Gestão

Segunda geração transforma restaurante tradicional em rede lucrativa


Há seis anos, Felipe Lopes (foto) assumiu o Jangada, em Mogi Guaçu, no interior paulista, com o objetivo de reconduzi-lo ao topo. Hoje, a rede com três unidades fatura mais de R$ 3 milhões por mês


  Por Mariana Missiaggia 23 de Setembro de 2016 às 13:14

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Há 52 anos, o restaurante Jangada abriu as portas em Mogi Guaçu, a 160 quilômetros de São Paulo. Construído às margens do rio que dá nome a cidade, o estabelecimento tinha como proposta oferecer "o melhor da culinária caiçara". 

E assim foi durante muitos anos. Com espaço para atender 150 pessoas simultaneamente, o restaurante se tornou uma das opções mais tradicionais da pequena cidade, com pouco mais de 100 mil habitantes.

O negócio familiar ganhou fôlego quando a segunda geração chegou e trouxe uma série de mudanças no atendimento, cardápio e infraestrutura.

Hoje, o Jangada está presente em mais duas cidades, Limeira e Campinas e as três unidades juntas faturam mais de R$ 3 milhões.

O plano é inaugurar o próximo restaurante em Bertioga, no litoral de São Paulo, para depois avançar em mercados maiores  - como a própria capital paulista e Ribeirão Preto. 

Como ocorre na maioria das famílias empresárias, as mudanças que levaram ao crescimento, trazidas pelo filho de um dos fundadores, não foram tão fáceis de ser implementadas. Mas hoje isso é página virada.

O pai acompanha o negócio à distância, enquanto cada um dos três filhos cuida de uma unidade do Jangada. 

É uma história que começou quando Felipe Lopes, 28 anos, ainda era um menino e acompanhava de perto o sucesso de seu pai, Antônio Lopes, e outros dois sócios.

Ainda que sem um olhar crítico sobre o negócio, o filho recorda que gostava de conversar com os funcionários, saber qual era a função de cada um e também como tudo funcionava ali dentro.

"Observava que havia muita coisa errada, que o restaurante não acompanhava a evolução do mercado. O que estava no auge na década de 1990, já era decadente nos anos 2000".

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Em 2009, com a saída de dois sócios, Antônio se tornou o único proprietário do Jangada que, estava avaliado em aproximadamente R$ 500 mil.

Foi quando Felipe decidiu adiar os planos de começar uma faculdade, e passou a ajudar o pai nos negócios da família.  

Ele conta que os problemas iam desde infraestrutura e falta de dinheiro no caixa, passavam por equipamentos ultrapassados, e resultavam em uma equipe desmotivada.

FACHADA DO JANGADA, EM MOGI GUAÇU

No primeiro ano em que dividiu a administração com seu pai, Felipe constatou que o faturamento médio mensal de R$ 200 mil, e o movimento de dois mil clientes por mês estavam muito abaixo do potencial do negócio - que hoje tem uma receita de R$ 1 milhão por mês.

A primeira decisão de Felipe foi melhorar o atendimento - a única questão que poderia ser resolvida sem dinheiro. Dessa forma, ele passou a atender pessoalmente a cada um que chegasse ao Jangada.

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E aproveitava o momento para contar que o estabelecimento estava passando por algumas modificações, e que críticas eram bem-vindas. O próximo passo foi passar semanas provando tudo o que a casa oferecia no cardápio - quatro tipos de peixe e um de camarão.

Enquanto comia, Felipe percebeu que não havia um padrão na qualidade da comida. "Dependia da equipe e do humor do chef. Alguns dias estava bom, outros dias estava péssimo".

A falta de intimidade com a cozinha era outro item que o incomodava. Nem Felipe, nem seu pai sabiam cozinhar. Além disso, ele percebeu que Antônio não frequentava a cozinha.

