Gestão

Sonhe grande com a Endeavor


Saiba como é o processo seletivo da organização de fomento ao empreendedorismo, que congrega 78 empresas brasileiras com faturamento que somou mais de R$ 3 bilhões em 2014


  Por Italo Rufino 25 de Setembro de 2015 às 13:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Há 15 anos no Brasil, a Endeavor tem como missão reunir os melhores empreendedores em um ambiente de negócios favorável para o crescimento das empresas e, consequentemente, da economia local. 

“O motor da mudança é o empreendedorismo. Nada pode ser mais importante para alavancar o crescimento de um país”, afirma Beto Sicupira, sócio do 3G Capital e membro do conselho da Endeavor, em um relatório da organização. 

No entanto, não é qualquer empresa que pode participar da entidade. A Endeavor busca empreendedores à frente de negócios com grande potencial de crescimento e geração de empregos.  

“Buscamos as grandes empresas enquanto pequenas”, afirma Marco Piacentini, gestor de busca e seleção de empresas da Endeavor em Santa Catarina. 

Veja, a seguir, como acontece o processo seletivo e o que fazer para sua empresa despertar o interesse da Endeavor. 

BUSCA DE PARTICIPANTES 

A seleção tem início com os mentores da Endeavor – executivos, investidores e empreendedores – indicando empresas de destaque em seu mercado de atuação. Cerca de 3 mil empresas são indicadas anualmente. 

Na sequência, num momento chamado First Opinion, profissionais da Endeavor analisam as empresas pelos seguintes critérios: 

• Potencial de crescimento. Em média, as selecionadas entre 2011 e 2014 cresceram anualmente 21%. São empresas que desbravam mercados emergentes e que possuem muita margem para crescer.

• Diferencial competitivo sustentável. São valorizadas aquelas que possuem produtos ou processos inovadores com barreiras de entradas difíceis de serem superadas, como base de clientes consolidada, que dificultam uma possível concorrência no futuro. 

• Excelente execução. São estimados empreendedores que usam a criatividade para resolver desafios e que conseguem reunir e inspirar uma boa equipe na operação da empresa. 

A maioria das empresas é desclassificada nessa fase. Em média, cerca de 100 passam para a próxima etapa. 

 

ANÁLISE DOS MENTORES 

A fase Second Opinion é baseada em conversas entre os empreendedores e os mentores. A Endeavor conta com mais de 300 mentores – entre eles, Sônia Hess, da Dudalina, José Galló, da Renner, e Meyer Joseph Nigri, da Tecnisa. São cerca de cinco encontros entre o empreendedor e diferentes mentores. 

“É a fase para identificar se a empresa está alinhada com os valores da Endeavor”, afirma Caio Jardim, analista de apoio a empreendedores da entidade. 

Nessa etapa, as estratégias para o futuro são questionadas. Os empreendedores respondem de que maneira planejam manter o crescimento, qual o nível de escala (o quanto consegue aumentar o faturamento em velocidade superior à dos custos) e como podem reforçar o diferencial competitivo.

Um fator com peso significativo é o perfil do empreendedor. Ele tem de saber lidar bem com feedbacks e ter características para também ser um mentor no futuro. 

PIACENTINI, GESTOR DE SELEÇÃO: "BUSCAMOS AS GRANDES EMPRESAS ENQUANTO PEQUENAS"

Em outro momento, o empreendedor participa de um teste online e é submetido a uma entrevista presencial sobre questões éticas.

São perguntas a respeito de como lidam com pagamento de impostos e sonegação, valorização de pessoas e respeito a práticas trabalhistas, gestão de risco corporativo e ambiental. A análise é aplicada pela S2 Consultoria, especializada em gestão de risco de fraude focada em pessoas. 

Entre os dilemas encontrados está a desatenção com a densa carga tributária brasileira. “Há empreendedores que não pagam certos tributos devido ao desconhecimento”, diz Piacentini. “Nesses casos, damos orientações sobre como adequar a situação da empresa.”

A empresa também passa por uma due diligence que busca identificar possíveis riscos jurídicos e financeiros. A auditoria é conduzida pela Ernest Young. 

