Gestão

Sua startup já saiu do papel? Deve estar na hora de receber um anjo


Grandes empresas podem despontar nos momentos de crise e começar com o dinheiro, o conhecimento e a rede de contatos do investidor anjo


  Por Rejane Tamoto 11 de Janeiro de 2016 às 08:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


O empreendedor brasileiro é reconhecido pela criatividade, mas também por ter muitas ideias que ficam no papel até mesmo pela burocracia para colocá-las em operação -seja nas licenças ou na obtenção de recursos de bancos.

 "Muitas vezes o empreendedor precisa de um time para ajudar a por uma ideia criativa em prática. É preciso executar e escalar", diz Erica Rolim, responsável pelo projeto Emprese - centro de inovação e empreendedorismo - do ISE Business School, escola de negócios associada ao IESI, fundada em Barcelona.
 
É isso que eleva a chance da startup de conseguir um investidor anjo, que não só colabora com aporte mas também com o conhecimento para tornar realidade cada linha do plano de negócios. 

O anjo é o investidor que pode colaborar com o negócio e adquire participação minoritária na empresa, em torno de 8% a 15% no Brasil, segundo José Carlos Aronchi, consultor na unidade de acesso à inovação e tecnologia do Sebrae-SP e mentor de novos negócios. "Se ele pedir 50% de participação não é anjo. É demônio", brinca. 

Faz parte do perfil desse investidor entrar com um aporte de R$ 60 a R$ 100 mil na primeira vez e de buscar outros investidores quando o valor necessário for superior, até mesmo para diluir o risco. 

Afinal, o anjo sabe que de cada dez empresas que investe, cerca de três vão dar retorno financeiro em um prazo que pode ser de três a cinco anos. "Ele sai do investimento ou realiza o lucro quando conseguir uma rentabilidade de sete a 12 vezes o que investiu", afirma.

Aronchi diz que para o empreendedor, o anjo não deve ser apenas sinônimo de dinheiro. 

"Ele não deve entrar naquilo que não pode colaborar e dar mentoria. Para a startup, pode trazer muitos resultados positivos - que nem sempre se limitam ao lucro - como o acesso a grandes clientes, ajudar com patentes e a criar barreiras de mercado para que uma inovação não seja vencedora apenas até o concorrente descobrir", explica. 

O Sebrae-SP passará a ter uma programação mais intensa de eventos e projetos para apresentar empreendedores a investidores a partir deste ano. O ISE Business School criou no ano passado o Emprese, um centro de inovação e empreendedorismo que oferece cursos de formação para empreendedores e investidores.

A escola de negócios também mantém uma rede de anjos que busca conectar as duas pontas. "Recebemos projetos pela internet e encaminhamos os que estão mais maduros", diz Andrea Gomide, responsável pela rede Anjo do ISE. 

COLOQUE EM OPERAÇÃO ANTES DE BUSCAR O ANJO

Quem conseguiu atrair esse tipo de sócio é taxativo: se você tem uma startup, precisa colocá-la em operação para encontrar um anjo. É um jeito de saber se há cliente e de ajustar a ideia à realidade de mercado. 

Negócios que não são de TI podem enfrentar mais dificuldade para encontrar um sócio adequado, e precisarão circular nos meios certos.

Jhonata Emerick, CEO do aplicativo 99Motos, de localização de mensageiros, conta que investiu do próprio bolso R$ 100 mil em 2013 para colocar o serviço em operação antes de encontrar um investidor anjo. 

EMERICK, DO 99MOTOS: DIFERENCIAL É COMO VOCÊ EXECUTA A IDEIA/DIVULGAÇÃO

"Passou a época de conseguir um investimento apenas com apresentação de powerpoint. Há ideias de sobra na internet. O diferencial é como você executa elas", aconselha. 

Engenheiro aeronáutico, Emerick já tinha trabalhado no mercado financeiro e, enquanto ainda era funcionário de um banco, percebeu uma lacuna no mercado de entregas. 

Em fevereiro de 2014, um tempo depois de ter conseguido colocar o empreendimento em operação com recursos próprios reencontrou um ex-chefe, também da área financeira, que topou ser o anjo que ajudaria com mais R$ 100 mil e mais: com a gestão financeira, o fluxo de caixa, o retorno sobre o investimento, o break even. 

"Apaixonado que era, não olhava e nem pensava tanto sobre essa parte", conta. 

Emerick empreendia e trabalhava no banco durante essa etapa, já que não fazia retiradas de pró-labore. Ele conta que só se dedicou totalmente ao empreendimento em outubro daquele ano, quando conseguiu o aporte de R$ 3 milhões do fundo de venture capital Incube. 