UM DOS NOVOS PRATOS DA CASA

O próximo passo foi se matricular em um curso de gastronomia. Em pouco tempo, Felipe já começou a produzir algumas receitas e incluiu novidades no cardápio, com oito tipos de pescados em 30 combinações de pratos. "Trabalhei duro durante um ano. Ficamos muito bons em atendimento e qualidade".

Em quatro meses, o número de clientes atendidos dobrou, e o tíquete médio da loja subiu de R$ 45 para R$ 70. Felipe acreditava ser o momento de finalmente, reformar  e aumentar o espaço.

O pai, Antônio, discordava. Seria preciso R$ 1 milhão para dar uma nova cara ao restaurante, e ele não tinha essa quantia.

Mesmo assim, Felipe insistiu. Conseguiu um empréstimo no banco, e arrumou uma confusão com o pai. "Só tinha o apoio da minha mãe. Meus irmãos também achavam que eu estava louco".

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Em pouco tempo, o jovem provou que tinha razão. A reforma atraiu ainda mais clientes ao Jangada, e em um ano eles tiveram o retorno do que haviam investido, além de liquidar todas as dívidas da casa.

O quadro de funcionários também precisou ser ampliado, já no primeiro mês após as obras. De 16, o número passou para 45.

Já com a benção do pai, e a chegada da irmã Maria Rosa Lopes, 33 anos, ao negócio, Felipe tinha mais um plano: transformar o Jangada em uma rede especializada em frutos do mar.

FAMÍLIA LOPES: FELIPE; MARIA ROSA, FERNANDO, E ANTÔNIO

O desejo era levar a marca para Campinas, e testar o modelo do negócio na principal cidade do interior do Estado, onde há também maior concorrência, e um público mais exigente.

No entanto, todas essas características tornam os terrenos e imóveis ainda mais caros. Felipe seguiu pesquisando as oportunidades na região até encontrar o escolhido - um terreno de 1.200 metros quadrados, em Limeira, a 140 quilômetros de São Paulo, na rodovia Anhanguera.  

Mas, para seguir adiante, além do apoio dos pais, e da irmã, Felipe também precisava da dedicação integral do irmão mais velho, Fernando Lopes, 36 anos, administrador e consultor.

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"Ele (Fernando) era a força necessária para a administração da rede e ficou responsável pela abertura na nova loja", diz.

Com mais um reforço na equipe e o investimento de R$ 3,5 milhões, a família inaugurou a segunda unidade do Jangada, em 2012, em menos de dez meses de obra. A inauguração trouxe mais uma novidade ao cardápio, o rodízio japonês (a partir de R$ 79,90).

ESPAÇO INTERNO DO JANGADA, EM CAMPINAS

O sucesso do novo restaurante mesmo em meio a crise trouxe a segurança que a família precisava para planejar a tão sonhada expansão, que veio de encontro com a construção da alameda gastronômica, do shopping Dom Pedro, em Campinas, a 106 quilômetros de São Paulo.

"Um aprendizado enorme, pois lidamos com um público muito diverso e o giro de clientes é bem mais rápido".

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Aberta há quase um ano, a unidade de Campinas, é hoje, a que detém o maior crescimento da rede, com faturamento mensal acima de R$ 1 milhão, mesmo dividindo o espaço com restaurantes tradicionais, como L´entrecôte Paris, Madero e Jamie´s Italian. Juntas, as três unidades somam 230 funcionários, e 30 mil clientes por mês.

Com uma nova inauguração prevista para novembro, em Bertioga, no litoral norte, a 115 quilômetros de São Paulo, outros dois endereços já estão na mira de Felipe: São Paulo, e Ribeirão Preto, a 336 quilômetros da capital.

O desejo da família é que o negócio cresça longe do modelo de franquias. A ideia é futuramente, seguir uma estratégia similar a utilizada pelo Outback, em que os próprios funcionários são preparados para assumir uma loja, em sociedade com os fundadores.   

FOTOS: Divulgação