APRESENTAÇÃO PARA LÍDERES EMPRESARIAIS 

Nessa fase, batizada de Painel Local, os empreendedores e suas empresas são postos à prova pelo conselho da Endeavor, que tem entre seus membros Laércio Cosentino (Totvs), Jorge Paulo Lemann (3G Capital) e Romero Rodrigues (Buscapé Company).  

A avaliação é composta por uma apresentação – pitch – de 15 minutos. Mais dez minutos são dedicados a perguntas dos conselheiros e, finalmente, outros dez minutos de feedback e avaliação. Geralmente, há quatro painéis por ano. Em média, 15 empresas participam dessa fase. 

A Uatt?, rede catarinense de lojas de presentes, participou do processo e foi aceita em 2012. Entre os feedbacks estava a orientação de ter melhores práticas de governança e gestão, que eram deficientes e poderiam comprometer a empresa no futuro. 

“Iniciamos, então, uma reestruturação”, afirma Darino Tenório, diretor de finanças, gente e gestão da Uatt?, que foi mentor Endeavor antes de ser convidado para ser sócio da Uatt, em 2014. “A maioria dos gestores foi substituída, alteramos o sistema de metas e implantamos um conselho consultivo com membros experientes em grandes companhias.” 

TENÓRIO, DA UATT?: FEEDBACKS DO PROCESSO SELETIVO MOTIVARAM A REESTRUTURAÇÃO DA EMPRESA

APROVAÇÃO MUNDIAL

A última etapa é um painel internacional com duração de três dias. O evento acontece em um dos 21 países em que a Endeavor atua. É a vez dos empreendedores serem sabatinados por mentores internacionais.

No último dia, a banca avalia os participantes. Executivos de grandes companhias, como Amazon e Linkedin, dão o veredicto – e a aprovação deve ser unânime.

A VIDA COMO MEMBRO DO TIME 

As empresas passam a contar com um gestor da Endeavor dedicado a entender seus desafios e fazer conexões com mentores. “Ajudamos a resolver dificuldades comuns que surgem durante a fase de forte crescimento”, afirma Jardim. 

Entre os problemas estão como preparar a empresa para atrair investidores, como implantar controle financeiro e como manter a cultura organizacional após contratar muitos funcionários. 

Em 2012, o paulista Rogério Gabriel, fundador da Prepara Cursos, rede de franquias de ensino profissionalizante, se tornou um empreendedor Endeavor. No mesmo ano, Gabriel criou mais uma marca, a Ensina Mais, que oferece aulas de reforço escolar para crianças e adolescentes. 

A estratégia fez com que o grupo faturasse R$ 290 milhões em 2014 e motivou a criação de mais duas marcas, English Talk e Pingu’s English, especializadas em idiomas para adultos e crianças, respectivamente. 

GABRIEL (DE TERNO AO CENTRO) JUNTO A FUNCIONÁRIOS DO GRUPO PREPARA: MENTORES APOIARAM A EXPANSÃO

Devido à alta complexidade dos negócios, Gabriel consultou o mentor Martins Escobari, diretor-executivo em São Paulo da General Atlantic LLC, empresa de investimentos. 

“Ele deu a ideia de mudar a estrutura organizacional do grupo", afirma Gabriel. "Criamos unidades estratégicas para cada marca com diretores exclusivos, que são responsáveis pelo negócio como se fossem os donos.” 

Gabriel também recebeu a ajuda da mentora Sandra Betti, diretora da MBA Empresarial, consultoria de recursos humanos. “A Sandra nos auxiliou no processo de promoção de dois funcionários e na procura de mais dois executivos de mercado para assumirem as diretorias das marcas.”

Atualmente, além de comandar o Grupo Prepara, Gabriel também é mentor no programa Promessas Endeavor, que apoia pequenas empresas que faturam até R$ 3,6 milhões.

“O legal de participar da Endeavor é ser inspirado e poder inspirar outros empreendedores que acreditam em valores e em causas para gerar e distribuir riquezas”.