Gestão

Vem aí uma "dança de cadeiras" no varejo. É a crise


Executivos que somam experiências em loja física e e-commerce são os mais demandados, de acordo com Luís Arrobas (foto), sócio da 2GET.


  Por Fátima Fernandes 25 de Maio de 2016 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Perto de 11 milhões de pessoas estão desempregadas no Brasil, de acordo com o IBGE. Isso leva a crer que a oferta de vagas, em qualquer setor, continua mais restrita do que nunca por conta da crise que o país enfrenta.

Há, porém, exceções no andar de cima. Há dois meses, duas redes de lojas -uma especializada em móveis e decorações e outra, em moda -não conseguem preencher uma vaga para um salário que pode ser o sonho da maioria dos brasileiros: R$ 45 mil mensais mais benefícios.

O cargo é de diretor de Multicanal, uma função relativamente nova nas empresas de varejo. O que as redes buscam para a posição é um profissional que conheça bem a operação de loja física e também o comércio pela internet.

“Tenho feito entrevistas com potenciais candidatos toda a semana. Até agora, não conseguimos preencher essas vagas”, diz Luís Arrobas, sócio da 2GET, consultoria de recrutamento de executivos para posições de liderança.

No Brasil não há, até agora, caso de sucesso de empresa que opera bem nos dois canais -o físico e o virtual. Eis aí um forte motivo para justificar a escassez desses profissionais.

O cargo de diretor de Marketing de Performance, outra nova posição nas redes de varejo está igualmente difícil de preencher.

Estar qualificado para essa função, de acordo com Arrobas, requer um profissional antenado com a comunicação em geral e virtual, capaz de agir com respostas velozes às demandas.

A crise enfrentada pelo setor, considerada a maior da história, está levando as grandes redes a rever todas as posições de liderança e a promover o que se costuma chamar de "dança de cadeiras".

Consultadas pelo Diário do Comércio, algumas das maiores consultorias especializadas na recolocação de profissionais de liderança que atuam no país informam que a crise levou as redes de varejo a demandar pessoas com novos perfis.

Isso vale também para companhias de outros setores.

Até 2013, a busca na área financeira era por profissionais craques no desenvolvimento de novos negócios, experiência em fusões e aquisições e habilidades para fazer planejamento para longo prazo.

“Agora, os profissionais mais procurados nesta área são aqueles com viés de tesouraria, de renegociação de dívidas", diz Arrobas. "São pessoas que vieram de bancos ou de empresas muito endividadas, que passaram por processos de renegociação.”

O cargo de diretor financeiro (CFO) passou a ter maior importância nas empresas de varejo nos últimos 12 meses, na medida em que a crise se agravava, de acordo com Ângela Pegas, sócia da Egon Zehnder, uma empresa global de pesquisa de executivos e recolocação de talentos, que opera em pouco mais de 40 países.

“Se, com o mercado em expansão, o foco era conquistar novos mercados, abrir novas lojas, fazer o negócio crescer, agora, é cortar custos”, afirma Ângela.

ÂNGELA PEGAS, DA EGON ZEHNDER: EXECUTIVOS COM VIÉS FINANCEIRO SÃO MAIS DEMANDADOS

Boa parte das redes de varejo, de acordo com ela, está agindo no ‘modus operandi’. Ou seja, com atenção voltada para o corte de custos e de investimentos.

Apesar da recessão, a demanda por profissionais “mais robustos”, como afirma Angela, continua firme e forte.

“As redes estão atrás de profissionais capazes de lidar com crises, motivar equipes, pensar fora da ‘caixa’, trazer experiências de companhias de outros setores”, diz ela.

Seguindo essa linha, o grupo Pão de Açúcar anunciou no início deste ano a contratação de Luís Moreno para o cargo de diretor vice-presidente de Negócios e de Marcos Samaha para o de diretor de operações do Multivarejo, que reúne o varejo de alimentos da companhia.

Espanhol, Moreno exerceu posições de destaque nas redes Carrefour, Ahold e Walmart.  Brasileiro, Samaha possui experiência no comando de várias empresas, como da rede Walmart e da Jequiti Cosméticos. 

