Inovação

Como uma companhia tricentenária busca novidades


Apontada como uma das cem empresas mais inovadoras do mundo, a Saint-Gobain, fabricante de materiais de construção, investe em parcerias com startups e promove competições para jovens desenvolvedores


  Por Italo Rufino 04 de Novembro de 2016 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Fundada em 1665, a Manufatura Real de Vidros teve origem no reinado francês de Louis XIV. A empresa desenvolveu um procedimento inovador para a época, que envolvia derramamento de vidro líquido sobre uma mesa de metal.

Sua principal unidade fabril localizava-se em um pequeno vilarejo no nordeste da França, do qual se apropriou do nome: Saint-Gobain.

Mais de 350 depois, a companhia, que produz e distribui materiais de construção, atualiza seus negócios para a era das transformações digitais. Em um mercado competitivo, a busca por inovação é a chave para a perenidade.

Em 2015, a Saint-Gobain figurou, pelo quinto ano consecutivo, na lista das cem empresas mais inovadoras do planeta feita pela Thomson Reuters.

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De acordo com Fabiano Sant’Ana, diretor de estratégia digital (CDO) da Saint-Gobain na Argentina, Brasil e Chile, para se manter relevante, uma empresa precisa se antecipar as ameaças. E como fazer isso?

Primeiro é necessário que a alta liderança da organização perceba a necessidade de olhar para fora da empresa e debater rupturas em busca da cultura da inovação.

Depois, é preciso se posicionar à frente do mercado, identificar mudanças e acompanhá-las com agilidade – um desafio ainda maior para uma multinacional com processos rígidos de governança corporativa e que atua num setor conservador.

Uma estratégia da companhia foi adotar práticas de inovação aberta, que consiste em criar relações de cooperação com universidades, institutos de pesquisa, fornecedores e clientes para encontrar novas oportunidade de negócios e solucionar desafios que podem ter impacto na empresa e em seu mercado. 

A empresa também tem se dedicado a explorar inovações digitais para entregar valor aos clientes, profissionais da construção e indústrias, e melhorar a experiência dos usuários finais, indivíduos que usufruem dos produtos em suas residências, empresas e meios de transporte. 

PARTICIPAÇÃO EM COWORKING 

Há poucos meses, a Saint-Gobain inaugurou um espaço próprio no Cubo, coworking que abriga startups e fomenta o empreendedorismo tecnológico. O ambiente foi criado há um ano pelo Banco Itaú e Redpoint eEventures, empresa de capital de risco. 

SANT'ANA: PARA A INOVAÇÃO ACONTECER, NÃO PODE EXISTIR LIMITAÇÃO DE PENSAMENTO

A presença da Saint-Gobain no Cubo visa estreitar a colaboração com startups para realizar projetos em conjunto, com o objetivo de aprimorar processos internos e melhorar a experiência dos consumidores. 

A cada dia da semana, um executivo da Saint-Gobain troca o escritório da empresa pelo coworking – e trabalha junto com os empreendedores. Mais de 200 profissionais já visitaram o espaço e participaram de workshops, palestras e mentorias. 

“Trabalhar ao lado de empreendedores nos desperta  para a cultura de agilidade típica das startups”, afirma Sant'Ana. 

Recentemente, uma startup do Cubo desenvolveu um sistema de busca para o sistema de BI de análise financeira da divisão Performance Plastics da Saint-Gobain. 

A nova ferramenta consiste em uma interface intuitiva similar ao buscador do Google, em que executivos digitam perguntas, como “qual foi o volume de vendas de ontem” ou “qual cliente mais comprou durante a semana”. Instantaneamente, o sistema apresenta números e gráficos com informações detalhadas.

Antes desse sistema, os executivos precisavam abrir diversas telas para acessar diferentes bases de dados. 

Por ser um espaço aberto, qualquer empresa pode participar das atividades do Cubo, até mesmo concorrentes. Segundo Sant’Ana, para a inovação acontecer não pode haver limitação ou exclusividade de pensamento. 

“É interessante fazer associações com pessoas que estão fora do negócio”, afirma. “Elas podem identificar oportunidades e soluções que nós, focados na nossa área de atuação, podemos não enxergar no dia a dia”. 

Além do Cubo, a Saint-Gobain atua em parceria com as aceleradoras Plug and Play e ACE, o que permite acesso a uma rede com cerca de 450 startups. 

Recentemente, a Saint-Gobain começou a usar os serviços da startup Talk Inc, que realiza pesquisas de mercado por meio do Google Hangouts, aplicativo de conversa online.

