Inovação

De entregador de pizzas a empresário da saúde


Inspirado em um modelo americano de clínica, o paulistano Guilherme Berardo comanda a rede de atendimento Dr. Agora, instalada em estações do metrô


  Por Wladimir Miranda 14 de Julho de 2016 às 13:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Assim que atingiu a maioridade, Guilherme Berardo fez as malas e seguiu para os Estados Unidos. O destino: San Diego, na Califórnia. Filho de pai executivo da Alcoa, uma das maiores produtoras de alumínio no mundo, o espírito aventureiro de Guilherme começava a aflorar.

“Eu queria criar coisas, ver prosperar um grande empreendimento”, afirma. Hoje, aos 36 anos, Guilherme é empresário do setor de saúde. É diretor executivo da Dr. Agora, rede de postos de atendimento médico, que começam a chamar atenção em algumas estações do metrô.

Nos Estados Unidos, enquanto cursava a faculdade de Administração de Empresas, Guilherme foi entregador de pizzas, de comidas para empresas, pizzaiolo e manobrista de casas noturnas.

Depois, já formado, foi trabalhar em bancos e no mercado financeiro. O paulistano do Morumbi, e que também morou na Vila Mariana, porém, queria alçar voos mais altos. 'O que fazer para ganhar dinheiro?', pensou. A imagem de um tio, já falecido, que trabalhava com saúde veio rapidamente à memória.

“Ele sempre me dizia que tinha muita satisfação em poder ajudar as pessoas doentes. Era médico, um excelente médico”, afirma.

E foi lá mesmo nos Estados Unidos que Guilherme viu no setor de saúde a chance que procurava para prosperar e, além disso, seguir os passos do tio Alfredo. “Ganhar dinheiro é uma consequência. O fundamental é que eu trabalho com o que gosto”, disse.

Outro negócio na área da saúde no qual Guilherme e outros dois sócios decidiram investir é o sistema de hospitais de transição.

Trata-se de hospitais de longa permanência, bastante comuns nos Estados Unidos. Guilherme é sócio do Premium Care, hospital localizado na Bela Vista, região central de São Paulo. Para lá são levados os doentes que recebem alta, mas que ainda não têm condições de serem tratados em casa.

É aí que surge o Premium Care. São chamados de hospitais de transição, com estrutura suficiente para dar ao paciente plenas condições de atendimento. 

"Entrei neste negócio há dois anos com mais dois sócios. Investimos R$ 100 mil reais cada um. Esperamos um retorno de R$ 5 milhões para os próximos cinco anos", afirma.

A rede Dr. Agora também foi inspirada em um modelo de grande aceitação nos Estados Unidos, a Minute Clinic, idealizada pelo americano Rick Krieger.

“Trata-se de um resgaste do ‘médico de família’, com atendimento de qualidade, em locais de fácil acesso à população e a um preço atraente”, afirma.

São cinco unidades da Dr. Agora. Estão localizadas nas estações do metrô Sé, Santana, Brás, na estação da CPTM da Vila Olímpia e na Av. Giovanni Gronchi, na Vila Andrade, ambas na Zona Sul.

INSPIRAÇÃO AMERICANA

Guilherme e outros cinco sócios investiram R$ 5 milhões nas cinco unidades da Dr. Agora. Não faz previsão de quando o investimento feito começará a ter retorno financeiro

“É um conceito americano de atendimento médico. Nos Estados Unidos, existem 3 mil unidades com estas mesmas características. Aqui no Brasil esta modalidade ainda é pouco conhecida. Por isto temos de ter calma”, afirma.

São 22 médicos à disposição da população nas cinco unidades. O funcionamento vai das 8hs da manhã, às 22hs, nas estações de maior movimento, como a de Santana e da Sé, e das 8hs às 20hs nos demais postos.

“Estamos conseguindo humanizar o atendimento. Nossos médicos são orientados a dar uma atenção especial aos pacientes. Sabemos que muitas pessoas, principalmente as mais idosas, muitas vezes procuram um médico em busca de acolhimento, de diálogo”, afirma Guilherme.

São consultas com clínico-geral, sem necessidade de agendamento prévio. Funciona como uma alternativa para o atendimento no pronto-socorro.

O Dr. Agora só atende pacientes com mais de 12 anos, com quadros de amigdalite, conjuntivite, sinusite, gripe, diarreia aguda, resfriado, rinite, infecção urinária e otite externa.

