Inovação

Como a Liv-up mantém seu apelo artesanal sendo superdigital


Com alto potencial de escala, a startup de alimentação congelada entrega mais de cem mil refeições por mês e cresce três vezes de tamanho por ano conectando chefs, dados e tecnologia


  Por Mariana Missiaggia 30 de Agosto de 2019 às 07:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


A combinação de boas receitas com tecnologia é a fórmula secreta de uma das startups mais bem-sucedidas  do País, a Liv Up, empresa de alimentação congelada saudável, fundada pelos empreendedores Victor Santos e Henrique Castellani.

Com uma rotina intensa,a dupla estava acostumada a passar horas trabalhando em um banco e uma consultoria, e tinha muita dificuldade em comer de maneira saudável. Em uma conversa despretensiosa, os amigos dividiam dicas e tentativas de manter alguma organização dentro da própria cozinha - mas nada dava muito certo. Foi aí que perceberam uma oportunidade de negócios.

A ideia de mudar a própria rotina alimentar e de melhorar a dieta de tantos brasileiros foi o suficiente para que investissem R$ 250 mil de uma reserva financeira que tinham para dar forma aos primeiros passos da Liv Up. 

Quando decidiram juntar suas economias, Victor e Henrique queriam ir muito além do desejo de construir uma empresa de sucesso. Queriam ser referência num mercado de alimentação saudável ainda mal explorado no Brasil com preparações congeladas, e que incluíssem opções vegetarianas e orgânicas.

Em meio a essa busca, descobriram a técnica de ultracongelamento, um processo tecnológico que submete os alimentos a temperaturas extremamente baixas, com o objetivo de preservar as características nutricionais, embalando a vácuo cada produto.

Com a adoção desse sistema, foram além. Formaram uma rede de contatos com agricultores familiares e fizeram da produção deles, o ingrediente principal da Liv Up. Uma relação que serviu de ponto de partida para pequenos produtores conseguirem contratos cada vez mais valorizados.

Passaram meses estudando o mercado, consultaram potenciais clientes e nutricionistas, e se aprofundaram nos problemas do dia-a-dia de quem não consegue se alimentar bem. 

O resultado é uma empresa que entrega mais de cem mil refeições por mês, triplica de tamanho todos os anos e emprega 340 funcionários. 

Originalmente digital, a empresa tomou forma pelo e-commerce, em 2016. De uma cozinha de 60 metros quadrados, começaram a sair os primeiros pedidos - amigos, familiares, conhecidos de amigos, colegas de trabalho e em três meses, o ritmo de crescimento já estava acima de 20% ao mês.

Sem habilidade para cozinhar e com pouco tempo para seguir receitas, os empreendedores querem escalar a cozinha artesanal e adotaram um processo produtivo que dá flexibilidade para que 10% do cardápio seja renovado todo mês com integração total entre a equipe de lançamento e a de produção para criar receitas em escala.

Preocupações como essa, levaram a dupla a criar um sistema de gestão com verdadeiras redes de inteligência que conectam diferentes áreas da empresa. As vendas do site, por exemplo, estão ligadas ao estoque — gerando uma lista de compras sob demanda de acordo com o uso dos ingredientes em cada receita. Outro exemplo é o relacionamento com clientes, centralizado em um CRM (Gestão do Relacionamento com o Consumidor) e com feedbacks sistematizados que alimentam o resto do time.

A chegada do inverno, por exemplo, trouxe a sugestão de alguns clientes para que um cardápio de sopas fosse disponibilizado. Victor diz que em menos de 15 dias, a empresa testou algumas receitas, mandou para esses clientes e avaliou o feedback recebido para definir o que entrava. O mesmo aconteceu com a nova linha de doces sem açúcar da marca.

"Todas as equipes estão organizadas em torno da experiência do cliente. Gerimos as informações de modo sistematizado e compartilhamos essa inteligência com os outros times - tudo para transformar dados brutos em informações", diz.

Outro pulo do gato, que faz toda a diferença no controle de qualidade do produto é um sistema que armazena cada detalhe de toda receita preparada. A temperatura que o alimento começou a ser preparado, quantas vezes a porta do forno foi aberta durante o cozimento, o tempo que ficou dentro do forno ou na frigideira - tudo com hora e data marcada.

Dessa forma, eles conseguem modificar algum processo, quando por exemplo, um cliente reclama que o peixe poderia ser mais suculento ou até mesmo seguir a risca o passo a passo daquilo que foi muito elogiado.

"Sempre sabemos o lote adquirido e fazemos esse resgate para entender o que houve de diferente em cada processo seja um destaque negativo ou positivo ", diz. "Mesmo superdigital, sempre vai ter o fator humano na análise de todo esse conteúdo e é isso que nos aproxima dessa realidade mais caseira".