Gestão

Páscoa: uma solução caseira para driblar a alta do dólar


Ana Maria Lopes (foto), diretora da Casa Santa Luzia, decidiu, neste ano de crise, substituir a Colomba Pascal importada da Itália por produtos feitos “em casa”


  Por Fátima Fernandes 05 de Fevereiro de 2016 às 12:03

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Nos últimos anos, uma das estrelas da Páscoa da Casa Santa Luzia, um dos supermercados mais tradicionais de São Paulo, foi a Colomba Pascal produzida na Itália.

A cada ano a loja importava milhares de unidades para atender uma clientela acostumada a consumir o pão doce italiano em formato de pomba, assim como as tradicionais castanhas portuguesas no Natal.

Vai ser diferente nesta Páscoa. A empresa decidiu trazer de avião apenas 100 unidades para atender um público especial, que vê na Colomba Pascal valor afetivo e deseja com ela presentear alguém muito querido.

Com o dólar próximo de R$ 4, a Colomba italiana vai chegar para o consumidor ao preço de R$ 130 a R$ 150. No ano passado, o modelo mais caro à venda custava R$ 60.

“O caso da Colomba é emblemático do cenário que está aí. 2016 será um ano para trabalhar com muito mais critério”, afirma Ana Maria Lopes, diretora da Santa Luzia.

A relação custo-benefício de um produto sempre foi uma preocupação da Casa Santa Luzia, de acordo com Ana Maria, apesar do ponto estar localizada no coração dos Jardins, onde se concentra a clientela de maior poder aquisitivo.

Assim, em vez de trazer as Colombas prontas da Itália, o que fazia por meio de importação própria e de terceiros, a loja produzirá “em casa” e espera atrair o cliente com o apelo artesanal.

No ano passado, a loja já havia oferecido o produto com o sabor tradicional (amêndoas com laranja). Neste ano, vai lançar uma colomba com limão siciliano e com gotas de chocolate. O preço por unidade ainda não está definido.

Ana Maria, filha de Jorge da Conceição Lopes, um dos fundadores da Casa Santa Luzia, diz que, com a crise, um comerciante não pode mais se dar ao luxo de trabalhar no que ela define como “piloto automático”.

Todos os dias, das 8h às 9hs, ela se reúne com a equipe de compras, o gerente administrativo financeiro e os principais encarregados de cada setor para tratar do desempenho de várias categorias de produtos.

O que ali se discute é o giro das várias categorias de produtos nas gôndolas, além do andamento das negociações com os fornecedores para a reposição de estoques.

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Neste início de ano, de acordo com ela, há muita pressão de fornecedores para aumento de preços em percentuais que variam de 10% a 12%, em média. São reajustes considerados muito elevados, especialmente em um momento em que o orçamento do consumidor está cada dia mais apertado. 

“Se o fornecedor bate o pé, o que temos feito é diminuir a quantidade de compra, pois, se os preços sobem muito, o produto não gira”, afirma ela.

CASA SANTA LUZIA: 2.500 RÓTULOS DE VINHOS

A Casa Santa Luzia é conhecida por manter uma farta adega de vinhos, com cerca de 2,5 mil rótulos. Com o dólar caro, a loja decidiu oferecer para os clientes as garrafas menores.

 “Alguns rótulos não estão disponíveis em meia garrafa, mas estamos mostrando para o cliente opções mais em conta, caso ele não queira abrir mão de um bom vinho.”

Na loja, o consumidor encontra meia garrafa de vinho por preços que variam de R$ 26, como o Alabastro Aliança, a R$ 81, como o Chablis Branco.

Quem circula pelo supermercado pode não ter percebido, mas atrás do fundo da loja existe praticamente uma cozinha industrial, onde a empresa possui padaria, confeitaria e rotisserie.

Num momento como este de forte pressão de custos, a Casa Santa Luzia tem procurado elevar mais ainda a oferta de produtos próprios, apostando também na demanda do consumidor por praticidade e conveniência.

Atualmente, a loja possui no cardápio 60 tipos de entradas, antepastos e saladas, 20 variedade de tortas e quiches, 45 acompanhamentos, 30 pratos de carnes, 20 de peixes, 14 de massas, além de 15 opções de caldos e sopas.

“Como o cliente está com o tempo curto, nossa proposta é oferecer pratos variados e também refinados em pequenas porções, de uma forma que se evite o desperdício”, diz.

A produção própria da Casa Santa Luzia tem ido tão bem que hoje já representa aproximadamente 37% do faturamento da empresa.

“Estamos seguindo um caminho interessante com a produção de pratos prontos para consumir, congelados, pães diversos, doces. E essa não é uma forma apenas de enfrentar a crise, mas de atender as necessidades dos consumidores que estão se colocando. Quem tem tempo para cozinhar hoje em dia?”

RUPTURA

Além da forte pressão para aumento de preços, um dos maiores problemas enfrentados pela Casa Santa Luzia neste ano é a ruptura de produtos.

A loja, que trabalha com 30 mil itens, está com dificuldade para repor produtos que saem das gôndolas. Há cerca de um mês, por exemplo, o supermercado não consegue repor o salame kascher que sempre vendeu para a comunidade judaica da região.

“Com a crise, as empresas reduziram a produção. As grandes indústrias fizeram ajustes e mexeram na logística de distribuição. Cada uma delas paga um preço alto por isso”.

Com pequenos fornecedores, diz ela, está um pouco mais fácil administrar a reposição de produtos, até porque eles trabalham de forma mais próxima da loja.

Neste momento, as rupturas estão mais concentradas nas linhas de produtos de limpeza, como palhas de aço, sabão em pó e detergentes. Ana Maria espera que a economia ande nos trilhos o mais rapidamente possível até para que ela consiga trabalhar um pouco menos.