Gestão

“Vivemos quatro crises: fiscal, econômica, política e moral”


Durante o evento CEO Summit, da Endeavor, o empresário Jorge Gerdau disse que a falta de liderança faz com que o país passe por uma situação "tremendamente delicada"


  Por Italo Rufino 23 de Outubro de 2015 às 19:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Logo no início de sua apresentação, nesta quinta-feira (22/10), no Hotel Unique, em São Paulo, Jorge Gerdau deixou claro por quem tem apreço: “Estar junto a empresários me faz muito bem”, disse o presidente da Gerdau. “E tenho ido muito a Brasília, o que me faz muito mal”. 

Ao lado de Pedro Passos, sócio da Natura, Gerdau falou por quase uma hora sobre qual é o papel dos empreendedores fora da empresa – suas responsabilidades sociais e como podem ajudar a construir um país melhor. 

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Foi uma conversa contundente. Para o empresário, as soluções técnicas para o acúmulo de crises já existem sob forma de gestão econômica. No entanto, estamos impedidos de colocá-las em prática por causa do impasse político do país. 

“É um absurdo que talvez cheguemos ao final do ano sem ter feito o mínimo dos ajustes necessários, o ajuste fiscal”, afirmou. “Isso é consequência do desajuste político.” 

Na análise do empresário, democracias estáveis são construídas através de consensos entre seus líderes. E esse é o desafio do cenário atual brasileiro. 

Entre as questões problemáticas de gestão na esfera pública, Gerdau destacou a falta de governança – a análise e definição dos rumos que o país precisa tomar e aonde quer chegar.

“O processo de governança se faz por decisões políticas, e o Brasil perdeu isso nos últimos anos", disse. "Estamos vivendo quatro crises: a fiscal, a econômica, a política e a moral."

Gerdau lembrou a crise que o Brasil viveu no início dos anos 1990 e da gestão do presidente Itamar Franco, em que foi formada uma aliança política para recuperar o país.

“Estamos chegando muito perto de ter que construir uma coalizão para que o país se una para resolver seus problemas.”

 

JULIO SEABRA, DA ENDEAVOR, GERDAU E PASSOS, DA NATURA, DURANTE CEO SUMMIT (Foto: Camilla Alves/Endeavor Brasil)

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ATUAÇÃO NA ESFERA PÚBLICA 

Gerdau é reconhecido no meio empresarial por ter doado sua experiência na busca por eficiência na administração pública. A história teve início ainda na década de 80, quando a siderúrgica Gerdau teve contato com executivos japoneses para conhecer novas tecnologias de processos de gestão, que se baseava em conhecimento, liderança e sistemas.

Anos mais tarde, foi convidado para participar de um programa de gestão do governo do Rio Grande do Sul. Desde então, atuou junto a 11 estados.

“Conseguimos obter resultados positivos em quatro”, afirmou. “O maior caso de sucesso foi em Pernambuco, onde tivemos uma mudança cultural na gestão pública.”

Durante o governo Lula, Gerdau tentou implantar um modelo similar na esfera federal. O empresário ajudou na criação da Câmara de Gestão, que reunia nove ministros federais. Naquela época, foram feitas reestruturações na Casa Civil, Ministério do Transporte e Anvisa. 

Em sua avaliação, porém, os resultados não foram tão positivos. Nas palavras de Gerdau, mesmo que sejam implantando bons processos de gestão fragmentados, sem governança que defina prioridades claras, os resultados jamais serão satisfatórios. 

“Tentamos desenhar o mapa estratégico de 35 ministérios”, disse Gerdau. “Detectamos que o nível de clareza em prioridades era extremamente baixo.”

POTENCIAL DO BRASIL  

Mas nem tudo está perdido. Gerdau afirmou que o país está muito melhor do que em décadas passadas. A diferença se dá principalmente na  maior credibilidade das intuições, debate público e dimensão do mercado.

É um momento para acreditar no futuro do país e não ficar parado. 

“Eu prefiro trabalhar na crise, porque minha capacidade criativa e de esforço é maior”, afirmou Gerdau. "Também é mais divertido, como se diz: animal de barriga cheia não caça.” 

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