Na época, Ronaldo Iabrudi, diretor-presidente do GPA, informou ao mercado que as nomeações iriam reforçar o posicionamento de cada formato, além de avançar nos processos de captura de sinergias.

Também no início do ano, a rede Walmart promoveu Flávio Cotini, que era vice-presidente de finanças, para o cargo de presidente e CEO da empresa. Cotini trouxe para a subsidiária da rede americana experiências adquiridas na Unilever e na Diageo Brasil.

Para Fátima Zorzatto, sócia-fundadora da Inwi Consulting, consultoria especializada em gestão empresarial, o perfil do executivo que dá certo em qualquer setor combina habilidades de liderança e gestão.

“Liderança envolve aspectos pessoais de capacidade de mobilizar pessoas, de fazer a equipe erguer o olho e ir em direção de resultados”, diz ela.

Em gestão, o profissional que dá certo é aquele que é capaz de formular diagnósticos, planejar e obtém uma execução perfeita. “O bom gestor sabe, entre 500 indicadores, quais são os cinco mais importantes para olhar e fazer o negócio andar”, diz Fátima.

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Independentemente do que está acontecendo com a economia, o que promove a troca de executivos é seu desempenho, de acordo com Manoel Rebello, sócio-diretor da Heidrick & Struggles, empresa multinacional norte-americana especializada na recolocação de executivos com operação em mais de 30 países.

Rebello diz que um cargo executivo tem muita semelhança com o de técnico de futebol. Se o time não está bem, troca-se o técnico. Se a empresa não vai bem, troca-se o grupo de executivos.

As empresas passaram por momentos difíceis, racionalizaram a gestão, demitiram funcionários, trocaram funcionários mais caros por mais jovens e mais baratos.

Algumas companhias que tinham dez executivos, por exemplo, reduziram para quatro ou seis. E não há sinais de que esse cenário possa mudar tão rapidamente.

A demanda das empresas hoje, diz Rebello, é por profissionais com foco em resultados nos clientes.

Pessoas capazes de entender as transformações que ocorrem no mercado, visionárias, com energia e com experiência comprovada na gestão de pessoas.

Há profissionais versáteis que, assim como os bons jogadores de futebol, de acordo como ele, jogam bem em campo molhado ou seco. Mas esses são mais raros.

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Algumas redes podem estar com dificuldade de achar profissionais adequados para as novas funções que surgiram e para enfrentar a crise, como revela a 2GET.

De acordo com Rebello, porém, convém lembrar que, de maneira geral, as vagas para executivos diminuíram no Brasil com a crise, até porque as empresas uniram diretorias ou simplesmente cortaram departamentos inteiros.

Com o país em crise, se as empresas não expandem os seus negócios, as vagas para executivos também não crescem. O movimento é oposto, quando a economia está em crescimento.

A redução do número de fusões e aquisições e do investimento estrangeiro no país também pesa contra a oferta de vagas para executivos.

O que a crise expôs, de acordo com Sandro Benelli, consultor de varejo da Enéas Pestana & Associados, é que alguns executivos não estavam preparados para conduzir as empresas com queda tão abrupta de vendas.

Isto é, não estavam à altura das exigências impostas neste momento.

“Tudo indica que a vai haver uma forte movimentação de cadeiras no alto escalão das redes de varejo neste ano. As empresas vão se reestruturar para corrigir as falhas que ficaram expostas no período de ‘vacas magras’”, diz.

A mudança de cadeiras deve ocorrer nas grandes redes e mais ainda nas médias empresas, que faturam em torno de R$ 1 bilhão ao ano, de acordo com Benelli.

Felippe Virardi, gerente de marketing da Talenses, que atua na recolação de profissionais de vários níveis, diz que além de mais exigentes, as empresas estão mais cuidadosas ao recrutar um profissional.

Antes da crise, um profissional de nível de gerência ou sênior era escolhido em um processo que levava de um mês e meio a dois meses. Hoje, pode chegar a até quatro meses.

"Esse é um ganho para quem contrata e para quem é contratado. O momento exige cautela", diz Virardi.

Fotos: Divulgação