Universidade de Maryland.

Kevin Plank, estudante e integrante da defesa da equipe, era sempre “o cara mais suado do campo”.

Cansado de a cada intervalo ter de trocar a camiseta de algodão que vestia por baixo do uniforme, Plank decidiu investigar materiais que fossem capazes de absorver o suor.

Depois de pesquisar alternativas, ele dirigiu até o bairro das confecções, no meio da ilha de Manhattan, e encomendou o primeiro lote do produto que mudaria para sempre sua vida – e o bilionário mercado global de roupas esportivas.

Plank, na época com 23 anos, distribuiu as primeiras camisetas para seus colegas de time e pediu: “Se você gostar, dê uma para seu companheiro”.

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Feitas de tecido sintético e agarradas ao corpo, as camisetas desenhadas por Plank não ficavam encharcadas de suor, o que aumentava o conforto -- e o desempenho -- dos atletas.

Assim nasceu a Under Armour. Sua primeira venda de porte aconteceu no fim de 1996: 17 000 dólares. Prestes a completar 20 anos, a Under Armour teve receitas de 4 bilhões de dólares em 2015.

Plank não seguiu carreira na liga profissional de futebol americano, mas vários de seus ex-companheiros de equipe chegaram à NFL, e foram eles os primeiros a disseminar os produtos da startup (que na época funcionava no porão da casa de sua avó).

A novidade também caiu nas graças dos grandes times universitários, que têm projeção nacional do país. Não demorou até que as grandes Nike, Rebook e Adidas começassem a prestar atenção e a copiar a inovação da Under Armour. Num curtíssimo resumo, essa é a história de Plank.

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No terceiro dia do Big Show, e um dia depois de a Adidas anunciar a demissão de seu CEO, Plank falou na convenção nacional dos varejistas americanos.

Ele contou um pouco do passado da companhia, mas se concentrou no futuro: a Under Armour, empresa que nasceu com um produto tecnológico, está redobrando sua aposta na inovação. Agora, a palavra de ordem é a vida digital.

A história de Plank, um dos empreendedores mais celebrados das últimas duas décadas, fez parte de um painel sobre a convergência cada vez mais inevitável entre o físico e o virtual. A Under Armour vende produtos, mas seu norte é Connected Fitness.

“As pessoas sabem mais sobre seus carros que sobre sua saúde. Sabem quanto gastam de gasolina, quando precisam trocar de óleo. Mas quem sabe qual é seu tipo sanguíneo? Quantos dias esteve doente no ano passado? Por que não tenho essa informação? Por que ela não está imediatamente disponível?”

O Facebook domina a parte social da sua vida. O LinkedIn, a profissional. A ambição da Under Armour é ser o centro das informações de saúde e forma física, e para isso Plank foi as compras.

A companhia adquiriu três startups. A MapMyFitness e a Endomondo produzem aplicativos para que os esportistas armazenem suas atividades físicas (como corridas, pedaladas e assim por diante).

A MyFitnessPal tem o mais popular app para que as pessoas registrem o que comeram (com contagem de calorias e metas de perda de peso).

Junto com outros aplicativos desenvolvidos internamente, a Under Armour tem 160 milhões de usuários registrados, o que corresponde a um arquivo de 2 bilhões de sessões de exercícios e 8 bilhões de refeições catalogadas – e esse número não para de crescer.

“E o que isso tem a ver com o que fazemos?”, perguntou Plank. Esses dados são valiosíssimos para quem quer movimentar produtos. “Sei não somente o que você comprou, mas que atividade física você fez, como dormiu, o que comeu. Isso nos permite não só vender, mas resolver problemas para nossos clientes.”

A Under Armour fez uma parceria com a SAP, uma das maiores produtoras de software corporativo do mundo, para explorar essa montanha de dados e extrair insights essenciais para continuar crescendo seu negócio.

Segundo Plank, a projeção é que a Under Armour chegue a 7,5 bilhões de dólares de faturamento em 2018.

É claro que a Under Armour não está tentando reinventar a roda. Uma das estratégias centrais da empresa é patrocinar esportistas famosos, como é prática da indústria.

Por enquanto, os atletas  americanos são maioria, mas todos têm altíssimo calibre e são megacelebridades nos Estados Unidos. Entre os garotos propaganda estão o jogador de futebol americano Tom Brady (mais conhecido no Brasil como o marido da supermodelo Gisele Bündchen), Jordan Spieth, golfista que é apontado como o novo Tiger, e Stephen Curry, melhor jogador de basquete do mundo no momento.

A Under Armour também começa a dar os primeiros passos no futebol, o esporte verdadeiramente global. Desde o ano passado a empresa é a fornecedora oficial de uniformes do São Paulo.

Plank terminou sua apresentação mostrando uma foto de três quadros brancos que mantém em sua sala. Estão repletos de frases motivacionais (“Prometa de menos e entregue de mais”, “Caminhe com determinação”).

Uma das frases, porém, em vermelho. “De que adianta fazermos isso tudo: criar sites, patrocinar atletas, realizar eventos? Não podemos nos esquecer que nosso objetivo é um só: vender mais camisetas e mais tênis.”

FOTO: Thinkstock