Inovação

Nem apenas férias, nem só trabalho


Conheça o workation, uma prática que promete trazer qualidade de vida para os funcionários e aumento de produtividade


  Por Thais Ferreira 23 de Fevereiro de 2016 às 09:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Em dezembro de 2015, a empresa paulistana Loja Integrada – que cria e-commerces para pequenos negócios – alugou um imóvel no Guarujá, no litoral do estado de São Paulo, pelo site Airbnb.

Os 18 funcionários desceram a serra e permaneceram no local por uma semana. Essa não foi apenas uma viagem de negócios. A ideia era unir trabalho com diversão. A equipe acordava cedo realizava suas tarefas. Após o final do expediente, eles aproveitavam a praia.

Quando começou esse projeto, Adriano Caetano, diretor da empresa, nunca tinha escutado a palavra workcation – expressão que une dois termos da língua inglesa: work (trabalho) e vacation (férias) –, mas era isso o que estava realizando na Loja Integrada.

A prática já é utilizada por algumas empresas nos Estados Unidos, onde as férias não são garantidas por lei. Geralmente, um funcionário vai viajar durante um período, mas não deixa de exercer suas funções. 

Não é apenas checar os e-mails ou fazer algumas ligações, mas continuar trabalhado enquanto aproveita para conhecer outros lugares e sair da rotina.

No Uber, plataforma que organiza caronas, o workcation é recorrente.

Durante alguns dias, um grupo de 10 a 15 funcionários permanece em casas alugadas em cidades como Estocolmo ou Melbourne.

Nesse período, os membros da equipe comem, dormem, trabalham e se divertem juntos. Mas a prática também pode acontecer de forma individual, quando uma pessoa quer viajar com a família ou amigos.

Nos Estados Unidos, o workcation faz sentido por causa da cultura empresarial: muitos funcionários se sentem culpados por tirar férias e temem o acumulo de trabalho ou a demissão no retorno.

De acordo com uma pesquisa realizada pela U.S. Travel Association’s Project, os americanos estão reduzindo o número de dias em que ficam afastados: em 2000, a média era de 20, 9 dias. Treze anos depois, o número caiu para 16. 

A JOVEM EQUIPE DA LOJA INTEGRADA

O CASO BRASILEIRO

No Brasil, a empresa que adotou o workcation conseguiu notar resultados positivos: maior produtividade, comprometimento e criatividade. Mas tudo começou como uma forma de reter jovens talentos.

A média de idade da Loja Integrada é de 25 anos, o mais velho tem apenas 35. “Essa nova geração preza pelo bem estar”, afirma Caetano.

Além da viagem descrita acima, a empresa também estimula que os funcionários trabalhem fora do escritório. Alguns realizam suas atividades de outras cidades, como Natal e Rio de Janeiro.

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Os períodos de workcation são contatos como dias trabalhados normalmente e não são descontados das férias previstas em lei.  Durante os 30 dias em que o funcionário está ausente, a empresa incentiva que se eles desconectem totalmente de suas funções e que realmente aproveitem o tempo unicamente para diversão.

Toda sexta-feira a equipe da Loja Integrada adota a biblioteca do Parque Villa Lobos, na Zona Oeste da cidade, como escritório. Antes ou depois do horário comercial, os funcionários aproveitam para andar de skate e de bicicleta ou aproveitar as áreas verdes.

Um dos principais benefícios citados pelo diretor da empresa é o fortalecimento das amizades e da união da equipe, o que proporciona um trabalho mais integrado e com melhores resultados.  

Mas essas liberdades não aconteceram da noite e para o dia. Caetano afirma que o processo foi gradativo. O primeiro passo foi a troca dos computadores do formato desktop para laptops. Dessa forma, os funcionários ganharam autonomia para trabalhar em lugares alternativos, como cafés ou em casa.

Como cada setor da empresa tem metas a cumprir, é fácil saber quem não se adapta a esse sistema.

Para os próximos anos, Caetano tem planos ainda mais ousados. Ele pretende abolir de vez a obrigação de comparecer no escritório. A sede da empresa deve mudar para um coworking e a presença dos funcionários seria facultativa.  

“Geralmente, as pessoas passam 11 meses sofrendo e apenas um realmente vivendo. Queremos que os nossos funcionários vivam os 12 meses plenamente”, diz Caetano. “O workcation é possível porque confio na minha equipe”

O diretor da Loja Integrada acredita que o modelo pode ser adaptado para qualquer empresa em que o trabalho remoto é possível. Mas desaconselha a prática para os gestores que têm um perfil centralizador ou para aqueles que gostam de acompanhar de perto tudo o que está acontecendo.

ADRIANO CAETANO: "CONFIO NA MINHA EQUIPE"

IMPLICAÇÕES JURÍDICAS

De acordo com Paulo Prandini, advogado trabalhista, as empresas que quiserem adotar o workcation devem ser cuidadosas. “É arriscado porque é difícil controlar a quantidade de horas trabalhadas”, afirma Prandini. “Qualquer ligações ou troca de mensagens fora do horário do expediente pode ser caracterizado futuramente como horas extras ou regime de plantão.”

O especialista recomenda que sejam instalados softwares nos laptops que registrem ao horário do ínicio e do fim das atividades.

Além disso, o advogado adverte que em hipótese nenhuma o workcation poderá substituir as férias previstas pela lei trabalhista.A cada 12 meses, o funcionário tem direito a 30 dias de descanso e apenas um terço pode convertido em dinheiro.

Foto: Thinkstock