NO INTERIOR DE UM CONSULTÓRIO

É importante observar que o atendimento é feito por médicos formados. Ao contrário dos Estados Unidos, onde as consultas podem ser feitas até por enfermeiros, prática que não é permitida no Brasil.

Com o desemprego, houve um aumento de 30% no número de pessoas que, de um ano para cá, junto com o emprego, perderam também o plano de saúde. O SUS – Sistema Único de Saúde _, do Governo Federal, poderia ser uma boa alternativa para a população sem emprego e sem plano de saúde privado.

O problema é que o serviço médico de saúde é falho. O SUS é amplo, opera no país inteiro, mas tem enormes problemas de gestão. Mal administrado na maioria de suas unidades, o SUS não cumpre a sua função de atender a população e abre espaços para iniciativas como a Dr. Agora.

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A consulta no Dr. Agora custa R$ 89,00 e há também a possibilidade de acesso a uma série de vacinas, contra a gripe, HPV, meningite, hepatites, sarampo, caxumba, rubéola, catapora, tétano e pneumonia. Os preços variam de acordo com o tipo de vacina. 

POSTO DE ATENDIMENTO GIOVANNI GRONCHI

Por ser um negócio comercial como os outros, embora tenha a saúde da população como objetivo principal, A Dr. Agora não goza de nenhum privilégio dado pela Cia do Metropolitano de São Paulo para operar em suas estações.

Berardo e seus sócios pagam aluguéis e disputam espaço com comerciantes do ramo alimentício, telefonia celular, vestuário, calçados e com lojas que vendem passagens aéreas e pacotes de turismo.

De acordo com a Secretaria de Transportes Metropolitanos, a locação de um quiosque nos mesmos moldes dos utilizados pelo Dr. Agora custa R$ 702 mensais o metro quadrado, tendo como referência uma estação de grande movimentação de usuários, como a Sé.

POSTO DA VILA OLÍMPIA

POLÊMICA

Para o médico Lavinio Nilton Camarim, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cresmesp), serviços de atendimento médico como a rede Dr. Agora devem ser bem analisados.

“Se esta modalidade de atendimento médico chegou ao mercado para ajudar, que seja bem-vinda. A pergunta que faço é se estas empresas estão registradas no Cremesp. Eu posso afirmar que não”, afirma.

Berardo contesta. Documentos enviados ao Diário do Comércio comprovam a inscrição no Cremesp, desde maio de 2015, da RC Clínica Médica, a marca legal da empresa. Dr.Agora é um nome fantasia.

Outra questão levantada pelo médico do Cremesp é sobre a finalidade destas empresas.

“Se estas redes foram abertas para, como dizem seus proprietários, atender às classes C e D, e preencher uma demanda do mercado, eu pergunto: por que não atender também à classe E. Não atende às camadas mais pobres por que elas não têm dinheiro para pagar? É isto? Se for isto, está errado”, disse.

"Como um conselho de classe, entendo que o Cremesp deveria encorajar empresas desta natureza, que trazem mais acesso de qualidade à saúde", diz o empresário. "Não somos uma organização sem fins lucrativos e devemos trazer resultados financeiros para nossos investidores, isso nos permite crescer e trazer ainda mais acesso ao público."

Outra ressalva feita pelo Dr. Lavinio é em relação ao modo de operar da Dr. Agora.

“Pelo que sei, estas redes de atendimento rápido só atendem pacientes com problemas que não sejam ‘muito graves’, como dor de cabeça, por exemplo. Só que uma dor de cabeça pode não ser um problema simples. Uma dor de cabeça pode ser sintoma de um aneurisma cerebral, um traumatismo, enfim, é preciso muito cuidado”, disse.

Berardo concorda que uma dor de cabeça pode com certeza ser um sintoma de uma doença mais grave. E responde:

"Temos um corpo clínico experiente e capaz de diferenciar estas situações e, se necessário, fazer o encaminhamento para o serviço especifico adequado. Atendemos todos os casos de clínica médica no modelo medicina de família. Estamos baseados em protocolos clínicos e diretrizes; entregamos um modelo de prescrição médica (SOAP) para nossos pacientes, o que poucas empresas de saúde fazem. Isto traz segurança clínica e constrói um excelente histórico do paciente".