Gestão

Um negócio sem dono, sem sede, sem chefe


Quer saber como lidar com mudanças? A Rede Ubuntu, criada por Eduardo Seidenthal, se especializou em preparar pessoas e empresas para dar o salto que o mundo exige. A própria rede é o exemplo


  Por Inês Godinho 10 de Novembro de 2016 às 08:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Transformação, ruptura, reinvenção. Nas publicações e livros de negócios, estas são as palavras de ordem do momento entre as empresas.

No entanto, antes de revelar uma disposição geral para abraçar as novidades, o assunto mostra a enorme desorientação em que se encontram as organizações.

Por onde começar a mudança? A Rede Ubuntu e Eduardo Seidenthal têm uma proposta. Ex-executivo de multinacional, ele criou uma empresa, em 2009, que prepara pessoas e organizações para o mercado atual, marcado pela incerteza e por enormes mudanças nas relações de trabalho e nos modelos organizacionais

Desde então, entre as empresas clientes, figuram BRF, Dasa, Johnson & Johnson, Natura e Fleury.

Mas não ficou só nisso. A própria Ubuntu passou a ser o exemplo vivo de como funcionaria um modelo de negócios com zero de hierarquia e adaptado ao espírito de compartilhamento, que se desenha como um caminho para a economia.

Por que Ubuntu? Seidenthal explica: “É uma filosofia de origem africana que propõe a colaboração e a interdependência. A palavra significa eu sou porque você é e você é porque nós somos." 

Para difundir a ideia, ele apresenta uma série semanal em vídeo chamada Café com Edu

TRABALHO E REMUNERAÇÃO

Constituída por inúmeros profissionais autônomos, a rede formata projetos sob demanda para empresas e oferece programas individuais ou em grupo, com cursos e vivências para quem quer empreender nos negócios, no próprio emprego ou na vida. 

Difícil de definir, pelo seu ineditismo, a rede atua com técnicas de educação, consultoria, coaching e mentoria. 

O resultado pode ser um empreendedor mais seguro, um funcionário mais realizado no emprego ou um indivíduo com maior compreensão de si próprio.

A cada trabalho, os membros da rede formam grupos para atender, de acordo com as competências exigidas e as afinidades com o tema. Atualmente, 50 profissionais compõem o núcleo da Ubuntu. 

A remuneração é definida de acordo com o nível de participação de cada membro nos projetos. Em 2015, a Rede Ubuntu obteve uma receita de R$ 1,5 milhão.

Além de ter acesso à demanda de trabalhos, os membros do núcleo e quem gravita em volta têm o benefício da ampla circulação de informações e exposição que a rede propicia.   

CRISES TRANSFORMADORAS

O coração da ideia de Seidenthal está em ajudar as pessoas a se conhecer melhor, a identificar e aproveitar suas forças e a descobrir, afinal, o que realmente querem da vida. Fortalecidas, elas ganham autonomia e se tornam mais aptas a fazer escolhas e a administrar seus talentos.

O próprio Seidenthal usou-se como cobaia para formular o modelo de negócios. Atingido pessoalmente pela “crise da falta de sentido” há alguns anos, o ex-executivo deixou uma bem-sucedida carreira em multinacionais para entender o que estava acontecendo. 

“Não me conformava em ver tanta gente infeliz, fazendo o que não quer e desperdiçando seu potencial”, ele lembra. 

Mudar voluntariamente não costuma ser coisa corriqueira. O problema é que não se trata de uma escolha, mas de um fator imperativo dos tempos que vivemos.  

Estão aí a revolução tecnológica, novos valores da sociedade, a geração Y com sua resistência às estruturas tradicionais, falência de modelos de organização.

Este entendimento atingiu em cheio Eduardo Seidenthal. Na época, ele tinha assumido a diretoria de marketing para América Latina na Johnson & Johnson. A insatisfação, no entanto, não dava trégua. 

Havia um vago desejo de empreender, porém, o que incomodava era não enxergar um propósito para guiar não apenas o trabalho, mas a vida. A muito custo, venceu o medo de deixar para trás o emprego seguro e prestigiado e iniciou uma jornada própria.

FILOSOFIA E TÉCNICA

O ex-executivo de multinacional sentia que o modelo “um manda, o outro obedece” está com os dias contados. Mas como preparar indivíduos e organizações para trabalhar de forma colaborativa e interdependente?

O caminho individual que seguiu para encontrar um rumo acabou revelando o método que poderia ajudar outras pessoas com dilemas semelhantes.

E também ser usado para ensinar às empresas que “é possível, ao mesmo tempo, ser feliz e ganhar dinheiro no mundo do trabalho”.

Ele constatou o que deveria ser óbvio - as organizações só mudam se as pessoas se transformarem. Não adiante vir uma ordem de cima, como sempre se fez.

O trajeto de desenvolvimento de Seidenthal passou por processos cognitivos, físicos, emocionais e espirituais. Ele usou técnicas de autoconhecimento, cursos e muita exploração de áreas que antes não faziam parte do seu universo. 

Concluída a jornada, organizou esse conhecimento em produtos e serviços – cursos, criação de projetos, vivências, consultoria, coaching - e criou uma empresa para oferecê-los, a Ubuntu. 

