Inovação

O céu é o limite para Jeff Bezos, criador da Amazon?


Terceiro homem mais rico do planeta, ele usa sua fortuna para tentar reinventar a imprensa e se envolve com exploração espacial. O mercado espera para ver quanta transformação Bezos ainda será capaz de promover


  Por Inês Godinho 30 de Setembro de 2016 às 08:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


A Amazon comemora 22 anos em 2017. Nesse período, a companhia saiu da posição de simples pioneira do comércio online de livros para invadir o terreiro de três gigantes.

Tornou-se um concorrente implacável do Walmart no varejo, briga com a Apple na criação de gadgets e enfrenta o Google na computação em nuvem. 

Quando se fala em Amazon, está se falando no americano Jeff Bezos. Fundador e presidente da companhia, o empreendedor coleciona títulos mundiais à frente do crescimento espantoso da loja virtual, identificada com inovações disruptivas que transformaram o mercado. 

Bezos liderou rankings globais de melhores CEOs em 2012 e 2013 e se tornou a terceira pessoa mais rica do mundo em 2016, com uma fortuna avaliada em US$ 69 bilhões em ações da varejista online. 

Em paralelo, a Amazon ocupou a sétima colocação entre as marcas mais valiosas e a quarta posição entre as companhias mais admiradas no mundo este ano.

Mas nem tudo é reverência. Bezos já recebeu, em 2014, o título de “o pior patrão do mundo”, dado pelos sindicalistas da Confederação Internacional de Sindicatos (CSI). 

Ele também foi o personagem principal de uma devastadora reportagem do New York Times sobre a Amazon. Depoimentos de mais de 100 atuais e ex-funcionários mostram um cenário de pressão extrema e até maus tratos para o cumprimento de metas. A reportagem também aborda o comportamento agressivo do empresário. 

DURO E ENGAJADO

Líderes explosivos e exigentes não são novidade entre os gênios da indústria de TI. Há inúmeras histórias, retratadas em reportagens, livros e até filmes, sobre as arbitrariedades e chiliques de Steve Jobs, da Apple, Elen Musk, da Tesla, e Bill Gates, da Microsoft, contra suas equipes, fornecedores e concorrentes. 
 
Sobre Bezos, as informações dão conta de que, além de tudo isso, a Amazon não seria um bom lugar para trabalhar.

Parece que a incoerência faz parte também da biografia de Bezos, hoje com 52 anos. Ao mesmo tempo em que procura transformar seus 180 mil funcionários em máquinas de trabalho, para construir uma das empresas mais inovadoras e rentáveis do planeta, o magnata investe a fundo perdido em projetos que considera de interesse da sociedade.

Usando sua fortuna pessoal, Bezos comprou o lendário jornal americano Washington Post para ajudar a testar novos caminhos contra a profunda crise vivida pelo jornalismo.

PROTÓTIPO DO FOGUETE QUE BEZOS LEVOU AO ESPAÇO

Ele também participa e financia uma organização de megaempresários dedicada a fortalecer o avanço da energia limpa. 

Para contribuir para o "futuro da humanidade”, criou a Blue Origen, uma fabricante de foguetes espaciais, também com o próprio dinheiro.

 PAIXÃO PELOS FOGUETES

O entusiasmo pelos veículos interplanetários e pela perspectiva de exploração espacial parece ser o novo hobby dos bilionários americanos, como se vê também em Musk com sua Space X, e o inglês Richard Branson, com a Virgin Galactic.

Claro, trata-se de uma atividade com todas as chances de vir a ser um grande negócio.

A paixão de Bezos pelo assunto vem da infância, influenciada pelo avô materno, um pesquisador especializado em foguetes. No rancho da família, o menino teve oportunidades de sobra para se exercitar em mecânica e tecnologia aeroespacial. 

Criar inovação disruptiva e destruir mercados não são as únicas coincidências nas biografias de Bezos e Steve Jobs. Estranhamente, eles compartilham uma condição parecida na infância.

Criado pela mãe adolescente e pelos avós, o dono da Amazon, assim como Jobs, também não conheceu o pai. Ele foi adotado aos 4 anos pelo marido da mãe, um engenheiro cubano radicado nos Estados Unidos.

