Gestão

Pequenas empresas só terão gestão de grandes com ambiente econômico melhor


Especialista em produtividade, o economista José Scheinkman, da Universidade Columbia, diz que governo deve investir em infraestrutura


  Por Rejane Tamoto 31 de Agosto de 2015 às 14:58

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Empresas brasileiras modelares no que se refere à gestão e produtividade, casos da Natura e da AB Inbev, só poderão ser copiadas pelas pequenas quando o país vencer os desafios na economia. É necessário, primeiro, fazer o ajuste fiscal e resgatar a estabilidade. 

Na sequência, será preciso investir em infraestrutura, retirar barreiras ao comércio internacional, acabar com o protecionismo e fazer a reforma tributária. São medidas que requerem tempo e esforço político – mas, sem elas, as pequenas empresas não conseguirão ter condições para aumentar a produtividade. É o que diz o carioca José Alexandre Scheinkman, professor de economia na Universidade Columbia.

Segundo ele, o próprio ajuste fiscal – que faz o governo ter menos recursos para proteger setores – pode acabar ajudando a melhorar a produtividade no Brasil. 

O especialista foi um dos palestrantes do 7º Congresso Internacional dos Mercados Financeiro e de Capitais da BM&FBovespa, que terminou no sábado (29/07) em Campos do Jordão. 

No evento, ele também se mostrou preocupado com os rumos da economia brasileira. "O Brasil já tem 50% de chances de perder o grau de investimento", disse. "É uma situação na qual não dá para ficar tranquilo. Vários investidores institucionais, que têm papéis brasileiros, já começam a se desfazer deles. Hoje, qualquer empresa brasileira que precisa levantar capital lá fora encontra certa relutância."

Ele ministrou palestra sobre o desafio da produtividade no Brasil e disse ao Diário do Comércio que apesar do baixos patamar e ritmo de crescimento da produtividade do Brasil, de forma geral, há companhias muito eficientes. A produtividade é medida pela fabricação de um produto por unidade de insumo. Outra forma de medir é a quantidade de produto por trabalhador.  

"A cultura de gestão no Brasil é muito forte, mas infelizmente ainda não baixou para as firmas menores. E isso não é culpa dessas empresas, mas do ambiente em que elas trabalham, que não é condutivo a práticas de gestão. O que falta ao brasileiro é ter um ambiente econômico melhor. Quando isso melhorar, naturalmente as firmas pequenas serão bem geridas", disse. 

Durante a palestra, ele disse que a gestão seria o terceiro pilar importante para o aumento da produtividade - os outros dois são o sistema regulatório e legal e a infraestrutura. 

E por gestão ele define o monitoramento de metas e incentivos sistemáticos em uma empresa. Scheinkman disse que estudos mostram que, no que diz respeito a práticas de gestão, os Estados Unidos e a Alemanha estão no topo enquanto o Brasil está perto da Grécia. 

As práticas de gestão ruins são uma consequência de mercados pouco competitivos e com excesso de regulação, como o brasileiro. Estudos mencionados por ele também mostraram que as firmas que exportam têm uma gerência melhor do que as que atuam apenas no mercado doméstico, assim como empresas que têm capital aberto ou sócio capitalista de fundos de private equity. 

As mais bem geridas e, consequentemente, produtivas, têm empregados com boa educação, processos de produção bem definidos e tendem a investir mais em Tecnologia da Informação (TI). Para aplicar tática de gestão moderna. 

Um bom exemplo de setor, segundo o economista, é o da agricultura, que tem um nível elevado de produtividade. O professor explica que na década de 1980 o governo fez investimentos altos em pesquisa no setor, e adotou técnicas dos Estados Unidos, além de tecnologia.

Tudo isso foi adaptado ao clima tropical e ao solo brasileiro. "Então, hoje, a única tecnologia que o Brasil exporta é a da agricultura. O ex-presidente Collor foi um dos piores do Brasil, mas ajudou ao retirar licenças para exportar. Houve migração de produtores e ganhos de escala, sem que fosse preciso proteger agricultores", diz. 

Scheinkman comparou a produtividade do Brasil com a de países desenvolvidos e emergentes e detectou que na agricultura o crescimento foi 1,6% mais rápido do que a produtividade agrícola dos Estados Unidos entre 1990 e 2009.

No setor de intermediação financeira - no qual entram bancos, seguradoras, corretoras entre outros - a produtividade cresceu 4% ao ano entre 2000 e 2009. 

