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Há dois anos, a Visa, empresa de pagamentos digitais, criou um laboratório de inovação para cocriar produtos e serviços. Desde então, quase 30 soluções foram desenvolvidas


  Por Italo Rufino 01 de Março de 2019 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


No último ano, os clientes da rede de cafeterias Suplicy Cafés, com 14 unidades na cidade de São Paulo, ganharam uma comodidade. A empresa lançou um aplicativo que permite realizar o pedido e o pagamento com antecedência. Aí é só passar na loja e retirar a encomenda, sem fila no balcão ou caixa.

Em dezembro passado, foi a vez da rede varejista Riachuelo apresentar uma nova solução em meio de pagamento.

A empresa vai oferecer um cartão que possibilita efetuar pagamentos por meio de aproximação, diretamente no terminal do caixa da loja.

Com a tecnologia, não há a necessidade de passar ou inserir o cartão numa máquina – em algumas situações, nem a senha é necessária,

A tecnologia conta com os mesmos padrões de segurança dos cartões de chip. De acordo com um relatório da Americas Market Intelligence, a funcionalidade reduz em cinco segundos o tempo das transações – o que pode parecer muito pouco, mas faz enorme diferença numa rede com cerca de 300 lojas que processa milhares de vendas diariamente.

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Por trás das duas soluções está a Visa. Nos últimos anos, a empresa tem se destacado no mercado devido seu ritmo de inovações. E o retorno tem sido positivo.

Considerando somente as transações realizadas pela Visa por meio de pagamentos móveis via aplicativos de smartphones (como Samsgung Pay e Android), a curva de crescimento foi de 431% em 2018, em comparação com o ano anterior.

EQUIPE DE INOVAÇÃO DA VISA DURANTE CAMPUS PARTY: DESIGN
THINKING PARA DESENVOLVER PROJETOS 

Fazer uma empresa crescer como startup sendo uma das líderes do segmento bancário, ainda bastante burocratizado, é um tema que Erico Fileno, diretor de inovação da Visa, domina. 

Ele, ao lado de sua equipe, participou de uma palestra na recente Campus Party, evento de tecnologia, inovação e empreendedorismo.

Há pouco mais de dois anos, a Visa lançou o São Paulo Innovation Center, núcleo de pesquisa e desenvolvimento que firma parcerias estratégicas para cocriar novos produtos.

De acordo com Fileno, a ideia de criar soluções internamente e empurrar para o mercado não funciona mais.

“Os clientes querem soluções customizadas e que sejam relevantes para seus problemas”, disse o executivo. “E para isso a empresa precisa criar conexões com os próprios clientes, parceiros e outros stakeholders, como startups e aceleradoras”.

Os números do São Paulo Innovation Studio são prolíficos. Mais de 1,7 mil profissionais passaram pelo espaço, que recebeu mais de 140 eventos. O número de sessões ultrapassou 55, para discutir os problemas dos clientes e parceiros e cerca de 30 encontros para desenvolver soluções em conjunto. O resultado: 26 protótipos funcionais.

O método utilizado São Paulo Innovation Center é o Design Thinking. Popular entre as startups do Vale do Sílicio, a metodologia se baseia numa imersão para conhecer o cliente e desenvolver produtos sustentáveis (que gerem lucro) e viáveis tecnicamente.

Conheça dicas da equipe de inovação da Visa para dar os primeiros passos para desenvolver projetos inovadores:

PRIORIZE AS IDEIAS

Falta de alinhamento estratégico, pouca vontade para inovar, preocupação com o retorno, uso de diferentes indicadores entre as áreas e times com muitas demandas são um real perigo para a inovação.

A solução pode ser priorizar ideias que aparecem frequentemente nas discussões internas e com clientes com mais chances de trazer impacto positivo para a empresa.

DEFINA UM ESCOPO

SALA DO SÃO PAULO INNOVATION CENTER: MAIS DE 1.700
PROFISSIONAIS JÁ PASSARAM PELO LOCAL

A ideia é adequar o escopo do projeto a realidade de tempo e recursos da empresa. Quando não há um propósito claro, a possibilidade de o time ficar desmotivado aumenta.

Então, é necessário definir um problema que precisa ser resolvido.

Um exercício que pode funcionar é o “Como nós podemos?”. Imagine que uma mãe, num aeroporto, correndo atrás de seus filhos agitados devido ao atraso do voo.

Retire o viés negativo e faça perguntas como: “de que forma posso transformar o saguão num parque de diversão?” ou “como evitar que as crianças perturbem outros passageiros?”.

CHAME AS PESSOAS CERTAS

O projeto precisa contar com pessoas de diferentes áreas, formações e características. A ideia é que vivências diferentes ampliarão o repertório para as discussões. Também é interessante convidar extremos: trazer uma pessoa que seja entusiasta de tecnologia e outra sem qualquer aderência.

Na Visa, a equipe de inovação possui quatro membros fixos. Mas cada projeto reúne 20 integrantes, 10 funcionários e 10 convidados da empresa cliente. Há também os integrantes de apoio, que costumam ser da área jurídica e de marketing.

OUÇA OS CLIENTES

Em muitas empresas, o que reina é o “achismo” – e a maioria deles está longe da realidade. Para não criar um produto que não resolve nenhum problema, é necessário conversar muito com os clientes.

A dica são reuniões presenciais descontraídas para ouvir suas experiências. A ideia é ser no estilo Globo Repórter: de onde vieram, como vivem, o que comem. Também não se esqueça dos extremos: ouça o cliente que compra muito e o cliente que quase nunca compra.

Os dados são ótimos, mas alinhados com pesquisa qualitativa podem gerar insights ainda maiores.

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VALIDE NA PRÁTICA

Ouviu o cliente, teve uma ideia e formulou uma hipótese? Valide a solução de forma rápida e barata. Crie um protótipo que demonstre o conceito e mostre para o cliente.

Na Visa, já foram usados peças de Lego para validar uma ideia de um totem de atendimento e folhas de papel para demonstrar um fluxo de usabilidade de um aplicativo.

Ao apresentar a solução, pense também na fase de pré (como o produto chegará ao cliente) e de pós-experiência (como ele poderá reverberar a ideia para outras empresas).

IMAGENS: Divulgação