Inovação

“A maior inovação feita no mercado de beleza foi servir champanhe para madame”


Quem afirma isso é Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi, eleito pelo MIT como um dos jovens mais inovadores do mundo. Atualmente, ele comanda a Singu, aplicativo para manicures, depiladoras e massagistas


  Por Thais Ferreira 08 de Novembro de 2017 às 08:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Pouco antes da entrevista para o Diário do Comércio, Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi e da Singu, fala ao celular andando de um lado para outro, impaciente.  

Com um jeito modesto, de moletom branco e calça jeans, Gomes nos cumprimenta.

Predomina no escritório da Singu, em Pinheiros, bairro da zona oeste de São Paulo, um ambiente descontraído.

Cerca de 20 funcionários se espalham por uma pequena sala. Nada de formalidades. Gomes, presidente da empresa, se senta ao lado dos funcionários.

Com apenas 30 anos, ele é um dos empreendedores brasileiros mais bem-sucedidos. Não foi um golpe de sorte, ele começou cedo: aos 14 anos montou sua primeira empresa.

Seu empreendimento mais bem-sucedido por enquanto, a Easy Taxi, aplicativo que conecta motoristas e passageiros, foi fundado em 2011, quando ele tinha 23 anos.

Recentemente, Gomes foi reconhecido pela revista MIT Technology Review, do Massachusets Institute of Technology como um dos jovens empreendedores mais inovadores do mundo abaixo dos 35 anos.

"Ao longo dos anos, tivemos sucesso em reconhecer jovens inovadores, cujas mudanças transformaram a maneira como o mundo pensa sobre o que a tecnologia pode fazer", disse o editor-chefe David Rotman.

Já foram homenageados no passado Larry Page e Sergey Brin (2002), os cofundadores do Google; Mark Zuckerberg (2007), o co-fundador do Facebook; e Jonathan Ive, o principal designer da Apple.

Durante toda a entrevista, ele não desgruda um minuto do celular. Não é à toa que os smartphones foram a chave do sucesso de sua trajetória.

MENINO PRODÍGIO

Mineiro de Carangola, Gomes se interessou por tecnologia desde cedo. A primeira paixão foi o vídeogame. Ainda adolescente, aprendeu Basic, uma das primeiras linguagens de computação.

Aos 14 anos, começou a vender celulares em sua cidade natal. Ele tinha uma banda e queria dinheiro para comprar uma bateria.

“Nessa época, aprendi a gerenciar fluxo de caixa. Os colégios te ensinam a fazer cálculos complexos de trigonometria. Mas não te ensinam essas coisas básicas, como controlar cartão de crédito.”

Ele decidiu ir além. Juntou dinheiro para sair da pequena cidade e investiu o dinheiro do primeiro negócio em seus estudos. Pagou pelos seus estudos no ensino médio e cursou faculdade de publicidade na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). 

A segunda empreitada de Gomes foi em 2006 e não foi bem-sucedida.

 “Fazíamos gameficação em redes sociais. Hoje, todas as agências de propaganda fazem isso e cobram milhões. Só que eu estava fazendo isso muito cedo”, afirma Gomes.

Com essa experiência fracassada, Gomes aprendeu sobre a importância de abrir um negócio no tempo correto e sobre manter um caixa para sustentar a empresa por pelo um ano e meio.

Após algum tempo no mercado de trabalho, ele decidiu voltar a empreender em 2011, quando cofundadou a Techsamurai, empresa que cria aplicativos e sites.

“Com 22 para 23 anos, ganhava o suficiente para sustentar uma família. Foi uma escolha dura ter que parar de tocar esse negócio para focar na Easy Taxi”, diz Gomes.  

EASY TAXI

Ele vendeu sua participação na Techsamurai para se dedicar exclusivamente ao novo negócio: um aplicativo para conectar motoristas e passageiros.

“Na época, pensei: se consegui criar um negócio desse tamanho, eu tenho capacidade de criar outro”, afirma. “Eu tinha muita confiança em mim. Se desse errado, eu tentaria de novo, nunca tive medo desses riscos”.

Em 2011, era difícil acreditar que o modelo de negócio da Easy poderia funcionar. Na época, apenas 4% da população brasileira tinha smartphones e os taxistas não faziam parte dessa minoria. Ninguém acreditava que era a hora certa, mas ele fez assim mesmo.

Gomes analisou que a adoção dos celulares com internet iria aumentar exponencialmente e decidiu que era hora de apostar nesse mercado.

Durante os anos que ficou à frente da Easy, a empresa teve crescimento rápido -chegou a captar cerca de US$ 75 milhões em investimento e expandiu para 35 países.

Com isso, a participação de Gomes na empresa ficou muito diluída. Ele decidiu que podia usar o que ele aprendeu para criar novas oportunidades de negócios.

Em 2014, deixou o cargo de presidente. A saída da Easy não foi nada fácil. [Em uma negociação iniciada em abril do ano passado, que se arrastou por mais de um ano, a Easy foi incorporada pela rival espanhola Cabify].

“Eu sabia que iria acontecer, mas foi bem difícil. Foi como se eu deixasse um filho ir para a faculdade em uma cidade longe”, afirma. “Já não estava mais sob meu controle”

Com toda a experiência que adquiriu nos últimos anos de empreendedorismo, ele escreveu o livro "Nada Easy", lançado em agosto passado pela Editora Gente.

SINGU

Gomes não parou de empreender. Desde que saiu da Easy, começou a procurar novas oportunidades.

Ele se deparou com o bilionário mercado de beleza que movimenta no Brasil mais de R$ 50 bilhões, mas que ainda não foi impactado pelos últimos avanços tecnológicos.

“A maior inovação feita no mercado de beleza nos últimos anos foi servir champanhe para madame”, afirma Gomes.

Ele fundou a Singu, uma espécie de Uber de cabelereiros, manicures e massagistas.  Os clientes procuram os serviços pelo aplicativo e os profissionais se deslocam até a casa, hotel ou trabalho dessas pessoas.

Todos os profissionais são treinados e cadastrados pelo aplicativo.

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Um algoritmo ajuda a criar uma agenda mais eficiente. “Em alguns casos, esses profissionais conseguem multiplicar por três suas renda”, afirma Gomes.

Além da praticidade, outra vantagem para os clientes é o preço: os atendimentos pelo Singu são cerca de 40% mais baratos do que os de salões tradicionais.

A empresa, segundo afirma, cresce ao ritmo de 30% ao mês. No ano que vem, Gomes prentede aumentar o faturamento em sete vezes e levar a Singu para outras capitais (por enquanto a empresa atende apenas no Rio de Janeiro e na grande São Paulo).

Se depender da vontade e da experiência de Gomes, a Singu deve se tornar uma gigante em pouco tempo.

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FOTO E EDIÇÃO DE VÍDEO: William Chaussê/Diário do Comércio