PROPÓSITO E PRÁTICA

Três pontos resumem o processo interior que se tornou o core business da Ubuntu – descobrir um propósito, mapear possibilidades e desenvolver competências. Cada fase tem seus módulos de formação.

Para tornar mais compreensível a sistematização de filosofias e técnicas, inventou um conceito único para definir o trabalho da Ubuntu: Eupreendedorismo. A ideia está explicada no livro "As Raízes do Eupreendedorismo".

 “Antes de empreender qualquer coisa na vida, precisamos olhar para dentro de nós mesmos”, explica. “É um processo difícil, e fazer em grupo ajuda muito.” Nesse conceito, empreender tem um amplo significado, não apenas a criação de um negócio.

“Eupreendedorismo significa colocar em prática seu propósito - achar um modelo para entregar esse propósito de modo que ele fique em pé financeiramente”, explica. “A única forma de descobrir propósito é fazendo. Sem ação, não se chega a ele.”

Formatada inicialmente como uma consultoria, há três anos, ele dissolveu a empresa, que estava em seu nome, em uma rede de colaboração. Sem dono, sem sede, sem hierarquia.

FUNCIONAMENTO ORGÂNICO

A Rede Ubuntu continua fazendo a mesma coisa – presta serviços para pessoas físicas e empresas interessadas em processos de transformação.

Só que agora se organiza em sistema de colaboração e interdependência, “como um ecossistema”, explica Seidenthal. As equipes se organizam conforme a demanda de projeto e as competências necessárias. 

Com este formato, o número de consultores (ou facilitadores, como se chamam), o local e as áreas de conhecimento não precisam ter limites, como acontece dentro de uma empresa.

A rede já chegou a Curitiba, Belo Horizonte, Campinas, Florianópolis, Belém e muitas outras cidades.

Há uma infinidade de profissões entre os facilitadores – administração, psicologia, educação, marketing, finanças, comunicação, sustentabilidade, artes. Cada um recebe conforme sua participação.

Atualmente, 50 pessoas integram o núcleo central e duas centenas gravitam em volta e se mantém em contato por meio de uma plataforma digital. Há troca de indicações de trabalho, de conhecimento e ajuda para os momentos complicados.

Na extremidade da rede, estão milhares de pessoas que já passaram pelos cursos e workshops e mantêm algum tipo de vínculo com o sistema Ubuntu, também com uma plataforma digital própria. 

ONDE SE APLICA

Para as empresas, o sistema da Ubuntu se aplica às situações que demandam mudanças profundas, como a formação de lideranças, desenvolvimento de competências, processos de seleção e o engajamento de equipes.

“As empresas perceberam que, sem transformação, começam a perder quem é bom e quem é bom não quer trabalhar com elas”, disse Seidenthal.

Entre os projetos corporativos, os que mais têm demandado os serviços da Ubuntu são os processos de seleção, programas de estágio, trainee e de jovem aprendiz e até de recrutamento.

“Os métodos de recrutamento e seleção caminham para grandes mudanças. A empresa começa a entender que não é apenas ela que aprova o candidato; o candidato também precisa aprová-la.”

Para as pessoas, tem sido útil para encarar as fases de transformação na vida, como a maternidade, a aposentadoria, a passagem do emprego para a atividade empreendedora ou autônoma, a empresa que cresceu demais e o empreendedor não se reconhece. 

A rede tem programas específicos para cada uma dessas situações e alguns já começam também a atrair as organizações. 

Para saber mais:

Palestra de Eduardo Seidenthal no TED-X Talk


SALTO NO VAZIO

Com seu novo formato, a Rede Ubuntu não tem mais limites para se ampliar. A não ser pela métrica defendida por Seidenthal. “O crescimento ideal é o que acontece na velocidade da confiança.”

Também o público-alvo é ilimitado. Em princípio, a sociedade inteira poderia ser cliente da Ubuntu. 

Para saber se as empresas vão se sensibilizar com esse chamado para a transformação, é preciso ficar atento às pessoas, de acordo com o criador da rede.

Ele lembra que ninguém mais aguenta pressão abusiva, sair de casa às 7h da manhã e chegar de volta às 21h, não ver sentido no esforço. 

“A mudança começa pelos indivíduos e pelas equipes, ocorre de forma distribuída e não hierárquica. São vários pontos se movendo, até que se conectam.” 

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Para exemplificar como acontece, Seidenthal usa a metáfora do trapézio. “Uma pessoa está lá no alto, balançando pra lá e pra cá, com confiança e prazer. Com o tempo começa a ficar enjoada de fazer o mesmo e vê outro trapézio perto. É atraída por ele.”
 
Mas para alcançá-lo, precisa soltar o trapézio seguro e saltar. Por alguns segundos, ficará no vazio. E os primeiros momentos no novo balanço serão desconfortáveis. 

“Empresas e pessoas precisam fazer essa travessia”, explica. “A Rede Ubuntu quer ajudar nesse momento de vazio, fazer o papel da rede de proteção. Uma parte das pessoas e organizações vai em frente, outra vai ficar no meio do caminho e outra vai desaparecer.”  

IMAGENS: Divulgação