O serviço é uma alternativa às pesquisas tradicionais, como focus group, mais caras e demoradas.  

Uma das pesquisas permitiu identificar que o consumidor tinha muita "dor de cabeça" por não contar com sites ou ferramentas digitais que servissem como guia para ajudar no planejamento e acompanhamento de uma obra e para fornecer orientações sobre materiais e contatos com profissionais da construção.

A Saint-Gobain também possui uma unidade, chamada Nova External Venturing, dedicada a identificar e avaliar parcerias e investimentos em startups.

Globalmente, cerca de 65 startups já foram selecionadas para projetos de codesenvolvimento, investimentos e joint-ventures. No Brasil, a Nova ainda não realizou investimentos. 

VENCEDORES DO HACKATHON: SOLUÇÕES PARA DESAFIOS DE DIFERENTES MARCAS DO GRUPO

REALIZAÇÃO DE HACKATHON 

Hackathons são encontros intensivos em que uma empresa propõe desafios tecnológicos que devem ser solucionados por desenvolvedores em poucos dias. Em setembro passado, a Saint-Gobain realizou o seu primeiro hackathon. 

Realizado no Cubo, o encontro durou três dias e reuniu 50 pessoas, grande parte jovens estudantes, que formaram dez equipes incumbidas de propor soluções para desafios de diferentes marcas do grupo. 

Para a Telhanorte, rede de varejo, o desafio foi melhorar a experiência do cliente durante o recebimento de produtos.

Para a Cebrace, que produz vidros, os desenvolvedores deveriam propor soluções em tour virtuais em obras com fachadas e estéticas arquitetônicas em que os vidros da marca são usados. 

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Durante o evento, os participantes desenvolveram protótipos de produtos e receberam mentoria de mais de 100 profissionais da Saint-Gobain. Depois, apresentaram pitchs de cinco minutos sobre as soluções. 

Um dos projetos permite que o consumidor crie listas digitais de compras de materiais de construção no site da Saint-Gobain.

Com o auxílio de um software de comparação de preços, o consumidor descobre qual o preço médio dos produtos no mercado e estima um orçamento.

Posteriormente, é possível mensurar o quanto do orçamento já foi concluído e o prazo de término da obra. O projeto deve ser lançado para o público entre fevereiro e março de 2017. 

A equipe vencedora do hackathon ganhou uma viagem para Paris para participar da edição mundial, que será realizada em dezembro. 

CENTRO DE INOVAÇÃO DA SAINT-GOBAIN: INVESTIMENTO DE R$ 55 MILHÕES

INVESTIMENTO EM PESQUISA E DESENVOLVIMENTO 

Em abril, a Saint-Gobain inaugurou um centro de pesquisa e desenvolvimento em Capivari, no interior paulista.

Com investimento de 55 milhões de reais, a unidade é responsável pelo desenvolvimento de materiais de construção de alto desempenho e novas aplicações industriais. 

Divididos em duas equipes, 15 funcionários atuam dedicados exclusivamente à inovação. Um grupo é especializado em explorar a composição química, estrutura e propriedades físicas de diferentes materiais. 

O segundo time é voltado para o desenvolvimento de sistemas construtivos e estudos de eficiência energética, impacto ambiental e conforto dos usuários. 

O centro de Capivari é o oitavo núcleo de P&D da Saint-Gobain no mundo. Globalmente, a empresa destina 450 milhões de euro para inovação – entre 5 e 10% das receitas. Seu faturamento no Brasil atingiu 8,7 bilhões de reais em 2015. 

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A cada ano, a empresa registra mais de 350 registros de patentes. Atualmente, 25% dos produtos vendidos pela empresa foram desenvolvidos há menos de cinco anos. 

Em 2015, a marca Brasilit, por exemplo, lançou a telha TopComfort, que ajuda a diminuir a temperatura interna das habitações em até 4ºC – uma resposta a demanda do brasileiro por soluções ao clima quente. 

No dia da inauguração, Thierry Fournier, presidente da Saint-Gobain para o Brasil, Argentina e Chile, afirmou que o centro estimulará a inovação aberta e codesenvolvimento com clientes, startups e universidades.

Em breve, haverá o lançamento de um espaço sensorial, em que os profissionais da construção poderão experimentar as sensações dos novos produtos em termos de conforto acústico, térmico, visual e qualidade do ar. 

 “O centro foi concebido para ser um espaço de interações contínuas, aumentando a rapidez na entrega de soluções para o mercado”, disse Fournier.

IMAGENS: Divulgação/Saint Gobain