O sucesso brasileiro é limitado a esses dois setores já que, na indústria de transformação e na construção civil houve uma queda de 1% ao ano na produtividade no mesmo período. 

Sem mencionar números, o especialista afirmou que a distribuição de alimentos é ineficiente em termos de produtividade, assim como as empresas informais. Ele explica que a baixa produtividade da construção, por exemplo, tem como pano de fundo o sistema de taxação e a informalidade como barreiras. 

"Um dia, conversando com o governador do Rio de Janeiro, soube que o setor privado tem que satisfazer demandas para construir conjuntos residenciais, o que equivale a custos de dezenas de milhares de reais".

"Isso desestimula a construção de unidades e o que sucede é que a pessoa que quer morar na favela tem de construir a casa praticamente a mão", avalia.  

Scheinkman também mostrou, durante sua apresentação, que a produtividade não cresceu no Brasil, de forma geral, de 1984 a 2014. Nesse período, outros países, como a Coreia do Sul por exemplo, se aproximaram do patamar dos Estados Unidos. 

Ele disse que se o Brasil conseguir crescer na mesma taxa de países avançados, nos próximos anos, ainda assim continuará produzindo o equivalente a um quinto ou um quarto dos Estados Unidos, Alemanha, Japão e França.

As medidas para que o Brasil consiga produzir mais com menos insumos passam pela melhora na qualidade do trabalho, por meio da educação do trabalhador e os investimentos em capital físico (o equivalente a colocar mais máquinas nas mãos dos trabalhadores).

"A educação no Brasil não fez muito efeito e creio que isso aconteceu porque há dificuldade na mensuração da qualidade dos investimentos nesse setor. O governo deveria fazer como o cara da banca de pastel - se abrir um concorrente que atrai todos os compradores ele vai copiar o que está dando certo. Não vejo no país um mecanismo para examinar e copiar sucessos", avalia.
 

AS 3 PRIORIDADES DA PRODUTIVIDADE 

Os desafios são muitos, mas para Scheinkman uma medida de impacto imediato para o Brasil melhorar a produtividade é a criação de um sistema regulatório adequado para o investimento em infraestrutura.

"A mais rápida seria a criação de melhores condições de investimento na infraestrutura, que hoje é precária no Brasil. Ao examinar o desempenho da Ásia Ocidental e da América Latina no século XX é possível ver que boa parte da diferença é explicada pelo investimento em infraestrutura", avalia. 

O professor lembra que o último grande avanço brasileiro em infraestrutura foi na privatização da telefonia, na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Ele diz que o governo, agora, parte do zero pois criou um programa de concessões que tornava o investimento menos vantajoso e que prejudicou quem havia investido. 

Scheinkman diz que será preciso resgatar a credibilidade, já que até a Argentina tem uma infraestrutura melhor do que a brasileira. No entanto, para privatizar setores importantes como o de ferrovias e portos, o governo terá de rever a regulamentação e adequá-la a novos investimentos. 

A segunda prioridade, segundo Scheinkman, é a integração do Brasil à cadeia de produção global. "Ficamos fora das cadeias mundiais de produção, o que encarece a utilização de insumos, que também são protegidos. Isso retira a eficiência do país. Veja o exemplo do setor de Tecnologia da Informação, que precisa comprar insumos brasileiros de custos 40% maiores do que se adquiridos no exterior", afirma.

O professor lembrou que o sistema regulatório e legal não é apropriado aos negócios no Brasil, com uma política industrial que protege os setores menos eficientes e com barreiras ao comércio internacional. 

"O Brasil exagera nessa política. E, nesse sentido, o ajuste fiscal pode ajudar. No fundo, todos os programas de subsídios custam ao Estado, que vai deixar de pegar dinheiro do contribuinte e dar para o setor automobilístico", diz. 

Mas a terceira prioridade seria a mais lenta: a reforma tributária. "Uma das coisas que faz a firma brasileira ser ineficiente é o tributo. Não existe empresa que saiba quanto tem de pagar em PIS porque a confusão é total e é preciso ter diversos advogados", diz. 

Scheinkman avalia que a volta da CPMF - já descartada pelo governo - seria um depressor da produtividade pois é um imposto aplicado a tudo que uma pessoa compra de outra. Ele avalia que o sistema de impostos parece ter sido desenhado para maximizar a informalidade. 

FOTO: Luiz Prado/Agência Luz/Divulgação