Mesmo tendo estudado em uma escola para superdotados e sido um devorador de livros na adolescência, não seguiu a trajetória dos autodidatas do Vale do Silício.

Formou-se com louvor em Princeton, em ciência da computação e engenharia eletrônica, e seguiu uma bem-sucedida carreira no mercado financeiro antes de arriscar todas as fichas na invenção do ecommerce. Já não era um garoto quando criou a Amazon em 1995, com a mulher Mackenzie.

FRUGALIDADE

A cultura espartana da Amazon, mantida até hoje, reflete a própria sobriedade da vida de Bezos. Ao contrário de tantos bilionários cintilantes, ele pode ser visto como um sujeito frugal. Tem um casamento estável, quatro filhos, nenhum escândalo, não exibe a riqueza, não badala.
 
No início da Amazon, Bezos e a mulher despachavam pessoalmente as encomendas de livros, instalados em um imóvel de aluguel quase simbólico.

Por oito anos, ele reinvestiu todo o lucro do empreendimento no próprio negócio, inabalável à pressão dos investidores que queriam ver logo o retorno do capital. 

O resquício desse desprendimento aparece nas cobranças duras a funcionários que hesitam em pôr a mão na massa no dia a dia. Também pode ser visto nos procedimentos da Amazon – não há comida grátis, nem áreas de jogos ou relaxamento, nem decoração descolada. Viajar na classe executiva, nem pensar.

Trabalhando em um setor com margens estreitas, com um modelo de negócio baseado na escala, o magnata faz valer cada centavo faturado.

Bezos não esconde que seu grande inspirador foi Sam Walton e o princípio do preço baixo todos os dias, que fez o sucesso do Walmart. Hoje, é a rede varejista que faz benchmark com a Amazon para se manter antenada no comércio digital. 

CRESCIMENTO EXPONENCIAL

O resultado da gestão Bezos aparece no desempenho da Amazon. Em 20 anos, desde o lançamento na bolsa, em 1997, as ações da companhia alcançaram um retorno superior a 150 vezes o valor investido. O crescimento anual continua acima dos dois dígitos.

Os negócios de varejo, no entanto, não carregam sozinhos o lucro da empresa. Uma das premonições de Bezos, a expansão da hospedagem em nuvem, resultou na criação da Amazon Web Services, atualmente um concorrente do Google entre os clientes corporativos. 

Enquanto a lucratividade da loja online gira em torno de 3%, a nova empresa traz lucros de 25%, com mais de US$ 2 bilhões em receitas. E pensar que tudo começou de forma despretensiosa, como uma maneira de aproveitar a capacidade ociosa da varejista.

OLHAR INOVADOR

Veja as façanhas de Bezos e o que faz a diferença da Amazon:

*A gestão da companhia, no modelo desenhado pelo empreendedor, se faz a partir da captura de todos os números e dados importantes para o negócio.

Isso vale para medir tanto os clientes quanto os funcionários. O método está tão entranhado na vida corporativa, que muitos reconhecem que a medição os fez expandir limites e ficar "viciados" nos resultados. 

*O bilionário não gosta de Power Point. Faz questão que seus executivos descrevam por escrito seus projetos. A narrativa, para ele, ajuda a pensar mais profundamente.

 *Grande parte do sucesso inicial da Amazon se deve a um mecanismo que simplificou a compra online. Patenteado por Bezos, a tecnologia One click buy (compra com um só clique) garantiu anos de vantagem competitiva para a varejista. 

*Com uma estratégia toda voltada para o cliente, o bilionário desenvolveu as tecnologias que permitem recomendar produtos segundo comportamento anterior de compra ou busca. O sistema se tornou o coração do comércio eletrônico atual.

*Para entender e atender o cliente, a Amazon investiu em uma cultura voltada para ouvi-lo atentamente. O próprio Bezos lê mensagens de reclamação e já mudou processos em função delas, além de exigir esclarecimento imediato de executivos e funcionários.

*Com o lançamento da Amazon Web Services, a companhia foi a primeira a formatar como um negócio o serviço de computação na nuvem.

