Inovação

O comércio sobre rodas está pegando


Muito além das refeições, as vans agora percorrem São Paulo vendendo produtos como roupas e prestando serviços, como atendimento a cães e gatos


  Por Thais Ferreira 22 de Setembro de 2015 às 10:58

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Há nove anos, quando a paulistana Fag Brasil começou suas atividades no mercado de veículos adaptados, a maior parte dos pedidos era de modificações de ambulâncias e peruas escolares.

Logo, Gislene Viana, diretora da empresa, percebeu que existia uma demanda ainda pequena, mas crescente de carros personalizados para a comida de rua – uma modalidade de serviço que não era feita pelos seus concorrentes.  

Nessa época, a expressão "Food Trucks" ainda era desconhecida da maioria dos consumidores.

A empresa começou atender esses primeiros pedidos e se tornou especialista em adaptar carros para venda de produtos na rua.

Alguns anos depois, com o incentivo da lei de comida de rua em São Paulo, o número de pedidos começou a aumentar. Hoje, os Food Trucks são responsáveis pelo crescimento da Fag Brasil. “Tivemos de dobrar o número de funcionários para dar conta dos pedidos”, afirma Gislene.

Agora, a empresa percebeu que existe outro nicho para a adaptação de carros: a venda de produtos e serviços em veículos. Pet shops, lojas de roupas e até imobiliárias também ganharam rodas recentemente.

“Esses carros já representam 20% do faturamento total da empresa”, diz Gislene. “Os pedidos de orçamento não pararam de chegar e cresceram 32% nos últimos anos.”

PET SHOP MÓVEL: COMODIDADE PARA OS CLIENTES

DOS PETS ÀS ROUPAS

A empresa de Gislene já personalizou mais de 800 veículos. Alguns deles têm funções bem diferentes, como uma oficina mecânica, um local para realizar exames de raios-X e até uma escola de gastronomia. Tudo dentro de veículos.

Um dos automóveis adaptados foi o da empreendedora Deborah Menezes. Ela teve a ideia de montar um pet shop móvel após ver uma matéria sobre um casal que estava lucrando com essa atividade.

Antes proprietária de uma pizzaria, ela decidiu unir seu amor pelos bichos com uma forma de ganhar dinheiro. Começou a pesquisar mais sobre o tema, estudou o mercado e fez cursos para aprender a dar banhos em animais.

Leia Mais: Food truck é limão para dono de restaurante. Mas pode virar limonada

Após a adaptação do veículo, em junho de 2013, ela começou a circular com PetMóvel Cãobeludo pelas ruas da Granja Viana, no município de Cotia, na grande São Paulo.

Desde o começou o negócio, Deborah atende cães e gatos apenas com horário marcado. “Ofereço um serviço diferenciado. Vou até a casa do cliente e atendo um animal por vez, por isso eles não ficam estressados dentro de gaiolas", afirma Deborah. "Além disso, os donos podem acompanhar todo trabalho.” 

Por essas comodidades, a empreendedora pode cobrar um pouco mais pelos seus serviços, mas também tem custos mais elevados. “Tem muitas vantagens em ter uma empresa móvel, principalmente porque na região onde atuo não há pet shops próximos.”

Assim como Deborah, empresas de maior porte também estão de olho nas oportunidades dos negócios móveis. A empresa Olook, e-commerce que vende roupas, sapatos e acessórios femininos, montou seu próprio showroom dentro de um veículo.

Na Kombi 1968 adaptada, os clientes conhecem os produtos da loja online e podem finalizar a compra pelo site por meio de tabletes que ficam disponíveis. Os artigos escolhidos são entregues na casa do consumidor.

Para circular pelas ruas esburacadas de São Paulo, André Beisert, cofundador da marca, optou por deixar manter a estrutura da Kombi quase intacta e fez prateleiras para apoiar os produtos: o investimento foi 60 mil reais.
 

CARRO PERSONALIZADO PARA PET SHOP: ENTRE R$ 50 E 70 MIL

OPORTUNIDADES

De acordo com Wilson Borges, consultor do Sebrae-SP, ainda há muito espaço para quem quer abrir seu próprio negócio sobre rodas. Mas antes de encomendar o veículo, o empreendedor deve ficar atento às leis regionais.

 “Cada cidade tem seu próprio regulamento sobre o comércio itinerante e que depende, também, do tipo de atividade que será exercida”, afirma Borges. “O conselho de medicina veterinária, por exemplo, tem suas próprias resoluções para os pet shops móveis. Por isso, é fundamental pesquisar antes de abrir o negócio.”

De acordo com o consultor, o comércio em veículos oferece vantagens para os empreendedores. O principal é fugir dos altos preços dos aluguéis nos pontos comerciais das grandes cidades. Há também custos reduzidos com a água e energia elétrica.  

Mas nem tudo são flores. Os veículos têm outros gastos que devem ser considerados, como preço do combustível e o desgaste de peças do veículo. Há, além disso,  fatores que podem prejudicar o andamento do trabalho, como o trânsito e questões climáticas.

Uma orientação importante é escolher uma boa empresa para fazer a adaptação do veículo. “O custo da personalização de um carro é alto e o retorno nem sempre é rápido”, afirma Deborah. 

Para lojas itinerantes, Borges acredita que é importante ter um serviço de geolocalização que avise aos clientes em qual região o veículo se encontra. “Como não há ponto fixo, isso ajuda a fidelizar os clientes”, afirma Borges.

Outra forma é ter algumas regiões fixas de circulação para cada dia da semana para que as pessoas encontrem o veículo mais facilmente.

Segundo o consultor do Sebrae-SP, a principal recomendação é ter um plano de negócios e uma estratégia bem definida. “Apenas estar num veículo não faz nenhuma empresa dar certo”, afirma Borges. “Um comércio dentro de um automóvel pode até despertar a curiosidade das pessoas. Mas é preciso que os produtos tenham um diferencial e que o serviço tenha algum valor agregado como em qualquer negócio.”

* Foto: Divulgação