"O anjo trouxe know-how e relacionamento porque tinha nome no mercado. Foi como ter um carimbo. Me ajudou a ter o investimento de um fundo maior", lembra. 

Sobre possíveis dificuldades de relacionamento, que podem surgir numa relação com anjo, também contou que não teve dificuldade em aceitar todas as sugestões, que depois levaram a empresa a outro aporte e, no final, a bater a meta de faturamento, cerca de dez vezes acima do que ele tinha quando começou. 

"Com o fundo tenho mais sócios para prestar contas e um conselho. A cobrança maior é natural", completa. Hoje a 99Motos está em quatro capitais brasileiras. 

É PRECISO CIRCULAR NOS LUGARES CERTOS SE VOCÊ NÃO É DE TI

Nem sempre ter um negócio em operação é garantia para conseguir um anjo. Também é preciso contar com um pouco de sorte, como teve Emerick ao encontrar o ex-chefe que procurava um investimento, e também circular nos meios certos.  

"Um problema é que startup virou sinônimo de TI e app, mas existem outros ramos de negócios. O meu, por exemplo, ainda não está sendo tão procurado no Brasil", diz David Carvalho, engenheiro eletricista e sócio da First Energy, empresa integradora de sistemas fotovoltaicos (instalação de painéis solares e distribuição) para geração de energia elétrica em residências, comércio e indústria. 

Com a empresa em operação desde março, David diz ter apresentado o projeto a três investidores em diferentes rodadas no Sebrae e na FGV e nenhum deles era do ramo, o que é um requisito fundamental para que possa colaborar não só com o dinheiro mas também com o networking.

 "Talvez por isso eles queriam só entender o plano de negócios e saber quando vai alavancar. Ou seja, só o aspecto financeiro", conta. 

No caso da startup de Carvalho há também um fator que o investidor leva em consideração: o ambiente de negócios pouco amigável no Brasil. 

FUNCIONÁRIOS DA FIRST ENERGY INSTALAM PAINÉIS EM UMA INDÚSTRIA/DIVULGAÇÃO

Apesar dos avanços no compromisso com a redução de emissões de carbono do acordo de Paris, na Conferência do Clima da ONU realizada em dezembro, no Brasil não há modelos de financiamento adequados para a energia fotovoltaica. 

Outro fator que pode ter contribuído para que o engenheiro não tivesse encontrado ainda o anjo é a própria recessão econômica. O anjo naturalmente tem apetite ao risco, mas ficou mais cauteloso em relação à gestão financeira da startup. 

Agora, Carvalho está procurando um anjo em outros canais e reavaliando o plano de negócios e a alavancagem. Até agora, ele e mais três sócios colocaram a empresa em operação com investimento próprio, de cerca de R$ 50 mil. Ele diz que, de acordo com o plano de negócios, precisamos de aporte de R$ 500 a R$ 800 mil para trazer o faturamento para a faixa de R$ 3 a R$ 5 milhões. 

Hoje operando nos três segmentos (residência, comércio e indústria), a empresa teve nos primeiros seis meses de operação um faturamento próximo de R$ 100 mil. 

A energia elétrica mais cara em 2015, conta Carvalho, ajudou a captar clientes, pois com o sistema fotovoltaico a economia pode ser de 30% a 95% na conta, dependendo do porte de consumidor.  

NÃO HÁ CRISE PARA STARTUPS E ANJOS

Aronchi, do Sebrae-SP, lembra que para startups não há crise, principalmente se o negócio tem potencial de ganhar escala rapidamente e é inovador em setores também tradicionais como energia, saúde, educação, mobilidade urbana, agronegócio e financeiro. 

Ele diz que o empreendedor deve se preparar antes de procurar um anjo, testando muito sua ideia junto a clientes, fazendo adaptações e corrigindo erros. Isso ajuda o investidor a ter uma melhor noção do risco do aporte no negócio. "Pesquise os concorrentes, as barreiras de entrada para não queimar a inovação", completa. 

Erica, do ISE Business School, lembra que grandes empresas surgiram em períodos de crise econômica porque empreendedores e investidores ficam mais atentos a oportunidades no mercado. 

"Para o investidor é um momento de diversificação, principalmente se olhar para o longo prazo. As empresas ficam mais baratas. A projeção da entidade Anjos do Brasil é que o investimento anjo cresça 30% em 2015 comparado ao ano anterior", conclui. 

FOTO: Thinkstock e Divulgação