LANÇAMENTO DO LEITOR DIGITAL KINDLE

*O lançamento do leitor digital Kindle tornou-se o marco inaugural do mercado de livros eletrônicos, em 2007. Bezos pretendia trazer para este mercado o conceito criado por Jobs com o iTunes. Destinado a estimular o download de livros, o leitor digital foi posicionado não como um produto, mas um serviço.
 
*Para encurtar o prazo de distribuição, a Amazon colocou em teste um projeto de entrega de produtos feita por drones. 

SEM FRONTEIRAS

A fé depositada por Jeff Bezos no poder transformador da tecnologia faz dele um empresário que não se deixa limitar pelo mercado conquistado.

Além de reinvestir os lucros da Amazon na ampliação permanente do negócio, dedicou muito dinheiro do próprio patrimônio a campos inesperados. 

Em 2013, pagou US$ 250 milhões pelo jornal Washington Post, um dos bastiões da imprensa americana. Fez isso em um momento em que os meios de comunicação em papel esgotavam as tentativas de impedir a decadência do modelo. 

Preocupado com o futuro do jornalismo, explicou seu gesto como um esforço para garantir tempo para que as experimentações com as novas mídias cheguem a uma solução viável para retomar a importância da imprensa para a sociedade. 

Contrariando o seu estilo discreto, recentemente veio a público quando se tornou alvo dos ataques do candidato republicano Donald Trump por sua ligação com o jornal. Respondeu com uma elegante defesa da liberdade de imprensa.

O segundo negócio também mira o futuro e, segundo ele, a sociedade. No entanto, tem outra magnitude, em intenção e em investimentos.

Trata-se da Blue Origin, uma fábrica de foguetes espaciais. Criada em 2000, vinha sendo desenvolvida sem alardes até este ano. 

A razão para que a indústria aeroespacial desperte o interesse de tanta gente na iniciativa privada se deve, primeiro, à quantidade de recursos que esses bilionários passaram a dispor.

E, em segundo lugar, eles entraram no negócio para torná-lo mais produtivo e rentável, apostando em foguetes reutilizáveis e capazes de pousar de pé.

No fundo, entretanto, parece a retomada de sonhos de criança. Os três empresários mais conhecidos que se dedicam à aventura espacial – Bezos, Musk e Branson - confessam uma paixão que vem da infância.

"Eu nunca imaginei que teria recursos para começar uma empresa aeroespacial”, explicou o dono da Amazon recentemente. “Ganhei um bilhete de loteria chamado Amazon.com."

A princípio, suas naves serão voltadas para o turismo espacial. Se tudo der certo com os testes, a Blue Origin pretende levar turistas em viagens de curta duração em 2018. De repente, uma viagem tripulada a outros planetas, que parecia ainda tão distante no tempo, ganhou viabilidade.

INCOERÊNCIA

Não parece tratar-se da mesma pessoa. Jornalistas americanos especializados em TI, que conhecem Bezos de longa data, descrevem o magnata como alguém charmoso e bem humorado em público na mesma medida em que é capaz de passar dos limites entre quatro paredes.

Funcionários, fornecedores e concorrentes são os que mais têm histórias para contar. É bem conhecida a mão pesada com que ele conduz negociações para oferecer preços mais baixos do que os da concorrência.
 
Para muitos funcionários, a reportagem do New York Times sobre o ambiente ruim na Amazon representou uma catarse. O jornal enfatizou relatos sobre trabalho exaustivo, mesmo à noite e nas férias, metas inalcançáveis e críticas pesadas dos chefes.

Causou consternação especial as histórias sobre o tratamento dispensado a funcionários doentes, sobretudo no caso de mulheres.

Bezos respondeu ao jornal com uma negação e alguma ironia. “Acredito piamente que só alguém louco continuaria trabalhando em uma empresa como a que foi descrita no NYT”, dizia em nota à imprensa. “Eu com certeza sairia de uma empresa assim”.

Ele pediu a todos os 180 mil funcionários para que lessem o artigo, com a esperança de que não reconhecessem a empresa descrita.

A explicação para essa incoerência pode estar em uma frase que costuma ser repetida pelo empreendedor em discursos e artigos: “É mais difícil ser amável do que inteligente”.

FOTO DE ABERTURA: Steve Jurvetson/Creative Commons